Capítulo 60

26 4 0
                                        

𝑱𝒐ã𝒐 𝑷𝒆𝒅𝒓𝒐 | 📍𝑩𝒂𝒏𝒈𝒖 ll, 𝒖𝒎 𝒎ê𝒔 𝒅𝒆𝒑𝒐𝒊𝒔...



Quatro semanas. 

Vinte e oito dias nesse buraco, tempo aqui não passa pô, ele se arrasta. E quanto mais ele se arrasta, mais aperta a saudade. Já me acostumei com tudo que tinha pra acostumar, o cheiro, a comida podre, os gritos, a tensão no ar... menos com a porra da saudade.

A única coisa que me mantinha em pé era saber que lá fora tinha gente tentando por mim, minha família, e principalmente ele, o doutor Marcelo, o advogado mais brabo que a gente conseguiu, o cara era sinistro pra caralho, do tipo que não abaixa a cabeça pra juiz nenhum.

Nas últimas duas semanas, ele correu atrás de uma porra de autorização que parecia impossível... uma chamada de vídeo com a Luna.

Não era fácil não, era burocracia, era papel, era espera, mas ele conseguiu.

— João Pedro! — o guarda grita da grade. — Advogado tá te esperando.

Levanto sem entender muito. Penso que é só mais uma conversa sobre o processo, o juiz, sei lá o quê. Mas quando vejo o Marcelo, ele já tá ajeitando o notebook em cima da mesa de ferro enferrujada.

— Senta aí, consegui. — ele fala.

— Conseguiu o quê? 

Ele me olha, meio sério, meio vitorioso.

— A chamada, com a garota. Tu tem cinco minutos. — Fala e logo sai me dando privacidade.

Eu travei.

Cinco minutos?

Depois de um mês sem ver a cara dela? Depois de vinte e oito dias vivendo nesse inferno, com a cabeça girando só em torno dela?

Cinco minutos não era nada.
Cinco minutos não ia dar nem pra dizer o tanto que eu tava sentindo.
Não ia dar nem pra olhar direito, nem pra ouvir a risada que eu me amarrava, nem pra dizer o quanto ela me fazia falta.

Mas era o que tinha, e aqui dentro, a gente aprende a valorizar cada migalha de afeto que a vida ainda deixa escapar.

Conectando... 

Fixo o olhar na tela, o coração batendo forte, a mão suando.

A imagem aparece devagar, toda embaçada no começo... mas aí vejo ela, do outro lado do mundo, com cara de cansada, o cabelo preso num coque como sempre fazia, mas ainda com aquele olhar que me desmontava inteiro, tá maluco.

— João Pedro?! — ela sorri.

Fiquei mudo por uns segundos, não tinha voz, não tinha chão, só ela.

— Caralho garota... — solto baixo, quase num sussurro.

— Tu tá bem? Fala comigo, por favor... — ela tenta rir, mas a voz tá embargada.

— Bem? pô nem sei mais o que é isso, mas ver tua cara agora já valeu mais do que qualquer coisa, preta. — Falo e ela sorri.

— A Ju falou que tu tava tentando conseguir isso. — ela respira fundo. — Eu tava contando os dias.

— Eu também, aqui dentro o tempo é outro, cada dia parece um ano tá ligado.

— Eu soube que o pedido de fiança foi negado... — Fala.

— Pois é pô, mas tamo vendo isso ai, bate cabeça não.

—  Eu tô morrendo de saudades, como eu odeio essa tela, como eu queria poder pelo menos te encostar. — Fala.

DOSE DUPLAOnde histórias criam vida. Descubra agora