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Nicolle

O som estridente do despertador de Alex cortou o silêncio do quarto, me arrancando de um sono profundo. Pisquei várias vezes, ainda meio atordoada, sentindo a maciez do travesseiro e o calor do cobertor envolvendo meu corpo. Suspirei e rolei para o lado, percebendo que Alex estava completamente imersa em seu sono tranquilo, respirando suavemente.
Alex... acorda! — chamei, cutucando-a no ombro. — Já está na hora!
Ela murmurou algo ininteligível, afundando o rosto no travesseiro, mas não demorou para abrir os olhos, arregalando-os ao perceber a hora. Levantei-me rapidamente, sentindo o frio do piso sob os pés descalços, e fui direto para o banheiro. Um banho rápido era necessário; a água morna caía sobre minha pele, tirando a última pontada de sono e deixando meu corpo desperto. O cheiro do sabonete doce ainda pairava no ar quando terminei, e meu cabelo, ainda úmido, se grudava levemente na nuca. Voltei para o quarto e encontrei Alex com os olhos ainda pesados, se espreguiçando de forma preguiçosa.
— Vamos, Alex! — insisti. — O café da manhã não vai esperar, e Charlotte já deve estar esperando a gente.
Ela bufou, mas se levantou com um bocejo exagerado, arrastando-se pelo quarto. Logo Charlotte apareceu no corredor, impecável, com seu uniforme perfeitamente ajustado.
— Bom dia, atrasadas! — disse ela, sorrindo de forma provocativa. — Vamos logo para o refeitório, antes que só sobrem migalhas.
As três seguimos pelo corredor, já com nossos uniformes colocados, ajustando gravatas, colarinhos e saias. Cada passo ecoava suavemente pelo chão polido do colégio. O sol da manhã entrava pelas janelas altas, iluminando os corredores com uma luz dourada que fazia a poeira dançar no ar. Ao chegar no refeitório, o aroma de café fresco, pão recém-assado e frutas maduras nos envolveu. Os meninos estavam sentados em uma mesa mais à frente, conversando animadamente. Jason, Michael, Daren e alguns outros riam alto, sem perceber nossa chegada. Decidimos nos sentar em uma mesa afastada, escolhendo um canto tranquilo, longe da bagunça e do olhar atento deles.
Charlotte se serviu de suco e torradas, Alex escolheu panquecas e frutas e eu optei por um pouco de pão com geleia, enquanto observava os meninos por alguns segundos. Jason olhou na nossa direção, mas desviou o olhar rapidamente, como se não quisesse demonstrar interesse. Meu coração acelerou discretamente, mas me concentrei no café da manhã, tentando ignorar o turbilhão de pensamentos. A conversa na mesa era leve: Charlotte comentava sobre os planos para o fim de semana, Alex ouvia atentamente, ocasionalmente assentindo, e eu me pegava rindo baixinho das histórias que elas contavam. O refeitório estava cheio de estudantes, risadas, passos apressados e o som de talheres batendo nos pratos, criando um pano de fundo quase musical para aquela manhã.
Quando terminamos de comer, ajustamos nossos uniformes mais uma vez, verificando se gravatas e saias estavam alinhadas, e seguimos em direção à sala de aula. O corredor parecia interminável; o frio do chão sob nossos sapatos, o leve vento que entrava pelas janelas entreabertas e os sons distantes de estudantes nos faziam sentir que cada passo nos aproximava de algo importante.
Chegamos à sala de aula e nos acomodamos nos nossos lugares. Arrumei meus cadernos, organizei minhas canetas e respirei fundo, sentindo a mistura de ansiedade e expectativa. Olhei para Alex e Charlotte; ambas estavam concentradas, cada uma lidando com seus próprios pensamentos. O barulho dos colegas conversando diminuía à medida que todos se acomodavam, criando uma atmosfera de tensão silenciosa. A prova surpresa estava prestes a começar, e a adrenalina começava a subir, mexendo com cada músculo do meu corpo. O professor distribuiu as folhas, e o silêncio absoluto tomou conta da sala. Cada detalhe parecia amplificado: o cheiro de papel e caneta, o calor do sol entrando pela janela, o som da respiração de quem estava ansioso. Minutos se arrastaram como horas, cada um concentrado no que sabia ou tentava adivinhar. Finalmente, o sinal tocou e as provas foram recolhidas.
