📍𝑳𝒖𝒏𝒂 𝑫𝒖𝒂𝒓𝒕𝒆
O caminho até o Complexo pareceu mais rápido do que eu lembrava, ou talvez fosse a ansiedade me fazendo perder a noção do tempo. O motorista falava alguma coisa sobre o trânsito da Linha Vermelha, mas eu mal ouvia, só pensava em ver minha vó, pisar naquele chão, sentir o cheiro da rua misturado com o da comida saindo das janelas.
Quando o carro dobrou na entrada do Complexo, já tava no fim da tarde. O sol caindo deixava o céu meio alaranjado, e o morro todo brilhava, cheio de vida, cheio de barulho.
Do jeitinho que eu lembrava.
Desci do carro sentindo o coração acelerar, o ar quente batendo no rosto e o cheiro do churrasquinho misturado com fumaça de escapamento. A primeira coisa que vi foi a Juliana, parada encostada num poste, me esperando;
— Bem-vinda de voltaaaa!!! — ela gritou, abrindo os braços.
— Caralho, tu não mudou nada hein? — falei rindo, abraçando ela forte.
— E tu tá precisando de um bronze urgenteeee!!! — debochou, rindo alto.
Revirei os olhos. — Nem me fale.
Preciso de melanina.
Ela pegou uma das malas enquanto eu ajeitava a mochila no ombro. Fomos subindo a ladeira devagar, e cada esquina parecia me dar um soco de lembrança. Os meninos jogando bola no meio da rua, o som alto vindo de algum barraco tocando pagode, as mulheres fofocando nas janelas.
— Saudade dessa porra, né? — Juliana perguntou, com um sorrisinho no canto da boca.
— Tu não tem ideia... — respondi, olhando em volta. — Senti falta até do barulho. Do samba de domingo, dos gritos das cria quando o time deles perde... até disso cara.
Juliana deu uma risada. — É, tu sai do morro mas o morro não sai de tu.
Balancei a cabeça, sorrindo. O peito apertava de saudade, mas também de um medo estranho — tipo um pressentimento. Tudo parecia igual, mas eu sabia que alguma coisa tinha mudado.
— Bora, vambora antes que escureça de vez. — Ela falou puxando a mala. — Juro que tô com medo da dona Marlene ir de arrasta.
— Nem me fala. — respondi rindo. — Ela vai dar um grito quando me ver.
— Ou um desmaio. — brincou. — Tu deveria ter avisado sua maluca.
— Era surpresa ué. — falei, sorrindo boba. — Queria ver a carinha dela.
Subimos mais uns metros, o barulho do morro ficando cada vez mais intenso. O coração batia rápido. E quando a gente virou na última viela eu vi o portão da casa da minha vó, pareceu que eu nunca tinha ido embora.
Assim que chegamos comecei a bater cada vez mais forte no portão, sabia que ela não gostava.
— Vai derrubar? Já vai!!! — Grita de dentro de casa.
Nós duas rimos com isso.
— Quem é? — ouvi o som arrastado e familiar que me fez sorrir antes mesmo de responder.
— Abre vó. — Gritei.
A porta abriu e lá estava ela, com as mesmas roupas que costumava usar, em especial o vestido florido.
— Minha menina... meu Deus do céu, é você mesmo? — fala levando a mão na boca.
Abracei ela com força, sentindo o cheiro do creme de cabelo misturado ao tempero da cozinha.
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DOSE DUPLA
Fiksi PenggemarLuna é uma jovem que cresceu no Complexo da Pedreira, no Rio de Janeiro. Sua vida vira de cabeça para baixo quando ela se vê dividida entre dois homens que representam mundos opostos: um sendo da lei e o outro não. À medida que Luna mergulha em um t...
