Na pequena cidade de Ipanema, escondida entre as montanhas do interior de Minas Gerais, os moradores conheciam o som do vento que serpenteava pelas árvores e as sombras que se alongavam ao entardecer. Mas havia algo mais, algo que ninguém falava em voz alta, algo que só podia ser sentido nos calafrios que subiam pela espinha quando a noite caía. Era como se a serra que cercava a cidade estivesse viva, e seu gemido, suave e distante, estivesse sempre ali, esperando.
Durante anos, os habitantes ignoraram os estranhos acontecimentos. As vozes que se ouviam nas noites de lua cheia, os animais que desapareciam sem deixar rastro, os passos pesados na floresta. Mas, quando um corpo foi encontrado na margem do rio que cortava a cidade, o medo finalmente emergiu das sombras.
O corpo de Fernando, um agricultor simples, foi encontrado no começo de outubro. O corpo estava em posição fetal, os olhos arregalados, como se tivesse visto algo que ninguém deveria ver. Os moradores logo falaram em maldição, talvez por causa das antigas histórias que circulavam sobre a Serra do Lamento, uma cadeia de montanhas onde ninguém ousava se aventurar, mesmo de dia.
Se você perguntasse a qualquer um, desde o padeiro até o juiz, eles falariam sobre a "lenda da velha Maria". Diziam que ela tinha sido uma mulher que morava sozinha nas montanhas, nos tempos antigos, e que ela conhecia os segredos da terra. Mas ninguém sabia exatamente o que ela fizera para que, quando morreu, a terra tivesse se fechado sobre ela, criando um buraco negro onde os vivos eram engolidos e os mortos, aprisionados.
Com o corpo de Fernando, os rumores aumentaram. As pessoas começaram a evitar as trilhas mais estreitas da serra. Mas, como sempre, havia os corajosos. Luizinho, o filho do mecânico, era um deles. Ele não acreditava nas histórias. Para ele, tudo não passava de superstições de gente que não sabia o que era o mundo real.
Na noite seguinte ao enterro de Fernando, Luizinho decidiu que ia até a Serra do Lamento, descobrir por si mesmo o que estava acontecendo. Levou uma lanterna, um facão e um cigarro. Ele precisava enfrentar seus medos, provar a todos que a tal "maldição" era apenas um conto de gente supersticiosa.
Quando subiu a trilha estreita, o vento parecia mais forte, e a escuridão, mais densa. As árvores se moviam lentamente, como se estivessem sussurrando entre si. A lanterna balançava em sua mão, lançando sombras que dançavam nas pedras. O cheiro de terra úmida misturava-se ao ar frio da noite. Luizinho sabia que algo estava errado, mas não queria admitir para si mesmo.
Chegou a um ponto da serra onde o som do vento desapareceu. O silêncio era opressor, quase insuportável. Ele olhou ao redor e viu uma clareira à frente, iluminada pela luz tênue da lua. No centro, havia uma pedra grande, lisa, com marcas antigas. Uma inscrição estava gravada nela, algo que ele não conseguia entender. Quando se aproximou para examinar melhor, o chão de terra se abriu de repente, e Luizinho foi arrastado para dentro.
Ele caiu, como se tivesse sido sugado para o fundo de um abismo, até o escuro mais profundo. Quando finalmente parou de cair, tudo o que podia ouvir era o som do seu próprio coração batendo descontrolado. A lanterna, que ainda segurava em sua mão, estava apagada. Ele tentou gritar, mas sua voz não saía. Algo o envolvia, como se mãos invisíveis o segurassem firmemente.
Foi então que ele viu. As figuras. Primeiras sombras escuras, como vultos, depois formas mais claras, mais definidas. Era como se as pessoas, ou o que restava delas, ainda vivessem ali, presas àquela terra maldita. Eles eram os perdidos, aqueles que, como Fernando, haviam cruzado os limites da Serra do Lamento e nunca mais voltaram.
Aquelas figuras se aproximaram, e Luizinho finalmente entendeu o que acontecia. Não era uma maldição. Não era uma lenda. Aquela serra era um portal, uma linha tênue entre o mundo dos vivos e dos mortos, e todos que ousavam invadir aquele lugar estavam destinados a desaparecer, a serem absorvidos por uma força além da compreensão humana.
O vento soprou novamente, e as figuras começaram a sussurrar palavras que Luizinho não conseguia entender, mas que sentiu profundamente dentro de si. Eram palavras de desespero, palavras de uma promessa não cumprida. Como se aquelas almas, que uma vez foram humanas, buscassem vingança.
Ele tentou correr, mas a serra não o deixaria ir. A terra se abriu novamente, e Luizinho desapareceu no abismo, sua lanterna ainda brilhando fraca, enquanto as vozes o engoliam, cada uma sussurrando um lamento.
A cidade de Ipanema, com o passar dos meses, se esqueceu de Luizinho. Mas, sempre que a lua cheia surgia, um novo corpo era encontrado, e uma nova alma se unia ao lamento da serra. E o vento, ah, o vento continuava a sussurrar nas noites escuras, como um aviso que ninguém mais ousava ouvir.
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SOMBRAS DA NOITE
Kinh dịEste livro de contos curtos de terror apresenta uma coleção de histórias arrepiantes e sobrenaturais. Em um dos contos, um menino descobre segredos obscuros sobre sua família ao se aventurar pelo porão proibido da casa de sua avó, onde encontra uma...