Saímos da sala ainda comentando discretamente. O corredor estava movimentado, estudantes falando e rindo, o barulho das mochilas e passos ecoando pelas paredes.
Caraca, a prova surpresa me pegou desprevenido. — falou Michael, saindo da sala com expressão de derrota.
— A Alex? Ela é a mais inteligente do grupo, por que não está aqui? — perguntou Jason, franzindo o cenho.
Ela detesta chamar atenção, geralmente é a última a sair. — respondi.
Daren também ainda não saiu. — comentou Charlotte, cruzando os braços.
Mas ele não é o mais inteligente do colégio. — disse Jason, balançando a cabeça.
Ele não é inteligente, ponto. Não inventa, J. — zombou Michael, rindo.
Esperamos pelos dois, e para minha surpresa, Alexandra e Daren saíram juntos, discutindo discretamente algum ponto da prova. Alex parecia tranquila, mesmo com a tensão da avaliação, enquanto Daren falava rápido, claramente tentando acompanhar o ritmo dela.
Vocês demoraram. — reclamei, cruzando os braços e lançando um olhar divertido para eles.
Ficamos revisando. — justificou Daren, ainda um pouco ofegante.
A Alex ficou revisando, você só saiu copiando dela. — brincou Michael, rindo alto.
Tá, mas podemos ir comer? Estou faminta. — disse Charlotte, estalando os dedos e sorrindo. Todos concordamos, e seguimos para o refeitório. Infelizmente, não tínhamos aula com Angel hoje, então ela não estava com a gente. O aroma da comida nos envolveu imediatamente: lasanha quente, filé mignon suculento e strogonoff cremoso. O som das travessas sendo colocadas sobre a mesa, o chiado dos talheres e o burburinho animado dos estudantes criavam um clima acolhedor, quase reconfortante depois da tensão da manhã. Nos acomodamos, nos servindo, e por alguns instantes, apenas desfrutamos da comida e da companhia, deixando que a adrenalina da prova se dissipasse lentamente. Servimo-nos e nos sentamos à mesa: Michael e Alex lado a lado, Daren entre mim e Charlotte, Jason ao meu lado, e uma cadeira vazia entre Alex e Daren, criando aquele espaço meio simbólico que só eu percebia. O cheiro do strogonoff se misturava ao aroma do pão fresco, e o calor suave do sol entrando pelas janelas fazia pequenos reflexos sobre os uniformes bem passados. Enquanto comíamos, conversávamos sobre o teste, sobre a dificuldade de algumas questões e sobre pequenas histórias do colégio, rindo das trapalhadas uns dos outros. Foi então que Angel apareceu, entrando no refeitório com seu jeito tímido, mas confiante.
Angel, como foi sua apresentação? — perguntou Alex, com aquele brilho de curiosidade nos olhos.
Alex me ajudou a preparar, e correu muito bem. Você foi 10. — respondeu Angel, se sentando ao nosso lado.
Ela sempre é. — disse Daren, olhando discretamente para Alex, que corou de leve.
Eu não pude deixar de notar como Daren agora parece cuidar mais de Alex, como se quisesse protegê-la de qualquer coisa ruim. Confesso que torço para que fiquem juntos e que ele realmente a proteja das maldades do colégio, especialmente das Cats.
A gente só tem aulas daqui a uma hora, então vou levar minha melhor amiga para colocar a fofoca em dia. — disse Michael, piscando para Alex de forma exagerada.
Oh... ela é minha melhor amiga! — falei, meio indignada, mas divertida.
Não me importa, vamos, Alex. — falou Michael, sem dar chances de resposta, e Alex se levantou, abusada como sempre.
Enquanto eles caminhavam, eu observava a química entre os dois e não pude evitar um leve ciúmes. Michael parece entender Alex de um jeito que eu ainda não compreendo totalmente.
Na próxima aula, apenas eu, Michael, Daren e Alex ficaríamos juntos; os outros amigos tinham horários diferentes. Decidimos ficar com Angel enquanto ela comia, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo, rindo das histórias que cada um contava, aproveitando a calmaria depois do teste e sentindo o vínculo do grupo se fortalecer mais uma vez.
Depois de nos despedirmos de Angel, seguimos pelo corredor com mochilas às costas. O sol entrava pelas janelas altas, refletindo nos azulejos polidos e criando pequenos brilhos no chão, enquanto o barulho dos outros alunos e o eco dos passos davam ritmo ao nosso caminhar. Michael caminhava um pouco à frente, com aquele ar confiante de sempre, enquanto Alex mantinha o olhar concentrado, mas ocasionalmente se virava para conversar com Daren, que parecia não conseguir desgrudar os olhos dela.
