Capítulo 70

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- putaria? - Fred explica, tentando apelar para o cinismo enquanto enfrenta a ira do pai: - eu só vejo um casal aí muito lindo. Que se gosta e queria estar junto...
- casal? - Miguel contra argumenta: - isso aqui tá longe de ser um "casal". Casal é um homem e uma mulher. Fêmea e macho. E isso aqui tá mais pra...
- pra que? - Fred avança em direção ao pai: - fala, seu Miguel. Tá mais pra que?

- uma sem vergonhisse sem tamanho - o homem responde, sem pesar: - eu não criei filho pra ser viado. Pra fazer essa nojeira aqui - ele aponta novamente para a foto no celular: - mas eu sabia assim que vi esse moleque na minha casa que ele me traria problemas, esse ne...
- cuidado com o que tu vai falar - Fred rebate: - a gente não vive mais na época da ditadura não e racismo é crime.
As paredes da casa tremem ecoando a gargalhada debochada e cínica de Miguel: - olha pra mim seu moleque. Eu sou um militar. De alta patente no exército. Quase um comandante renomado. Tu acha que alguma coisa vai pegar pra mim? Ainda mais por causa desse aqui? Um ze ninguém de periferia?

- realmente hoje eu vejo que muita coisa do que eu era eu agradeço ao senhor mesmo - Fred responde: - não que eu fosse uma criança porque eu sabia exatamente o que fazia. Mas com a "referência" de pai que eu tive né...
- ótima por sinal - Miguel diz: - eu sempre te dei de tudo. Videogame e celular caro de ultima geração, dinheiro pra festas, sempre estudou nas melhores escolas, carro de último modelo...
- mas tu não me deu o principal pai - Fred diz, a voz um pouco embargada: - carinho. Afeto. Isso tudo você deixou pro Maxmiliano. Comigo era só cobrança, grito e mais cobrança.
- porque você sempre fez por merecer. Tá aí o resultado - ele aponta novamente para as fotos no celular: - um filho que além de não ter nenhum tipo de disciplina ainda é ainda é uma aberração.

Com os gritos de Miguel, a mãe de Fred, dona Elisa, se aproxima aos poucos da sala e como sempre a única atitude tomada pela aristocrata é assistir a tudo sem dizer uma palavra contra o marido: - sabe a vergonha que o pobre do seu irmão tá passando no quartel por sua causa? - Miguel continua, sem nenhuma piedade do filho caçula: - todos já viram essa pouca vergonha. E o que vai ser de mim no meu trabalho? Só Deus sabe. Mas você desde pequeno só me enche de vergonha, Frederico. Aliás não só a mim mas como a sua mãe, o seu irmão... Tá aí. Numa coisa você se saiu muito bem: em decepcionar a todos. E sempre estragar tudo com a sua presença. Começou assim quando você nasceu e vai ser sempre assim.

As palavras calam fundo no peito do rapaz. Fred sente as lágrimas chegando mas luta contra elas, se recompondo rapidamente. Olha para o pai, em seguida para dona Elisa. O avô pelo visto não estava em casa. Abaixa a cabeça e vira as costas, sem dar mais ouvidos as palavras cruéis do homem que um dia chamara de pai.

- volta aqui moleque que eu ainda não terminei.
- e precisa? Você já disse tudo o que tinha pra me dizer - Fred encerra a discussão fechando a porta e dando de costas para o apartamento. Queria apenas sumir daquele lugar naquele momento horroroso.

