Comecei a trabalhar com Ramirez de novo e acertei todos os detalhes com dona Márcia. Faltava apenas assinar o contrato do aluguel. Por outro lado, restava ainda decidir sobre o que fazer com as coisas da casa no morro, e a respeito da própria casa. Alex também tinha que pensar em como seria sua vida a partir do momento em que se casasse comigo, pois ainda não havíamos tido uma conversa séria, apenas sonhávamos com um futuro juntas.
Dois dias depois fui para o morro e olhei a casa atentamente. Tudo parecia triste, solitário, abandonado. Passei a mão sobre o buraco de bala na parede, fruto do tiro assassino que levou minha avó tão bruscamente. Senti uma imensa tristeza. Vivemos juntas por tantos anos, mas aprendemos a nos conhecer apenas nos últimos tempos, e justo quando as coisas iam bem e que a vida ia mudar, ela vai embora. E não por ter adoecido, mas por conta de violência! Isso fazia doer ainda mais. Eu tinha tantos sonhos; queria levá-la a Bahia, queria dar-lhe o prazer em viver em uma casa com infra estrutura, queria dar-lhe boas roupas, queria que deixasse de trabalhar para os outros, queria tantas coisas... A sensação era a de ter corrido muito, superando todos os adversários, para tropeçar e cair a centímetros da linha de chegada, perdendo o título por conta de segundos.
Cheguei na janela e olhei para fora. Senti uma imensa dor por conta daquelas pessoas. As favelas têm muita gente boa, muita gente honesta, que sonha, que luta, que corre atrás de oportunidades e muitas vezes não as acha. As favelas também têm muitos "espertos", que vão para lá para não pagar impostos, e gozar de certas benesses que a contravenção proporciona. Têm muitos desorientados, que se deixam enganar pelas promessas fáceis dos traficantes, que doam cem e recolhem um milhão, e que não têm o menor pudor de matar com requintes de crueldade, de corromper jovens inexperientes e de viciar crianças na flor da idade. E as favelas têm muitos traficantes, que se acham o máximo por manipular os mais ingênuos, mas não passam de soldadinhos facilmente substituíveis pelo sistema podre que nos dirige, e que faz questão de que eles existam, pois se não existirem não haverá como sustentar a cúpula que abocanha a maior parte da riqueza do país. Pena que a mídia, quando pensa em favela, só enxerga o traficante, como se eles fossem A FAVELA em si.
Decidi que iria me desfazer daquela casa, com quase tudo o que tinha dentro dela. Havia boas lembranças ali, mas as últimas eram dolorosas demais e eu não queria nada que ficasse me trazendo flashes do pior dia da minha vida.
"Quando eu estiver firmada no trabalho, Cantagalo, eu volto, e vou lutar para fazer muitas melhorias aqui. E da mesma forma em todas as favelas que eu conseguir entrar. Isso é uma promessa!"
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— Oi Sammy, eu já estava pensando que você havia desistido de se casar comigo. – Alex falou colocando a bolsa sobre o banco do quiosque
— Que é isso meu amor? Eu tava só cuidando da vida. – levantei-me e beijei-lhe o rosto.
— Por que marcou comigo aqui? Poderia ter ido para minha casa. – sentou-se.
— Não, eu queria conversar com você em um lugar onde ficássemos a vontade, e hoje você disse que os tais eletricistas iriam lá.
— Ah, é verdade. Dolores os chamou por conta de uns problemas nos interruptores da cozinha. Mas diga meu amor, o que houve? – sorria apoiando o queixo nas mãos.
Olhei-a contemplativamente e ela estava linda usando uma blusa branca de renda e uma saia cor de rosa feita em crochê.
— Ontem eu estive no morro e passei a noite lá. Refleti muito sobre uma série de coisas e tomei algumas decisões que quero dividir com você e ouvir sua opinião. Também acho que temos coisas muito sérias para conversar. – olhei para a garçonete — Mas como está calor, vamos pedir uns cocos antes?
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TUDO MUDA, TUDO PASSA
RomanceProntos(as) pra conhecer um AMOR que ultrapassou barreiras? Leia até o fim. Sem julgamentos.
