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Nicolle

"Cheshire Academy, 7h30 da manhã"
O átrio principal estava lotado. O som de passos, vozes e o leve arrastar de malas se misturava ao eco suave da arquitetura imponente. O teto alto, sustentado por colunas brancas e lustres dourados, refletia a luz suave da manhã que entrava pelas enormes janelas de vidro. Entre rostos curiosos e olhares tímidos, eu estava ali, parada no meio, sentindo aquele frio na barriga que sempre acompanha o início de algo novo.
À frente, um homem de postura firme e expressão acolhedora que presumi ser o diretor falava ao microfone, a voz grave ecoando pelo salão. Ele dava as boas-vindas a todos os alunos novos, dizendo que a Cheshire Academy era mais do que uma escola: era um lugar para descobertas, amizades e sonhos. Finalizou com um incentivo para que todos nós corrêssemos atrás dos nossos objetivos. Enquanto ele falava, minha mente já estava um passo à frente. Eu havia recebido, por e-mail, o número do meu quarto e instruções sobre onde ficava. Peguei o celular e abri o aplicativo que o próprio colégio desenvolveu para ajudar os alunos a se localizarem. Era moderno e prático, com um mapa interativo que mostrava cada corredor, escada e cômodo.
Aproveitando uma pausa no discurso e o fato de que ninguém parecia notar minha saída, caminhei discretamente para fora do átrio. Meus passos ecoavam levemente pelo corredor revestido de carpete azul-marinho, e cada porta que eu passava tinha uma pequena placa dourada com a numeração. Subi dois lances de escada até chegar ao corredor do terceiro andar. Segui até parar diante da porta marcada com o número 635. Respirei fundo, girei a maçaneta e entrei.
O quarto era amplo, iluminado por uma grande janela que deixava entrar a luz suave da manhã. Logo à direita, vi uma garota ruiva sentada na cama mais próxima à parede, o cabelo caindo em ondas até os ombros, e um livro aberto no colo. Dentro do closet, parcialmente visível pela porta aberta, estava uma garota loira, de postura reta, organizando cuidadosamente uma gaveta.
- Oi - cumprimentei, abrindo um sorriso amplo e sincero.
- Oi - respondeu a ruiva, levantando o olhar com um sorriso tímido. A loira apenas ergueu os olhos por um instante e acenou de forma educada.
- Me chamo Nicolle Carter e... pelo visto, vamos ser colegas de quarto - falei, tentando manter a voz leve e amigável. Sempre fui muito sociável, mas também aprendi a ter cuidado para não me aproximar de pessoas interesseiras.
- Eu sou Charlotte Backer - disse a ruiva, fechando o livro. - Mas pode me chamar de Char. - Ela sorriu, e percebi um leve rubor nas bochechas, como se estivesse um pouco envergonhada.
- Sou Alexandra Cameron, mas podem me chamar de Alex - falou a loira, agora sorrindo de verdade para nós.
- Sendo assim, podem me chamar de Nick - completei, e as três acabamos rindo.
Como era o primeiro dia, não teríamos aulas. A escola reservava essa manhã para que os alunos pudessem se instalar, conhecer o espaço e socializar. Ficamos no quarto por um bom tempo, conversando sobre coisas aleatórias. Descobri que Charlotte era direta, não perdia tempo com rodeios, e isso me chamou atenção na hora. Já Alexandra era tímida e nerd, com aquele jeitinho reservado, e em meio à conversa comentou que havia passado as férias estudando mandarim. Eu e Char nos entreolhamos, e não resisti a brincar:
- Alerta nerd!
Ela riu e deu de ombros, como quem diz "culpada".