A única coisa que fazia Fred refrescar os pensamentos numa hora como essas era pegar seu carro e sair dirigindo sem rumo. E foi o que fez. Mas estava muito alterado. Nem percebera a velocidade com a qual estava manobrando e controlando o automóvel pelas altas rodovias. Apenas dirigia. A todo momento as únicas coisas que vinham em sua mente eram as duras palavras do pai, "mas você desde pequeno só me enche de vergonha", "você se sai bem decepcionando as pessoas"... e, como se fosse um filme, Fred viu sua infância até a fase adulta atual passar como um flash diante de seus olhos. Lembrara de todos os momentos que havia vivido até o considerado melhor e mais importante pelo mesmo que era a chegada de Yuri em sua vida. E também começou a pensar que talvez o pai tenha a razão. Se até um tempo atrás tinha a coragem de ter sido um idiota com a única pessoa que sempre mereceu o melhor dele: Yuri. Quando o sinal fechou e se viu em um cruzamento cheio de trânsito, Fred resolveu puxar o celular e discar o número do mais novo.

- Fred? Que bom que atendeu, mandei várias mensagens. Tava preocupado contigo - o rapaz nem percebera que sua caixa de entrada estava realmente cheia: - Yuri... - o rapaz respondia, a voz embargada. Do outro lado da linha, Yuri percebia que o mais velho não estava bem: - O que tá rolando? Cê tá... chorando?
- deixa eu falar, por favor - o sinal agora abrira, o mais velho retomando o veículo à toda velocidade: - Yuri, eu quero que tu saiba que de tudo o que aconteceu na minha vida até hoje, você sem duvida foi o melhor disso tudo. Eu sou muito grato a Deus todo dia por ter te posto no meu caminho. E... - a voz embarga de novo, o mais velho lutando contra as lágrimas mesmo sendo uma batalha em vão: - ...eu só quero que tu saiba que eu sinto muito mesmo. Por tudo que te fiz e falei e pelo grande imbecil que eu era contigo.
- Fred, onde cê tá? Me fala que eu vou aí te encontrar, por favor - Yuri implorava. Sentia que algo havia acontecido e que algo pior estava prestes a acontecer. Um nó horrível se formava cada vez mais em sua garganta e sentia seu peito arfar de angústia: - eu te amo Yuri.

Ele disse.
De uma só vez, ele disse.
Sem nenhum pudor.
Sem nenhuma culpa ou arrependimento.
Mesmo com tão pouco tempo e sem nenhum compromisso definido, ele disse.
E aquilo fora o suficiente para o coração de Yuri virar uma bateria completa e perfeita de uma escola de samba.
Foi o suficiente para o estômago do mais novo queimar e quase saltar pela boca.
Foi o suficiente para Yuri saber que mesmo sendo tão recente, correspondia o sentimento da mesma forma. Embora não tivesse a mesma coragem ainda para admitir.

- eu sei, sei que tu vai falar que eu sou emocionado e os caralho mas que se foda. Quero que tu saiba que esse pouco tempo foi suficiente pra tu transformar tudo à minha volta e dar algum sentido na porra da minha vida. Mesmo com pouco tempo e a gente nem estando junto de verdade, eu te amo. Eu te amo muito e...

De repente, um barulho de buzina entrecortado sacudiu a linha telefônica.

- Caralho...! - Yuri ouvira Fred dizer do outro lado e seguido de um guincho surdo. Parecia um som de freios sendo estupidamente pressionados: - Fred?! Fred cê tá aí?

Do outro lado da linha, o mais velho tentava retomar o controle da direção que havia perdido quando um caminhão cruzou à sua frente na pista mas era tarde. O veículo já não lhe respondia mais e fora perdendo mais e mais o controle até começar uma dança árdua e pesada pelo asfalto da avenida enquanto o bolsista, que ainda permaneceu em ligação, ouvia tudo atentamente do outro lado. O automóvel capotou sem parar e violentamente com o playboy dentro do veículo. Rodopiou e girou várias vezes até finalmente parar no meio da rodovia, completamente destruído.

E com seu dono bastante machucado e, já definitivamente inconsciente. Nas mãos jogadas para o outro lado apenas o aparelho celular ainda ligado e com o mais novo ainda na linha.

- Fred? Fred cê tá me ouvindo? Fred, cê tá aí?

Razões e Emoções (A #Freuri Fanfiction)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora