📍𝑱𝒐ã𝒐 𝑷𝒆𝒅𝒓𝒐
O chão frio da delegacia tinha cheiro de mofo, assim que desci do camburão, dois policiais me arrastavam pela camisa, como se eu fosse apenas mais um número no sistema, e realmente era. Eu já sabia que era procurado mas era a primeira vez que eu entrava aqui, e talvez não fosse sair nem tão cedo.
— João Pedro Ferraz... conhecido como JP. — disse um dos fardados, encarando minha ficha com nojo. — Já era procurado, né? Teve sorte de cair e não ter ido pra vala antes.
Papo reto nem respondi, apenas mantive o olhar firme.
Me colocaram numa salinha apertada e fria, a luz fluorescente piscava em cima da minha cabeça, e a mesa de metal entre mim e os dois canas parecia um muro de gelo, eles começam com o interrogatório como se tivessem ensaiado.
— João Pedro, bora facilitar? Ai tu sai com a cara menos arrebentada daqui. — Fala e solta um riso.
Fiquei em silêncio, encostei nas costas da cadeira e mantive o olhar fixo na mesa, eles podiam perguntar o que quisessem, eu não ia falar nada.
Eu conhecia bem demais os mandamentos da favela, e um deles era claro como o sol nascendo por trás do morro, X9 não tem vez. Não demorou pro clima pesar, a sala ficou tensa pra caralho e um dos policiais deu uma risada seca demonstrando impaciência.
— Vai ser assim? — Pergunta e eu continuo calado, nem mesmo mexo um músculo do rosto. — Certo...
— Fala tu, eu não tenho direito a uma ligação? — É a única coisa que sai da minha boca.
O primeiro soco veio rápido, direto no canto da boca, senti o gosto metálico do sangue invadir minha língua. O segundo me fez virar o rosto pro lado, e um filete vermelho escorreu até o queixo.
— Tira esse merdinha daqui. — disse um deles, limpando a mão com um pano sujo como se tivesse acabado de lavar a consciência.
Dois caras fardados me puxaram pelos braços e me colocaram de pé, cuspi o sangue acumulado na boca, sem pressa e sem medo. Tinha apanhado, mas mantive minha honra intacta, eles podiam quebrar meu corpo, mas não iam arrancar uma palavra de mim.
Atravessamos o corredor estreito da delegacia, o piso frio rangia sob as botas deles e o cheiro de mofo misturado com suor e desespero só aumentava a cada passo.
— Cela cinco. — um deles disse, destrancando a porta de ferro.
Me empurraram pra dentro como um animal num abate, o barulho da grade se fechando atrás de mim ecoou no peito como um aviso, você tá dentro agora... e não tem previsão de sair.
A cela era pequena, abafada e escura, três caras já estavam ali, cada um no seu canto, me analisando de cima a baixo, não era lugar pra conversa, era cada um por si. Me sentei no chão, encostado na parede úmida, passei o braço pela boca pra limpar o sangue e fechei os olhos por um tempo, tentando ignorar a dor.
Mas o que doía mais nem era o rosto machucado tá ligado, era a lembrança da Luna me olhando de longe, no meio daquele caos, sem poder fazer nada, e eu também... não podia fazer nada por ela agora.
Só me restava esperar.
Oito horas depois...
O tempo ali dentro era sufocante demais, não sei quantas horas faziam que eu tava nesse inferno. Já nem dava pra contar mais, o cheiro da cela grudava na pele, e o silêncio, quando vinha, era pior que os gritos papo reto.
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DOSE DUPLA
FanficLuna é uma jovem que cresceu no Complexo da Pedreira, no Rio de Janeiro. Sua vida vira de cabeça para baixo quando ela se vê dividida entre dois homens que representam mundos opostos: um sendo da lei e o outro não. À medida que Luna mergulha em um t...
