Capítulo 32 " ESMERO "

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Liguei para Alex na sexta e marquei de nos encontrarmos no sábado. Eu queria conversar com ela pessoalmente, olhar no fundo daqueles olhos verdes e dizer toda a verdade. E se ela me quisesse eu seria toda dela. Já não podia lutar mais contra mim mesma.

O dia estava nublado e eu a aguardava em uma lanchonete, em Ipanema mesmo. Marcamos para às 10:00h, mas eu cheguei meia hora antes. Quando ela apareceu meu coração quase explodiu no peito. Seus cabelos curtos agora em um corte ligeiramente diferente do anterior, mas ainda dando a ela um visual mais sexy e adulto. Vestia bela uma calça jeans bem justa, uma blusinha branca e casaco jeans cheio de estilo. Como sempre, usava salto.

Ao me ver abriu um belo sorriso e emocionei-me ao ponto de perder a fala. Espontaneamente levantei e esperei que se aproximasse de minha mesa. Quando chegou perto trocamos os habituais beijos de comadre que as mulheres trocam e nos abraçamos por uns instantes. Seu perfume parecia me invadir e eu me senti perdida por ela como nunca havia sentido até o momento.

"Que está acontecendo Samantha? Eu tô perdida mesmo!"

— Linda como sempre! – disse

— Você também está linda como sempre!

— Sente-se.

Sentamos. Ela pediu um suco e fiz o mesmo.

— Primeiramente eu queria te agradecer pelo que fez. Tocou muito na gente. Nunca ninguém nos ajudou do modo como você fez, inclusive sua ida no morro só pra trabalhar. Jamais esqueceremos.

— Não me agradeça. Fiz de coração.

— Eu sei. Você faz tudo com ele. – olhava para ela fixamente

— Eu senti muito sua falta...

— Eu mais ainda. Mas fiquei muito decepcionada por ter viajado e nem me deixado um recado. E depois do fora que tinha me dado...

— Eu não dei fora em você. Apenas expliquei o que sentia. E realmente eu poderia tê-la procurado no laboratório, mas achei melhor deixá-la com espaço para que pensasse.

— E eu aproveitei muito mal esse espaço. – abaixei a cabeça.

— O que andou fazendo? – seus dedos tocaram os meus.

Não havia cobrança na pergunta.

— Vou direto ao ponto. Respondendo a pergunta que me fez no dia da nossa última conversa, sim, eu estive com outras pessoas durante o tempo em que a gente ficou. Eu não queira aceitar meus sentimentos e busquei fugir através de outras pessoas.– olhei para ela receosa e seu olhar era brando. Tive coragem de continuar – E durante esse tempo em que você esteve fora, também não me comportei como deveria.

— Por que diz isso?

— Saí com uns caras só pra transar, passei uma noite de sacanagem com uma garota... Meu comportamento foi totalmente diferente do que você gostaria que fosse, e por essas e outras eu não posso te convencer a confiar em mim, mas eu preciso de você e eu quero me envolver com você. De verdade!

A garçonete veio com os sucos e me calei. Ao sair continuei.

— Minha vida amorosa sempre foi vazia; prazer pelo prazer e no máximo alguma amizade. – respirei um pouco — Eu sou uma pessoa estranha, minhas coisas são estranhas, minha família é estranha. Acho que meu pai nem sabe que eu existo e minha mãe me largou no orfanato assim que nasci. Só quando eu tinha 5 anos minha vó foi lá me pegar. E eu já era ruim desde aquele tempo porque as mulheres do orfanato diziam isso e eu apanhava todo dia. Até hoje tenho uma cicatriz nas costas de uma das surras de cinto que tomei. – as lágrimas me escorriam dos olhos sem que pudesse retê-las — É isso! Essa sou eu e você precisa saber bem do traste que apareceu na sua vida – meus olhos não ousavam encará-la.