A aula de hoje vai ser longa, hein? — comentou Michael, puxando conversa enquanto ajustava a alça da mochila.
Mais vale aproveitar o tempo pra revisar mentalmente, do que se desesperar depois. — respondi, tentando parecer calma, mesmo sentindo aquela pontada de ansiedade típica antes de cada aula importante.
Passamos pela escadaria que levava ao segundo andar, sentindo o frio do corrimão metálico contra as mãos. Cada degrau parecia aumentar a expectativa, e Michael, como sempre, fazia piadinhas para aliviar o clima. Alex ria baixinho das bobagens dele, e eu não pude deixar de notar a suavidade no jeito como ela se inclinava levemente para ouvir Daren, que explicava algo que ela tinha esquecido de revisar.
Chegamos à sala, e o som das cadeiras sendo arrastadas e do quadro sendo limpo nos recebeu. O cheiro familiar de giz misturado ao perfume sutil da sala nova trazia uma sensação de rotina, mas também de novidade — cada aula era uma oportunidade de aprender algo diferente.
Vamos nos sentar ali, no fundo, perto da janela. — sugeriu Alex, indicando um canto tranquilo, longe do burburinho da turma. Daren assentiu e se acomodou ao lado dela.
Michael se jogou na cadeira atrás deles, com aquela expressão de quem acha que domina a sala, enquanto eu me sentei ao lado, pegando meu caderno. A luz do sol entrava lateralmente, iluminando os cadernos e fazendo os cantos das páginas brilharem levemente.
Espero que hoje a aula seja tranquila. — disse Alexandra , abrindo o caderno e organizando suas anotações.
Com a gente juntos, nada pode dar errado. — brincou Michael, piscando para Alex, que apenas revirou os olhos, mas com um sorriso contido nos lábios.
O aroma de livros e cadernos misturado com o cheiro leve de perfume da professora preenchia o ar, e todos se prepararam para iniciar a aula. O silêncio se instalou por alguns segundos, apenas quebrado pelo som da caneta riscando o papel, enquanto cada um de nós se preparava para absorver o conteúdo do dia. O clima estava tranquilo, mas a expectativa de aprender, revisar e se destacar mantinha todos alertas e focados.
A campainha soou e todos começaram a se acomodar na sala. Os cadernos já estavam abertos, lápis e canetas à mão, e o cheiro característico de marcadores e livros antigos se espalhava pelo ar. A professora entrou, cumprimentou a turma com um sorriso e começou a escrever no quadro, organizando os tópicos da aula. Alex estava completamente concentrada, anotando cada detalhe com cuidado. Daren, sentado ao lado dela, observava silenciosamente, às vezes fazendo anotações próprias ou olhando o que ela escrevia, sem nunca perder a atenção da professora. Havia algo na maneira como ele a acompanhava que me fazia perceber como ele se importava, mesmo sem dizer uma palavra.
Michael, sempre irreverente, ficava alternando entre seguir a explicação e trocar olhares com Alex, tentando fazê-la rir discretamente. Ela, controlando-se, ria baixinho, mas voltava rapidamente à concentração. A professora começou a explicar conceitos complexos, dividindo exemplos detalhados e pedindo para que a turma participasse. Michael respondeu algumas perguntas de forma descontraída, mas sempre correta, arrancando um sorriso da professora. Alex complementava explicações com calma e precisão, enquanto Daren acrescentava detalhes, mostrando seu entendimento sem parecer arrogante.
O ambiente estava concentrado, mas não deixava de ter aquela tensão subtil — olhares trocados, pequenos gestos de atenção e sorrisos que revelavam mais do que palavras.
O tempo passou rápido. A professora encerrou a aula revisando os pontos principais, reforçando o que era mais importante e destacando exemplos que poderiam ser úteis nas próximas atividades. Todos guardaram seus cadernos, arrumaram suas coisas e se prepararam para a próxima atividade ou intervalo. Enquanto saíamos da sala, eu observei Alex e Daren trocando um breve olhar cúmplice, e Michael fazendo uma piada que a fez soltar uma risada baixa. O ambiente era leve, mas cheio daquela energia silenciosa que só eles três, de certa forma, conseguiam criar.

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