Alexandra
Alguns meses haviam se passado desde o baile e desde o desmaio. Agora era Natal. A casa estava cheia de vida, decorada com pisca-piscas dourados e um cheiro doce de canela e biscoitos recém-saídos do forno. Mas, mesmo com toda essa alegria, eu ainda precisava tomar cuidado. Nada de esforços, nada de emoções fortes... e, principalmente, nada de fingir que estava tudo normal. O transplante seria no início do ano, e até lá eu precisava me poupar. A escola já tinha resolvido minha situação, o diretor, um homem gentil, me passou de ano automaticamente. Disse que eu era uma aluna exemplar e que merecia esse descanso. Quando soube que Daren, Nicolle, Angel, Charlotte, Michael e Jason tinham passado também, senti uma pontinha de felicidade. Era bom saber que, de algum jeito, todos nós estávamos bem... mesmo que minha "versão de bem" fosse um pouco diferente agora.
Damian e Scott viviam aqui em casa, ajudando minha mãe com tudo.
E Daren...
Daren estava comigo sempre que podia. Ele se tornou o meu porto seguro, meu sorriso de fim de tarde, meu calor nos dias frios. E também o meu lembrete constante de que eu ainda tinha motivos para lutar. Meu quarto já mal cabia tantos presentes, pelúcias, livros, flores e pequenas cartas que ele escrevia quando achava que eu não estava olhando.
Hoje, como era Natal, minha mãe e Damian decidiram reunir todos. Convidaram as famílias das minhas amigas, encheram a casa de luzes e músicas suaves de fundo.
Eu não podia ajudar com nada, claro, então fiquei deitada no sofá, enrolada num cobertor azul, observando todos correrem de um lado para o outro, rindo, ajeitando pratos e copos.
Daren, como sempre, estava ao meu lado vigilante, protetor.
Scott ajudava minha mãe a colocar a mesa, e os dois discutiam o melhor jeito de organizar os talheres, o que me fez rir baixinho.
Olhei para Daren, que brincava com o cadarço do tênis, distraído, e sorri.
— Amor... traz um copo d'água pra mim, por favor? — pedi, com a voz mansa.
— Com certeza, princesa. — respondeu com aquele tom que sempre derretia meu coração.
Ele se levantou e desapareceu na direção da cozinha. Ouvi o som do copo sendo enchido, o gelo tilintando contra o vidro, e então ele voltou, se sentando novamente ao meu lado.
Me entregou o copo com cuidado, os olhos fixos nos meus, e pousou a mão sobre minha perna. Aquele toque simples bastava pra eu sentir o mundo menos pesado.
Com o passar das horas, os convidados começaram a chegar. Primeiro veio Charlotte, acompanhada de seu pai, os dois sempre pontuais, com um sorriso acolhedor. Logo depois, Nicolle chegou com a família, exalando perfume floral e energia contagiante. E por último, Angel, linda como sempre, com seus pais.
Michael e Jason não vieram, minha mãe preferiu deixar o grupo mais íntimo, apenas as meninas e suas famílias. Além disso, Meredith tinha organizado uma viagem de Natal para que os meninos passassem mais tempo com os pais. Mesmo assim, a casa estava lotada de risadas, vozes se misturando, o cheiro de peru assado e vinho tinto enchendo o ar.
Todos tentavam manter o clima leve, mas eu percebia o cuidado em cada gesto, o silêncio respeitoso nas conversas, o medo de me deixar cansada. Sentamo-nos todos à mesa. As luzes tremeluziam, refletindo nas taças.
Minha mãe estava radiante, Damian a observava com aquele olhar apaixonado que sempre me fazia sorrir, e Scott... Scott parecia mais relaxado do que nunca, embora eu soubesse o quanto ele se preocupava comigo.
Depois do jantar, começamos a troca de presentes. Normalmente seria à meia-noite, mas, como eu não podia ficar acordada até tarde, todos concordaram em adiantar.
Entreguei meus presentes, eu havia escolhido cada um com carinho e pedido à mamãe para comprar, já que eu não podia sair. Daren cuidou de comprar o dela em meu nome, mesmo relutante em aceitar o dinheiro que mandei. Ver o sorriso de cada um ao abrir seus presentes me deixou genuinamente feliz.