Senti uma de suas mãos tocar meu rosto bem devagar. Ela secou minhas lágrimas com guardanapo e levantou meu rosto segurando pelo queixo como se eu fosse a coisa mais delicada que já havia visto. Quando nos encaramos reparei as lágrimas em seus olhos e recebi o olhar mais doce do mundo.

— Vou te contar um segredo bem baixinho: estou completamente apaixonada pelo "traste que apareceu na minha vida".

Meu coração quase saltou do peito.

— Prestou atenção no que eu disse??

— Sei que foi muito difícil pra você me dizer todas estas coisas e se me disse é porque agora você quer se entregar. Só tem medo! Você acha que é pior que as outras pessoas, mas não é nem um pouquinho! Tem medo que eu chegue a essa conclusão: que você não presta. Mas isso não é verdade! – passou novamente a mão pelo meu rosto.

Continuou dizendo:

—Já disse que se seus pais fizeram escolhas erradas, você não tem culpa disso! Era só um bebê! E quanto às mulheres do orfanato, eram pessoas despreparadas trabalhando em uma função a qual não tinham competência de desempenhar. Que maldade há em uma criança de 5 anos ou menos? Você deveria ser levada e elas não tinham paciência... E sua avó é apenas uma mulher tão sofrida que desaprendeu um monte de coisas. A sorrir, por exemplo. Talvez você devesse ajudá-la a redescobrir o lado bom da vida, mesmo na pobreza; muito o dinheiro não pode trazer, mas um coração sincero sim. E em relação a sua vida amorosa, você é bonita, simpática, sabe seduzir e os homens caem a seus pés. Sexo foi uma forma de válvula de escape que você arrumou. Mas, por fim, afaste-se desses seus amantes e eu ficarei satisfeita. Eu não jogo capoeira, mas dizem que um tapa meu dói muito!- sorriu.

Eu sorria atônita sem acreditar em tamanha aceitação. Que criatura era aquela que me fazia me sentir na lama e ao mesmo tempo podia me curar as dores como em um passe de mágica?

"E eu que pensei que ela não entendia da vida. Acho que quem não entende sou eu!"

— Eu ainda não conheço o significado desta expressão mas provavelmente eu não acho que você seja o fim da picada.

— Então você ficaria comigo? – perguntei temerosa.

— Se você parar de sair com outras pessoas e jogar o seu caderno de telefones fora...- sorriu.

Sorri também, aliás eu sorria como uma idiota.

— Eu nem tenho esse caderno! E prometo, ninguém além de você.

— E ficaremos escondidas? Como você disse de não assumir? Publicamente, quero dizer.

— Sim. Pelo menos até você fazer 18...

— E você acredita que ficará comigo por todo esse tempo? E sem ...

— Sim, eu quero. – ri — Fico com você até o fim.

— Ai Samantha, não prometa coisas que não sabe se poderá cumprir...

— Fico com você, até o fim!

Algo dentro de mim dizia que aquelas palavras eram verdadeiras, e como que proféticas

Caminhamos pela areia da praia de mãos dadas, e poucos se perceberam disso. Ninguém nos incomodou. Conversamos sobre vários assuntos nossos, assuntos íntimos, como se quiséssemos nos conhecer inteiramente, sem segredos, sem reservas. Chegamos até a praia do Diabo, no Arpoador, e começou a cair uma chuva fria e fina. Alex sugeriu de irmos até seu apartamento, e deduzi que estava vazio. Não tínhamos almoçado ainda e eu estava com fome.

Chegando lá, Dolores já havia ido e deixou a comida pronta na espera. Alex fez questão de arrumar a mesa de um modo, segundo ela, bem romântico, e eu escolhi um CD e coloquei no rádio para tocar. Almoçamos, dançamos, namoramos. Jogamos umas almofadas no carpete da sala e ficamos por muito tempo deitadas, nos beijando, fazendo planos, como se fôssemos um casal de noivos às vésperas do casamento. Da vida a dois.

Dormimos abraçadas e senti uma felicidade que nunca havia sentido antes. Algo me dizia quedali para frente, seria sempre assim se ela estivesse a meu lado.






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