Tive a sensação de que poderíamos nos dar muito bem. Apesar disso, não consigo evitar ter um pé atrás - depois do jardim de infância, nunca mais tive uma amiga que realmente quisesse estar ao meu lado pelo que eu sou, e não pelo que eu podia oferecer. Olhei ao redor e admirei melhor o quarto. Havia três camas de solteiro alinhadas, cada uma separada por uma escrivaninha branca com gavetas. O closet era enorme, dividido em três partes, e havia um banheiro moderno com azulejos claros e iluminação quente. Tudo parecia novinho. Depois de mais alguns minutos de conversa, Char e Alex me ajudaram a guardar minhas roupas e organizar meu espaço no closet. Enquanto dobrava uma blusa, pensei que talvez esse fosse o começo de algo bom.
- Char? Alex? O que acham de darmos uma voltinha pelo colégio? - sugeri, tentando soar casual, mas já torcendo internamente para que elas aceitassem.
- Claro, vou só me trocar - respondeu Charlotte, se levantando e indo até o banheiro com passos leves.
Enquanto ela se fechava lá dentro, fiquei mexendo no celular, trocando uma ou outra mensagem e reparando em Alex, que estava sentada na beirada da cama, digitando algo com o polegar rápido e certeiro. Por um instante, meus olhos se prenderam aos dela quando ela ergueu o rosto para mim. Já comentei que amo os olhos da Alex? Não? Pois é... eu amo. São incrivelmente claros, daquele tom que muda de acordo com a luz, quase como se escondessem um pedaço do céu. Sempre quis ter olhos assim e confesso que dá uma leve inveja boa. Cinco minutos depois, Charlotte saiu do banheiro usando um moletom branco macio e um par de Air Force igualmente brancos, tão impecáveis que pareciam recém-saídos da caixa.
- Prontas? - ela perguntou, ajeitando o cabelo com as mãos.
- Vamos sim - confirmei, já animada.
Saímos do quarto sem abrir o aplicativo do colégio - ideia meio impulsiva, mas divertida. A sensação de explorar sem mapa me deixava com aquele frio na barriga, como se estivéssemos prestes a descobrir um segredo. O corredor estava silencioso, só o som dos nossos passos no piso polido quebrava o ar calmo da manhã.
Depois de alguns giros aleatórios pelos corredores e escadas, chegamos à biblioteca. Era um espaço amplo e silencioso, com estantes altas de madeira escura que quase tocavam o teto. Um aroma suave de papel antigo e verniz preenchia o ar. O lugar estava quase vazio, o que era esperado já que as aulas ainda não tinham começado.
Escolhemos uma mesa próxima à janela, e a luz natural entrava, iluminando o pó que flutuava no ar. Charlotte, curiosa, se levantou e foi até uma das prateleiras. Alguns minutos depois, voltou segurando um exemplar de Harry Potter e a Pedra Filosofal.
- Achei esse livro. Parece ser legal - disse, olhando para a capa com atenção.
- Você não sabe quem é o autor? - perguntei, surpresa.
Ela negou com a cabeça.
- É da J.K. Rowling, minha escritora favorita de todos os tempos! Eu já li todos os livros da saga Harry Potter e assisti a todos os filmes. Você vai adorar, confia em mim - falei, quase empolgada demais. Essa saga fez parte da minha infância. Comecei a ler com uns quatorze anos e, sinceramente, não tem nenhuma outra história que tenha me marcado tanto.
- Eu também acho que você vai gostar, Char. Eu li alguns e gostei, mas... prefiro mais romances clichês - comentou Alex, sem tirar os olhos do celular, provavelmente respondendo alguma mensagem importante.
Ficamos um bom tempo ali, folheando livros e conversando baixinho. A atmosfera tranquila da biblioteca quase me fazia esquecer que estávamos em um colégio novo, até que a porta se abriu e dois garotos entraram. Eles chamaram minha atenção imediatamente. Eram altos, bonitos, e tinham aquela confiança natural de quem chama olhares sem precisar se esforçar. Um deles, com o cabelo castanho levemente bagunçado, olhou ao redor como se procurasse algo.