Quando tudo terminou, pedi ao Scott que levasse meus presentes para o quarto. Ele concordou prontamente, e enquanto subia as escadas, Daren se ajeitou ao meu lado, puxando-me levemente contra o peito.
O calor dele, o som do coração batendo, mesmo que o meu às vezes falhasse era o melhor presente que eu poderia ter. Ficamos ali, juntos, enquanto o som de risadas e conversas se misturava ao tilintar dos copos dos adultos na varanda. Angel escolheu um filme para passarmos o tempo, nada de terror, nada de comédia.
Apenas algo leve, calmo.
Algo que eu pudesse assistir sem me cansar, e que me lembrasse que, apesar de tudo, o Natal ainda podia ser bonito.
A sala estava cheia de vozes, risadas e o cheiro de comida natalina. Todos se esforçavam para me incluir, mas por mais que eu tentasse parecer animada, algo dentro de mim ainda pesava. O barulho, as conversas, o riso alto... tudo me deixava cansada.
Suspirei, e antes que alguém percebesse, tomei coragem:
— Gente... eu não quero estragar o Natal de vocês. — falei, tentando soar leve. — Vou para o quarto, assim vocês podem se divertir sem terem uma doente pra atrapalhar.
Eles tentaram me convencer a ficar.
Nicolle segurou minha mão, Angel fez uma careta triste, mas eu já tinha decidido.
Daren levantou-se logo em seguida.
— Eu vou com você.
Subimos juntos, e assim que entramos no quarto, o silêncio nos envolveu. As luzinhas presas na parede lançavam um brilho suave sobre nós, e por um momento o mundo pareceu desacelerar. Sentei-me na cama, ele se aproximou, e aos poucos começamos a trocar carícias, toques delicados, beijos curtos, como se cada gesto fosse uma lembrança antes do amanhã.
Daren olhou para mim, com aquele sorrisinho torto.
— Que tal abrir meu presente agora? — sugeriu, arqueando uma sobrancelha.
Sorri, curiosa.
— Tá bom. — respondi, pegando a caixa que ele me entregou.
Abri com cuidado e, ao ver o conteúdo, meus olhos se encheram de emoção. Era um equipamento de futebol personalizado, com "Alexandra C." bordado e o número 2 estampado nas costas.
— Daren... — sussurrei, passando os dedos sobre as letras.
— Assim, quando for me ver jogar, você vai estar perfeita. — disse, rindo de canto.
Sorri e me inclinei pra beijá-lo. Um selinho virou dois, depois três, até que nossas risadas preencheram o quarto.
Peguei o presente dele em seguida.
— Toma, agora é a sua vez.
Ele abriu o pacote e arregalou os olhos.
— Não acredito... — murmurou, tirando da caixa a coleção de jogos que ele queria há meses. Jogos que não existiam por aqui e que o pai dele nunca deixaria comprar.
— Como você sabia? — perguntou, surpreso.
Dei de ombros, travessa.
— Um mágico nunca revela seus segredos. — pisquei, e deitei a cabeça em seu peito, ouvindo o coração dele bater forte.
O som era firme, constante. Um contraste bonito com o meu.
— Seu coração está batendo muito rápido. — comentei, sorrindo.
Ele passou os dedos pelo meu cabelo e respondeu, num sussurro:
— Está batendo porque tudo o que eu sinto por você não cabe nele.
Fechei os olhos, deixando as palavras me envolverem.
— Você está falando sério? — perguntei, num fio de voz.
— Muito sério. — disse ele, acariciando meu rosto. — Eu te amo, Alex.
Abri os olhos, e um sorriso escapou dos meus lábios.
— Eu também te amo, Dar. — murmurei. — Mas acho que vou acabar dormindo. Se quiser descer e ficar com o pessoal, pode ir.
Ele riu baixo.
— Eu fico aqui com você, meu anjo.
Sorri fraco e me ajeitei no peito dele. O calor, o som do coração, o toque... tudo me acalmava. E assim, entre um respiro e outro, adormeci.
Quando acordei, a manhã ainda não havia chegado. As luzes do pisca-pisca piscavam devagar, e o barulho distante das risadas lá embaixo era abafado. Daren ainda estava ali, dormindo ao meu lado.
