O CHAMADO DAS SOMBRAS

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Felícia nunca soube dizer exatamente em que momento os sonhos começaram. Durante muito tempo, acreditou que tudo tivesse relação com a mudança para a casa da Rua Barlow, uma construção antiga e decadente que parecia abandonada pelo resto da cidade. O imóvel ficava no fim de uma rua estreita, cercada por terrenos baldios e árvores secas que rangiam ao vento durante a noite. Havia alguma coisa errada naquela casa, embora ninguém além dela parecesse perceber. Seus pais enxergavam apenas o preço baixo, os cômodos espaçosos e a possibilidade de recomeçar a vida em um lugar maior. Felícia, porém, sentiu medo assim que atravessou a porta pela primeira vez. Não um medo comum, infantil, desses que desaparecem quando as luzes se acendem, mas algo mais profundo e instintivo, como se seu corpo reconhecesse um perigo antigo escondido ali dentro.

Antes da mudança, ela dormia facilmente. Gostava do escuro, dos ruídos suaves da madrugada e da sensação de segurança que seu quarto antigo lhe proporcionava. Depois da casa nova, dormir se tornou um suplício. Todas as noites, pouco antes de pegar no sono, ela tinha a sensação de que alguém observava cada movimento seu. Às vezes acordava no meio da madrugada e enxergava pontos vermelhos brilhando no canto do quarto, imóveis, silenciosos, esperando que ela percebesse sua presença. Então vinham os sussurros. Vozes baixas, femininas, arrastadas, que pareciam surgir de dentro das paredes.

"Venha até nós, Felícia... doce menina..."

Ela tentou contar aos pais. A mãe atribuiu tudo ao estresse da mudança. O pai disse que casas antigas fazem barulho mesmo e que sua imaginação estava exagerando as coisas. Felícia fingiu acreditar, mas no fundo sabia que havia algo terrivelmente errado. Os sonhos começaram poucos dias depois.

No sonho, ela sempre estava diante da porta do porão. Nunca sabia como chegara até ali. Apenas se encontrava parada no corredor escuro da casa, usando a mesma camisola branca, com os pés descalços sobre a madeira gelada. A porta do porão permanecia entreaberta, deixando escapar um cheiro úmido de terra e mofo. E havia também aquela sensação insuportável de que alguma coisa a aguardava lá embaixo.

Ela tentava resistir. Em algumas noites segurava a maçaneta do corredor, tentando impedir o próprio corpo de avançar. Em outras, chorava baixinho e fechava os olhos, repetindo para si mesma que aquilo era apenas um sonho. Nunca adiantava. Seus pés sempre começavam a se mover. Lentamente, degrau por degrau, ela descia a escada estreita enquanto a madeira rangia sob seu peso. Quanto mais descia, mais fria a casa ficava. O ar parecia grosso, pesado, difícil de respirar.

O porão era muito maior do que deveria ser. Essa era a primeira coisa que lhe causava estranheza. A casa vista do lado de fora não comportava aquele espaço subterrâneo interminável. As paredes de pedra úmida se estendiam para além da escuridão, cobertas por manchas negras que pareciam pulsar como carne viva. À medida que avançava, Felícia começava a ouvir um ruído delicado e constante, semelhante ao som de pequenas unhas raspando a madeira.

Então as aranhas apareciam.

No início surgiam apenas sombras se movendo pelos cantos. Depois vinham os corpos negros, brilhantes, enormes demais para serem reais. Algumas tinham o tamanho de cães pequenos. Outras pareciam grandes o suficiente para envolver uma pessoa inteira em suas patas. Elas se moviam lentamente, quase com inteligência humana, observando Felícia com uma atenção perturbadora. O pior, porém, eram as teias. Grossas e esbranquiçadas, desciam do teto como fios de carne apodrecida e grudavam em sua pele com uma textura fria e pegajosa. Sempre que tentava fugir, sentia as teias prendendo seus braços e tornozelos, puxando-a de volta para o centro do porão.

Apesar do horror, o que mais a aterrorizava era a certeza de que as aranhas não eram apenas animais. Havia consciência nelas. Maldade. Como se fossem extensões de alguma outra coisa escondida nas profundezas daquele lugar.

E havia também as figuras.

Felícia nunca conseguia vê-las claramente no começo dos sonhos. Enxergava apenas seus olhos vermelhos brilhando na escuridão, observando-a à distância enquanto as vozes repetiam seu nome em sussurros pacientes. Com o passar das noites, entretanto, elas começaram a se aproximar. Eram altas e magras, cobertas por sombras que pareciam se mover sobre a pele. Seus rostos tinham algo de humano, mas distorcido, como fotografias queimadas pelo fogo. Sorrisos largos demais se abriam em suas bocas escuras, revelando dentes finos e tortos.

"Venha até nós, Felícia..."

Ela sempre acordava antes que conseguissem tocá-la.

Até aquela noite.

Felícia abriu os olhos acreditando estar segura em seu quarto, mas imediatamente percebeu que algo estava errado. O ar tinha cheiro de terra molhada e mofo. Não havia luz alguma. Quando tentou mover os braços, sentiu uma resistência viscosa envolvendo sua pele. O pânico veio de forma instantânea.

Ela não estava na cama.

Estava no porão.

As teias cobriam seu corpo até o pescoço. Algumas aranhas caminhavam lentamente sobre suas pernas enquanto outras permaneciam imóveis nas paredes, observando-a. O som das patas se arrastando pela pedra ecoava ao redor como uma chuva seca. Felícia tentou gritar, mas sua garganta parecia travada pelo medo.

As sombras diante dela começaram a se mover.

As figuras saíram da escuridão devagar, como se já soubessem que não havia mais necessidade de pressa. Agora ela podia vê-las claramente. Seus corpos eram altos e desformes, os rostos afundados e pálidos como cadáveres esquecidos na água. Os olhos vermelhos brilhavam com uma intensidade quase hipnótica.

Uma delas se aproximou até ficar a poucos centímetros de seu rosto. Felícia sentiu um hálito úmido e pútrido tocar sua pele.

Então a criatura sorriu.

"Você se parece tanto com sua mãe", ela sussurrou.

Naquele instante, alguma coisa dentro de Felícia compreendeu a verdade antes mesmo que sua mente pudesse aceitá-la. Aquilo não havia começado com ela. Talvez nem tivesse começado com sua mãe. A casa estava esperando havia muito tempo. Esperando pacientemente por alguém da sua família retornar.

As aranhas começaram a puxá-la pelas teias, arrastando-a para o fundo do porão enquanto as criaturas observavam em silêncio reverente. Felícia tentou resistir, tentou gritar, tentou acordar mais uma vez, mas já não existia despertar possível.

Porque aquilo nunca tinha sido um sonho.

SOMBRAS DA NOITEHistórias para pegar e não largar. Descubra agora