- Cara, erramos a entrada! A gente devia ter virado à esquerda, como o app dizia - disse, encarando o amigo.
- Caralho, é mesmo. Vamos lá então, Jason - respondeu o outro, coçando a cabeça.
Eu, claro, parei de ouvir depois que ouvi o nome "Jason". Era ele. Bonito demais para passar despercebido. Os olhos claros, quase hipnotizantes, encontraram os meus por um breve instante, e meu coração deu uma leve acelerada.
Foi aí que...
- NICOLLE CARTER! - a voz de Charlotte explodiu bem no meu ouvido, me arrancando do transe.
- O QUÊ, MENINA?! - gritei, assustada, colocando a mão no peito.
- Limpa a baba que está escorrendo - brincou Alex, soltando uma risada gostosa, daquelas que contagiam.
- Ha-ha... engraçadinhas vocês - resmunguei, tentando disfarçar o calor que subiu para o meu rosto. - Tô com fome. Vamos? - sugeri, já me levantando antes que inventassem mais piadinhas às minhas custas.
Saímos da biblioteca sem pressa, mas com aquela fome que começa a cutucar o estômago de forma insistente. Os corredores do colégio eram largos e impecavelmente limpos, com paredes pintadas em tons neutros e quadros emoldurados que exibiam fotos antigas das primeiras turmas da Cheshire Academy. Havia algo elegante e imponente em cada canto - como se a escola fizesse questão de lembrar a todos que ali era um lugar de tradição. Enquanto caminhávamos, Charlotte comentava sobre o livro que tinha encontrado, dizendo que talvez realmente desse uma chance para Harry Potter, já que, segundo ela, "todo mundo do planeta já leu ou assistiu, menos eu". Alex, como sempre, estava atenta ao celular, mas não deixava de soltar um ou outro comentário sarcástico sobre a decoração exagerada do corredor.
- Gente, vocês repararam que esse corredor parece cenário de filme de suspense? - Alex falou, olhando para os lustres antigos que balançavam levemente por causa da corrente de ar.
- Suspense? - ri. - Isso tá muito mais pra cena de filme adolescente chique.
- Ou para Harry Potter... - murmurou Charlotte, e nós três caímos na risada.
Chegamos ao refeitório, que era tão impressionante quanto o resto da escola. O teto alto tinha vigas de madeira escura, e enormes janelas de vidro deixavam entrar a luz dourada do fim da manhã. As mesas eram longas, de madeira polida, e estavam dispostas de forma organizada. Algumas poucas pessoas já estavam lá, conversando baixinho ou comendo distraídas. O cheiro que vinha da área de serviço me fez salivar na hora: pão recém-assado, café e algo que parecia bolo de cenoura. Havia também um leve aroma de frutas frescas. Pegamos nossas bandejas e fomos direto para a fila, que estava praticamente vazia.
- Vou pegar tudo que tiver - declarei, olhando para as opções como se não comesse há dias.
- Vai com calma, Nick - disse Alex, rindo. - Não queremos que seu apelido vire "garota da fome infinita" no primeiro dia.
- Prefiro isso do que "garota que baba por Jason" - rebateu Charlotte, e as duas começaram a rir juntas.
Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso. Elas eram rápidas com as piadas. Pegamos nossos pratos e nos sentamos perto da janela. O sol batia de leve sobre a mesa, deixando a comida ainda mais convidativa. Enquanto comíamos, conversamos sobre as expectativas para o ano, os clubes que talvez quiséssemos participar e, inevitavelmente, sobre os garotos que tínhamos visto até agora.
- E então... - Alex me olhou com aquele sorriso travesso. - Jason, hein?
- Não começa - falei, tomando um gole do suco para disfarçar.
- Não precisa esconder, Nick. Eu vi seu olhar - provocou Charlotte, piscando.
- Eu só... achei ele bonito, ok? - admiti, tentando parecer indiferente, mas falhando miseravelmente.