Fiquei quieta, observando o teto.
Pensei na cirurgia. No medo. No que aconteceria se...
A voz dele me tirou do transe:
— No que você está pensando? — perguntou, a voz rouca de sono.
Engoli em seco.
— E se a operação não correr bem?
Ele me puxou mais pra perto e fez um carinho no meu cabelo.
— Vai correr bem. Eu prometo. — disse com firmeza, tentando disfarçar a tensão na voz. — E, pra ser sincero, seu quarto parece a Disneyland.
Ri fraco.
— Ah é? Por que será?
— Talvez porque você tem o melhor namorado do mundo. — respondeu com um tom de falsa modéstia.
— Convencido. — brinquei, empurrando o ombro dele.
A risada dele preencheu o quarto, e por um instante tudo pareceu normal. De repente, a porta se abriu e meus amigos entraram, cada um segurando um prato de comida.
— Um Natal sem você e a sua fome não seria legal pra gente. — começou Nicolle, colocando os pratos no tapete. — A gente até tentou, mas não deu certo. Ficamos brigando o tempo todo, principalmente a Charlotte e a Angel.
As duas se olharam indignadas.
— Você é o equilíbrio de tudo, Alex. — completou Nicolle, sorrindo.
Angel se sentou ao meu lado.
— É a gente que precisa se adaptar a você, até você melhorar.
Scott apareceu logo atrás delas, equilibrando uma bandeja.
— Você não atrapalha ninguém, Alex. Eu adoro cuidar de você. — disse, e Daren lançou um olhar mortal em sua direção.
— Scott... — adverti, mas ele apenas deu de ombros.
Charlotte quebrou o clima:
— E, além disso, a gente cansou de ver filme e ouvir música. Queremos fazer as coisas que você também pode fazer.
Olhei para Daren e ele ergueu as mãos, rendido.
Todos se sentaram no chão, rindo, e eu também desci, sentindo a fome apertar.
Angel puxou conversa:
— E aí, Scott, onde você estuda?
— Sierra Canyon. Mas ano que vem vou estudar na escola da Alex. — respondeu ele.
— Por quê? — perguntou Nicolle, curiosa.
Scott deu um meio sorriso.
— Meu pai quer que eu cuide dela o tempo todo. E... achei que seria legal estudar com uma garota tão linda quanto ela. — disse, me lançando um olhar.
Daren imediatamente se endireitou.
— Respeita a minha namorada, cara. Só não rebento a sua cara por respeito a ela.
Nicolle interferiu, divertida:
— Ai, Daren, relaxa. O Scott pode falar o que quiser.
Ele olhou pra ela com uma expressão que dizia não teste minha paciência.
— Já chega. Podemos trocar de assunto? — disse entre dentes.
Charlotte riu.
— Tá com ciúmes, Daren?
Ele respondeu com um gesto indecente, o que fez todo mundo rir. Jogamos, conversamos e rimos até tarde, até o limite que minha mãe permitiu. Um por um, foram indo embora. Daren foi o último. Ele só não dormiu aqui porque minha mãe não deixou.
Quando ele saiu, Scott ficou pra ajudar a arrumar a bagunça.
— Eu te ajudo. — disse, e antes que eu insistisse, ele já estava recolhendo os pratos.
Descemos juntos, e encontramos minha mãe e Damian na sala, sorrindo.
— Ainda bem que estão aqui, crianças. — começou mamãe, animada. — Temos uma notícia maravilhosa! Damian conseguiu uma casa incrível a alguns quarteirões daqui. Depois da sua operação, Alex, nós vamos nos mudar pra lá.
Scott deu de ombros.
— Tá. Tanto faz. — e foi pra cozinha.
Suspirei.
— Eu adorei a ideia, mãe. — falei, tentando amenizar o clima. — Ele só ainda não se acostumou com a ideia de morarmos todos juntos.
Ela sorriu, me abraçou e beijou minha testa.
Dei um beijo na bochecha dela, abracei Damian e subi pro meu quarto. Deitei na cama, o eco das risadas ainda ecoando pela casa, e fechei os olhos.
Por um instante, esqueci o medo.
E deixei o Natal ser apenas... bonito.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
