Alexandra
Acordei com um toque leve no ombro e ouvi a voz animada de Nicolle ecoando pelo quarto:
— Alex? Acorda, menina.
Soltei um gemido abafado e enterrei o rosto na almofada, tentando roubar mais alguns minutos de sono. O cheiro do travesseiro misturado com o aroma distante de café que vinha da cozinha me fez abrir apenas um olho.
— Que horas são? — murmurei, ainda meio sonolenta, esfregando os olhos com o dorso da mão.
— Oito da manhã — respondeu Nicolle, com um sorriso travesso, como se estivesse satisfeita por me ver acordar. — E os meninos convidaram a gente para tomar café com eles.
Suspirei, esticando os braços preguiçosamente. Olhei para Charlotte, que saía do banho enrolada na toalha, os cabelos ainda pingando água.
— Cadê a Charlotte? — perguntei, tentando esconder o cansaço.
— No banho. Depois é a sua vez — disse Nicolle, paciente.
Assenti e espreguicei, tentando absorver a realidade de que o dia realmente começara. Alguns minutos depois, Charlotte saiu do banheiro e eu entrei para o meu banho rápido. A água quente escorria pelo corpo, despertando meus sentidos lentamente. Fiz minha higiene matinal, sentindo o calor da água aflorar cada centímetro da pele, antes de ir para o closet me vestir. Escolhi uma roupa simples, confortável, perfeita para me sentir segura. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo, algo que sempre me dava firmeza, e coloquei o colar que tenho há anos, um detalhe pequeno, mas carregado de lembranças. Peguei o celular e, para minha surpresa, o quarto estava vazio. O silêncio parecia pesar no ar.
Peguei o celular e abri o WhatsApp. Digitei para Nicolle:
— Nick, cadê vocês?
Ela respondeu rapidamente:
— No refeitório, estamos esperando por você.
Senti um frio na barriga. Não era fome, era aquele aperto de timidez que me deixava nervosa de andar até lá sozinha. Digitei tentando soar casual:
— Você sabe que eu fico com vergonha de ir aí sozinha :(
— Tá, eu vou te buscar — respondeu ela.
Sorri, sentindo um alívio imediato:
— Obrigada :)
Esperei alguns minutos, mas Nicolle não apareceu. Comecei a pensar que talvez tivesse que ir sozinha, quando a porta se abriu de repente. Olhei para trás e lá estava Daren.
— Daren? O que faz aqui? — perguntei, surpresa, sentindo o coração acelerar.
— Vim buscar você — respondeu ele, firme e direto.
— Mas a Nicol... — tentei protestar, mas ele me cortou com um gesto de mão, irritado.
— Ela não vem. Eu me ofereci.
— Mas... — comecei, sem conseguir terminar.
— Nada de mas, Alex — disse, revirando os olhos com aquela expressão que misturava impaciência e diversão. — Você é muito chata. — Ele caminhou até a porta e olhou para mim: — Você não vem?
Suspirei e dei de ombros, resignada. Segui atrás dele, ainda nervosa. O corredor estava silencioso, e cada passo ecoava pelo chão de madeira. Minha mente disparava, imaginando todos os olhares que nos esperavam no refeitório. Quando finalmente abrimos a porta, todos os olhos se voltaram para nós. Meu rosto queimou instantaneamente. Daren percebeu e, sem hesitar, segurou minha mão. O contato breve fez os cochichos e olhares curiosos se multiplicarem.
— Não liga pra eles — murmurou baixinho, com um sorriso de canto de boca. — São um bando de idiotas.
Assenti, tentando controlar a vermelhidão que subia pelas minhas bochechas. A distância até a mesa parecia interminável. Finalmente nos sentamos, e Nicolle, com o sorriso maroto de sempre, comentou:
— Você tá vermelha, Alex. A água estava escaldante de novo?
Revirei os olhos e ignorei, sentindo uma mistura de vergonha e leveza.
— Agora que a princesa chegou, podemos comer? — disse Michael, impaciente, mas com aquele charme natural que fazia qualquer situação parecer mais leve.
— Obrigada pela consideração, Michael — retruquei, fingindo estar ofendida, enquanto sentia o coração bater mais rápido pelo abraço inesperado que ele me deu.
— Vamos nos servir, tô morrendo de fome — disse ele, puxando-me levemente para que o acompanhasse.
Servimo-nos rapidamente e voltamos à mesa. Michael então falou, com sinceridade nos olhos:
— Obrigado por ter cuidado da gente ontem. E desculpa por termos dado um perdido em você.
Sorri fraco, sentindo orgulho e timidez misturados:
— Tá tudo bem.
