𝑱𝒐ã𝒐 𝑷𝒆𝒅𝒓𝒐 |📍 𝑹𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑱𝒂𝒏𝒆𝒊𝒓𝒐
Hoje era o dia.
Quase dois meses esperando por essa porra, dormindo com o barulho das grades batendo, acordando com o cheiro de mofo e suor, tentando manter a cabeça no lugar enquanto o mundo lá fora seguia normalmente. Hoje era o dia que eu finalmente ia olhar na cara dos filhos da puta que acham que sabem de tudo, e pelo menos tentar aliviar minha pena.
Levantei antes do carcereiro gritar. Nem consegui dormir direito pô, as vozes na minha cabeça gritavam mais alto que qualquer barulho dessa porra de cadeia. Pensava na minha mãe, no Victor, na Juliana... na Luna.
Respirei fundo. Não podia deixar transparecer nada. Aqui dentro qualquer fraqueza vira munição. Então me vesti no automático, engoli a ansiedade como se fosse saliva seca e caminhei como se estivesse indo pra mais uma missão, porque era isso mesmo, uma missão.
Meus advogados já tavam lá fora me esperando. Gente de peso, gente que o FP fez questão de botar pra cuidar de mim. Confesso que parte de mim ainda se assustava com o quanto ele se importava comigo. Mas no fundo eu tava ligado no porquê, o que eu já fiz por ele... é aquela velha moeda de troca.
No carro, o silêncio dizia mais do que qualquer palavra. A cidade do lado de fora seguia viva, enquanto eu me sentia morto por dentro. Um zumbi numa roupa social simples, prestes a enfrentar juízes e promotores.
—Filho... você tá lindo. — Minha mãe fala assim que me vê no corredor do tribunal, com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso simples.
Parecia até que eu tava entrando pra receber um diploma da faculdade.
— Tô parecendo um palhaço engomado nessa porra de roupa. — Murmuro, ajustando a gola desconfortável da camisa. — Mas pelo menos tô limpo.
Ela ri baixo e me abraça apertado, logo Juliana e Victor aparecem também, a garota se agarra no meu pescoço, e o outro nem se move.
— Qual foi dessa cara pô? — Falo.
— Queria que fosse pra casa com a gente. — Victor fala.
— Relaxa, logo logo tô pela área, fica tranquilo pô. — Falo bagunçando o cabelo dele como faço desde que tinha cinco anos.
— A gente tá lá dentro, tá? Todo mundo. Apoiando você, sempre. — Juliana fala.
Papo reto que a garota segurou as pontas legal nessa situação toda, cuidou da nossa mãe e do moleque, já não olhava mais pra ela como se fosse uma criança, tá crescendo mermo a pirralha.
— Valeu pô. — Engulo em seco.
Eles vão andando na frente com o segurança que acompanha, e fico ali com minha mãe por alguns segundos a mais.
— Sei que você queria que ela estivesse aqui — ela diz de repente, era quase como quem toca numa ferida aberta. — Mas ela tá por dentro de tudo, viu? Aquela menina... tá mais ansiosa do que eu.
Apenas concordo com a cabeça e sigo pra sala.
Quase dois meses desde que pisei em Bangu, e agora tô aqui, sentado num banco gelado, com as mãos cruzadas no colo, tentando fingir que tô calmo. As portas se abrem e vejo as duas amigas da Luna também aqui, até fico surpreso mas entendi que a Amanda vinha representando o André, e a Isabelle representava a Luna, as duas sentam junto a Juliana, aceno com a cabeça quando ambas olham pra mim.
Aproveito pra passar os olhos pelo local, mapeando pra ver se o coisa tá lá, o arrombado do Mateus, mas nada de aparecer.
Não demora pro juiz entrar, o promotor ajeita os papéis. Meu advogado, o Dr. Marcelo, me dá uma olhada rápida, do tipo "confia em mim".
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DOSE DUPLA
FanfictionLuna é uma jovem que cresceu no Complexo da Pedreira, no Rio de Janeiro. Sua vida vira de cabeça para baixo quando ela se vê dividida entre dois homens que representam mundos opostos: um sendo da lei e o outro não. À medida que Luna mergulha em um t...