No fundo, uma parte de mim sabia que aquele olhar rápido que Jason tinha me dado não ia sair tão cedo da minha cabeça. Depois do almoço, decidimos explorar mais um pouco o campus. Passamos por um jardim incrível, cheio de flores coloridas e bancos de pedra. O som suave da água correndo por uma pequena fonte deixava o lugar ainda mais encantador. Ficamos ali por um tempo, conversando e aproveitando a brisa leve.
E, por um momento, esqueci que era "a nova" da escola. Ali, sentada com Char e Alex, rindo e dividindo histórias, parecia que já éramos amigas há muito mais tempo do que algumas horas.
Saímos do jardim e seguimos sem pressa, como se o próprio campus fosse um labirinto a ser desvendado. O vento leve carregava o cheiro fresco das plantas e, ao fundo, era possível ouvir risadas dispersas de outros alunos explorando o lugar. Passamos por um pátio interno cercado por corredores cobertos de arcos de pedra. No centro, havia uma enorme árvore com folhas avermelhadas, apesar de não estarmos exatamente no outono. O contraste entre o verde do gramado e o tom quente das folhas dava ao lugar um ar quase mágico.
- Esse lugar parece cenário de série da Netflix - comentou Charlotte, girando no próprio eixo para olhar tudo.
- Concordo. Só falta alguém aparecer tocando violão no meio da grama - respondi, rindo.
Seguimos adiante e encontramos o ginásio. Era enorme, com arquibancadas retráteis e piso de madeira brilhante. Algumas bolas de basquete estavam espalhadas pelo canto, e um grupo de garotos jogava despreocupadamente. Não reconheci Jason entre eles, mas não pude evitar de dar uma olhada rápida, só para confirmar.
Alex parecia mais interessada em um quadro de avisos que ficava perto da entrada. Nele, cartazes anunciavam clubes de teatro, música, fotografia e até um grupo de astronomia que se reunia à noite no observatório do colégio.
- Eu definitivamente quero tentar fotografia - disse Alex, já pegando um folheto.
- Teatro pra mim - afirmou Charlotte sem hesitar.
- Acho que vou ver esse clube de astronomia. Quem sabe não dá pra ver alguma estrela cadente e fazer um pedido? - falei, meio brincando, meio séria.
Continuamos andando até chegarmos ao prédio de artes. Pela janela, vimos cavaletes com pinturas inacabadas, estantes com tintas e pincéis e um cheiro leve de madeira e tinta óleo escapando para o corredor. Não entramos, mas ficou claro que seria um lugar perfeito para escapar das aulas cansativas.
Quando percebemos, o sol já estava mais baixo, tingindo o céu com tons alaranjados e rosados. Decidimos voltar para o dormitório antes que escurecesse completamente. O caminho de volta foi mais silencioso, mas não de um jeito desconfortável. Era aquele silêncio bom, de quem já tinha falado muito e agora só estava absorvendo o ambiente. Ao passar pelo átrio principal, vi alguns alunos novos tirando fotos e outros sentados nas escadarias conversando animadamente.
Ao chegar no quarto 635, a sensação foi de alívio. O ar ali tinha um cheiro levemente adocicado, misturado com o perfume das minhas coisas recém-arrumadas e o aroma suave do hidratante que Char tinha usado mais cedo. As luzes estavam acesas, deixando o ambiente aconchegante.
- Ok, foi um bom primeiro dia de exploração - disse Alex, jogando o celular na cama e se jogando logo em seguida.
- Concordo. Mas amanhã quero ir naquele prédio de artes - comentou Charlotte, tirando o moletom e pendurando no encosto da cadeira.
- E eu quero... comida. De novo - falei, fazendo as duas rirem.
Deitei na minha cama e fiquei olhando o teto por alguns segundos. As risadas delas ainda ecoavam no quarto, misturadas ao som suave da rua lá fora. Era estranho... mas de um jeito bom. Pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia no lugar certo.

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