O restante do grupo se juntou, e a conversa começou a fluir naturalmente. Rimos de assuntos bobos, comentamos pequenas situações do dia anterior, e aos poucos a sensação de vergonha foi sendo substituída por uma confortável familiaridade.
Mais tarde, na sala de estar, estávamos os sete tentando escolher um filme. A confusão começou imediatamente.
— Gente, vamos de ação! — disse Nicolle, empolgada, batendo os pés no chão levemente.
— Não, terror! — gritaram os meninos, em uníssono, com expressões decididas.
— Romance! — interveio Charlotte, cruzando os braços e fazendo beicinho.
— Suspense! — disse Angel, levantando uma sobrancelha e cruzando as pernas, mantendo o tom firme.
Eu apenas fiquei quieta, observando a confusão, sem me atrever a opinar. Qualquer comentário meu poderia inflamar a briga.
Angel suspirou, colocando as mãos na cintura:
— Gente, façamos assim: pedra, papel e tesoura.
Todos olharam para ela, confusos, e ela explicou:
— É o que temos por enquanto. Um dos meninos contra a Nicolle. Quem ganhar vai para a segunda fase. Eu contra Charlotte. No final, os vencedores se enfrentam.
Todos concordaram. Primeiro round: Jason contra Nicolle. Jason venceu. Segundo round: Charlotte contra Angel. Angel venceu. Final: Jason contra Angel. Angel levou a melhor. Todos, exceto ela, estavam descontentes, mas a escolha pelo menos foi justa. Durante o filme, ninguém parecia realmente prestar atenção. Nicolle e Jason tinham dado um perdido, e eu fui a única que percebeu. Michael dormia com a cabeça inclinada para o lado, Charlotte mexia no celular sem parar, Daren assistia com uma mão levemente apoiada na minha perna, e Angel, claro, prestava atenção intensa, afinal, tinha escolhido o filme. O silêncio da sala era preenchido apenas pelos sons do filme, e eu observava cada gesto, cada expressão, sentindo a mistura de amizade, ciúme e carinho que pairava no ar. Por mais confuso que fosse, eu me sentia parte daquele caos confortável, parte daquela intimidade silenciosa que só quem está próximo consegue sentir.
O filme se arrastava, e eu já não sabia mais se estava acompanhando a história ou apenas os pequenos movimentos das pessoas ao meu redor. Daren permanecia sério, os olhos fixos na tela, mas a mão dele continuava pousada sobre minha perna, firme, como se estivesse ali de propósito, para lembrar a todos — e a mim — que eu estava ao lado dele. A cada segundo, eu sentia o peso silencioso daquele gesto. Michael soltou um ronco leve, que fez Nicolle e Jason, que tinham acabado de voltar sorrindo de um "passeio suspeito", rirem baixinho. Charlotte suspirou impaciente, revirando os olhos, enquanto os dedos dela deslizavam freneticamente sobre a tela do celular. Angel, por sua vez, parecia hipnotizada pelo filme. O brilho da tela refletia em seus olhos, deixando-os ainda mais intensos. O corpo dela estava levemente inclinado para frente, como se não quisesse perder nenhum detalhe. Havia algo na sua postura que me fez sorrir sem perceber.
— Tá gostando? — murmurei, quase num sussurro, apenas para Angel ouvir.
Ela virou o rosto devagar, os lábios se curvando num sorriso discreto, quase cúmplice.
— Muito. E você? — perguntou, a voz baixa, mas firme.
Corei. Não pela pergunta, mas porque Daren virou o rosto para me olhar bem na hora em que Angel me respondeu. O olhar dele era afiado, curioso, como se estivesse tentando decifrar algo.
— Eu... tô tentando prestar atenção — respondi rápido, mordendo o lábio, e voltei os olhos para a tela.
Nicolle, percebendo a tensão, inclinou-se para mim com aquele sorrisinho malandro que só ela tinha.
— Alex, você parece nervosa. Quer trocar de lugar comigo? — perguntou, fingindo inocência, mas com a voz carregada de malícia.
— Cala a boca, Nicolle — disse Daren, seco, sem nem olhar para ela. A mão dele apertou levemente minha perna, como se quisesse me manter no lugar.
Nicolle arregalou os olhos por um instante e depois riu, balançando a cabeça.
— Ok, senhor rabugento. Só queria ajudar.
Jason riu junto, mas o olhar dele ficou preso em mim por alguns segundos a mais do que eu gostaria. Senti minhas bochechas queimarem outra vez.
