Capítulo 66

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📍𝑳𝒖𝒏𝒂 𝑫𝒖𝒂𝒓𝒕𝒆





O caminho até o Complexo pareceu mais rápido do que eu lembrava, ou talvez fosse a ansiedade me fazendo perder a noção do tempo. O motorista falava alguma coisa sobre o trânsito da Linha Vermelha, mas eu mal ouvia, só pensava em ver minha vó, pisar naquele chão, sentir o cheiro da rua misturado com o da comida saindo das janelas.

Quando o carro dobrou na entrada do Complexo, já tava no fim da tarde. O sol caindo deixava o céu meio alaranjado, e o morro todo brilhava, cheio de vida, cheio de barulho.

Do jeitinho que eu lembrava.

Desci do carro sentindo o coração acelerar, o ar quente batendo no rosto e o cheiro do churrasquinho misturado com fumaça de escapamento. A primeira coisa que vi foi a Juliana, parada encostada num poste, me esperando;

— Bem-vinda de voltaaaa!!! — ela gritou, abrindo os braços.

— Caralho, tu não mudou nada hein? — falei rindo, abraçando ela forte.

— E tu tá precisando de um bronze urgenteeee!!! — debochou, rindo alto.

Revirei os olhos. — Nem me fale.

Preciso de melanina.

Ela pegou uma das malas enquanto eu ajeitava a mochila no ombro. Fomos subindo a ladeira devagar, e cada esquina parecia me dar um soco de lembrança. Os meninos jogando bola no meio da rua, o som alto vindo de algum barraco tocando pagode, as mulheres fofocando nas janelas.

— Saudade dessa porra, né? — Juliana perguntou, com um sorrisinho no canto da boca.

— Tu não tem ideia... — respondi, olhando em volta. — Senti falta até do barulho. Do samba de domingo, dos gritos das cria quando o time deles perde... até disso cara.

Juliana deu uma risada. — É, tu sai do morro mas o morro não sai de tu.

Balancei a cabeça, sorrindo. O peito apertava de saudade, mas também de um medo estranho — tipo um pressentimento. Tudo parecia igual, mas eu sabia que alguma coisa tinha mudado.

— Bora, vambora antes que escureça de vez. — Ela falou puxando a mala. — Juro que tô com medo da dona Marlene ir de arrasta.

— Nem me fala. — respondi rindo. — Ela vai dar um grito quando me ver.

— Ou um desmaio. — brincou. — Tu deveria ter avisado sua maluca.

— Era surpresa ué. — falei, sorrindo boba. — Queria ver a carinha dela.

Subimos mais uns metros, o barulho do morro ficando cada vez mais intenso. O coração batia rápido. E quando a gente virou na última viela eu vi o portão da casa da minha vó, pareceu que eu nunca tinha ido embora.

Assim que chegamos comecei a bater cada vez mais forte no portão, sabia que ela não gostava.

— Vai derrubar? Já vai!!! — Grita de dentro de casa.

Nós duas rimos com isso.

— Quem é? — ouvi o som arrastado e familiar que me fez sorrir antes mesmo de responder.

— Abre vó. — Gritei.

A porta abriu e lá estava ela, com as mesmas roupas que costumava usar, em especial o vestido florido.

— Minha menina... meu Deus do céu, é você mesmo? — fala levando a mão na boca.

Abracei ela com força, sentindo o cheiro do creme de cabelo misturado ao tempero da cozinha.

DOSE DUPLAOnde histórias criam vida. Descubra agora