Capítulo 58

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📍𝑱𝒐ã𝒐 𝑷𝒆𝒅𝒓𝒐


O chão frio da delegacia tinha cheiro de mofo, assim que desci do camburão, dois policiais me arrastavam pela camisa, como se eu fosse apenas mais um número no sistema, e realmente era. Eu já sabia que era procurado mas era a primeira vez que eu entrava aqui, e talvez não fosse sair nem tão cedo.

— João Pedro Ferraz... conhecido como JP. — disse um dos fardados, encarando minha ficha com nojo. — Já era procurado, né? Teve sorte de cair e não ter ido pra vala antes.

Papo reto nem respondi, apenas mantive o olhar firme.

Me colocaram numa salinha apertada e fria, a luz fluorescente piscava em cima da minha cabeça, e a mesa de metal entre mim e os dois canas parecia um muro de gelo, eles começam com o interrogatório como se tivessem ensaiado.

— João Pedro, bora facilitar? Ai tu sai com a cara menos arrebentada daqui. — Fala e solta um riso.

Fiquei em silêncio, encostei nas costas da cadeira e mantive o olhar fixo na mesa, eles podiam perguntar o que quisessem, eu não ia falar nada.

Eu conhecia bem demais os mandamentos da favela, e um deles era claro como o sol nascendo por trás do morro, X9 não tem vez. Não demorou pro clima pesar, a sala ficou tensa pra caralho e um dos policiais deu uma risada seca demonstrando impaciência.

— Vai ser assim? — Pergunta e eu continuo calado, nem mesmo mexo um músculo do rosto. — Certo... 

— Fala tu, eu não tenho direito a uma ligação? — É a única coisa que sai da minha boca.

O primeiro soco veio rápido, direto no canto da boca, senti o gosto metálico do sangue invadir minha língua. O segundo me fez virar o rosto pro lado, e um filete vermelho escorreu até o queixo.

— Tira esse merdinha daqui. — disse um deles, limpando a mão com um pano sujo como se tivesse acabado de lavar a consciência.

Dois caras fardados me puxaram pelos braços e me colocaram de pé, cuspi o sangue acumulado na boca, sem pressa e sem medo. Tinha apanhado, mas mantive minha honra intacta, eles podiam quebrar meu corpo, mas não iam arrancar uma palavra de mim.

Atravessamos o corredor estreito da delegacia, o piso frio rangia sob as botas deles e o cheiro de mofo misturado com suor e desespero só aumentava a cada passo.

— Cela cinco. — um deles disse, destrancando a porta de ferro.

Me empurraram pra dentro como um animal num abate, o barulho da grade se fechando atrás de mim ecoou no peito como um aviso, você tá dentro agora... e não tem previsão de sair.

A cela era pequena, abafada e escura, três caras já estavam ali, cada um no seu canto, me analisando de cima a baixo, não era lugar pra conversa, era cada um por si. Me sentei no chão, encostado na parede úmida, passei o braço pela boca pra limpar o sangue e fechei os olhos por um tempo, tentando ignorar a dor.

Mas o que doía mais nem era o rosto machucado tá ligado, era a lembrança da Luna me olhando de longe, no meio daquele caos, sem poder fazer nada, e eu também... não podia fazer nada por ela agora.

Só me restava esperar.





Oito horas depois...


O tempo ali dentro era sufocante demais, não sei quantas horas faziam que eu tava nesse inferno. Já nem dava pra contar mais, o cheiro da cela grudava na pele, e o silêncio, quando vinha, era pior que os gritos papo reto.

DOSE DUPLAOnde histórias criam vida. Descubra agora