O tempo passou devagar. O filme chegou ao clímax, e Angel suspirou alto, mordendo o lábio com tanta força que parecia se segurar para não comentar em voz alta. Daren, percebendo meu desconforto, aproximou-se um pouco mais, seu ombro roçando no meu, o calor do corpo dele me envolvendo.Meu coração batia tão rápido que parecia querer escapar do peito.
Quando os créditos começaram a rolar, Michael despertou de repente, esfregando os olhos.
— Já acabou? Nossa, que porcaria de filme... — reclamou, bocejando.
Charlotte largou o celular e soltou um suspiro entediado.
— Eu disse que romance teria sido melhor.
— Romance é um saco — rebateu Jason, divertido.
— Você só fala isso porque não entende — retrucou Charlotte, emburrada.
Angel riu, ajeitando o cabelo para trás.
— Foi ótimo. Vocês é que não têm paciência.
— Ah, claro, só você gosta dessas coisas — disse Nicolle, cruzando os braços, mas rindo.
— Paciência é para poucos — respondeu Angel, com aquele olhar enigmático, e por um instante o silêncio pairou na sala.
Eu apenas respirei fundo, tentando ignorar o fato de que minha mão ainda estava sob a de Daren. O toque dele permanecia ali, firme, como se nada pudesse afastá-lo. E, no meio de toda aquela confusão, de risadas, provocações e olhares, percebi que, apesar da vergonha, havia algo reconfortante naquela sensação: eu não estava sozinha.
Depois que a televisão foi desligada, a sala se encheu de vozes. Nicolle levantou-se num salto, ajeitando o cabelo com as mãos.
— Gente, a gente precisa fazer alguma coisa. Se ficarmos só trancados aqui, vou enlouquecer — disse, animada, girando sobre os calcanhares.
Jason esticou os braços preguiçosamente e sorriu.
— Que tal irmos até o jardim? O sol tá bonito lá fora.
Michael bufou, ainda meio sonolento.
— Jardim? Ah, não... quero comida. — Ele se levantou, passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Já tô com fome de novo.
Charlotte riu alto, sacudindo o celular no ar.
— Michael, você vive com fome. A gente acabou de comer!
— Isso não conta, Charlotte. Café da manhã é só o aquecimento. — Ele piscou, arrancando gargalhadas de Nicolle e Jason.
Angel, por outro lado, apenas se levantou devagar, ajeitando a blusa com elegância.
— Eu apoio o jardim. Um pouco de ar fresco vai nos fazer bem.
O grupo começou a debater, e eu, como sempre, fiquei quieta, observando. Só que desta vez não demorou para Daren se inclinar para mim, a voz baixa, próxima demais do meu ouvido.
— Não confia nesses dois — murmurou, indicando Nicolle e Jason com um gesto quase imperceptível.
Olhei para ele, confusa.
— Por quê?
Os olhos dele se estreitaram, e havia algo sério, quase sombrio em sua expressão.
— Porque eles sempre querem se divertir às custas de alguém. E eu não quero que esse alguém seja você.
Meu coração disparou. O jeito como ele falava, como se quisesse me proteger de tudo, me deixava sem ar. Antes que eu pudesse responder, Angel se aproximou.
— Alex, vem comigo? — perguntou com um sorriso delicado, mas o olhar fixo, profundo, quase exigente.
Engoli em seco, dividida entre os dois. Daren imediatamente se endireitou no sofá, encarando Angel com frieza.
— Ela já tem companhia.
Angel ergueu a sobrancelha, sem perder o tom calmo.
— Perguntei a ela, não a você, Daren.
O silêncio ficou pesado, cortante. Meus olhos iam de um para o outro, e a sensação era de estar presa entre duas forças opostas. Senti minhas mãos suarem, e um rubor quente tomou conta do meu rosto. Antes que eu respondesse, Nicolle surgiu, como sempre, para quebrar a tensão:
— Gente, calma aí! Não é briga, é só um passeio no jardim. Relaxem.
Jason riu, balançando a cabeça.
— Esses dois parecem que vão se morder a qualquer momento.
— Eles que lutem — disse Michael, divertido, já caminhando em direção à cozinha. — Eu vou caçar comida.
Charlotte, sem desgrudar do celular, suspirou.
— Eu vou com ele, porque sei que se ficar sozinho ele vai trazer a cozinha inteira.
Todos riram, e por alguns segundos a tensão se dissipou. Mas dentro de mim, a confusão só aumentava. Angel ainda me olhava, paciente, esperando minha resposta. Daren, ao meu lado, mantinha a mão na minha perna, firme, como se quisesse me segurar ali para sempre.
Eu respirei fundo. Sentia que qualquer palavra minha poderia mudar completamente a forma como aquele dia iria terminar.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
