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Charlotte

Nicolle e eu já estávamos prontas, uniformes
impecáveis ou quase. Eu estava sentada na beirada da cama, mexendo no celular, enquanto Nick andava de um lado para o outro como se o quarto fosse uma passarela da insatisfação.
- Nossa, que horrível... esse uniforme é ridículo - reclamou pela quinquagésima vez, ajeitando a saia como se isso fosse fazer alguma diferença.
- Concordo, mas... pelo menos é preto. Imagina se fosse amarelo? - tentei ser otimista, mas a expressão dela não mudou nem um pouco.
O uniforme era composto por uma saia preta que passava do joelho, uma camisa branca de manga longa, um blazer preto com o símbolo da escola bordado e uma gravata igualmente preta. Formal demais para o meu gosto, mas até que não ficava mal.
- ALEXANDRA, SAI LOGO DESSE BANHEIRO! A COMIDA VAI ACABAR SE VOCÊ DEMORAR MAIS UM SEGUNDO! - gritou Nick, impaciente pela terceira vez.
- Nossa, que grossa. Eu só estava ajeitando o cabelo - respondeu Alexandra, saindo e revirando os olhos.
- Podemos ir, meninas? - perguntei.
- Claro - responderam em uníssono.
Seguimos pelo corredor até o refeitório. O cheiro de café fresco e pão recém-assado preenchia o ar. Eu estava distraída observando os detalhes das paredes quando esbarrei, sem querer, em uma garota ruiva de beleza marcante.
- Olha por onde anda, garota - disse ela, com um tom rude.
- Olha por onde anda você - rebateu Nicolle na hora, com a mesma grosseria. - E da próxima vez, fala direito com a minha amiga - completou, encarando.
- Não precisava, Nick, eu daria conta... - tentei a acalmar.
- Ih, daria nada. Você estava olhando pra guria com cara de paisagem - debochou, fazendo Alex rir e me deixar emburrada.
Chegamos ao refeitório e fomos direto nos servir. O café da manhã tinha salada de frutas, bolos fofos e panquecas douradas que exalavam um cheiro irresistível. Pegamos nossos pratos e nos sentamos perto da saída. O ambiente estava cheio de conversas cruzadas e risadas vindas de várias mesas, mas nós comemos em silêncio, só aproveitando o momento.
Quando terminamos, Alex olhou para o grande relógio de parede.
- Precisamos ir. A aula começa em dez minutos - avisou, com aquela energia de pessoa pontual.
- Nossa, Alex, precisava cortar o clima desse jeito? - reclamou Nick.
- A Alex tem razão, Nick. Não podemos nos atrasar logo no primeiro dia. Onde é a aula, Alex? - perguntei.
- F2 - respondeu, conferindo o horário. - Segundo andar, vamos logo.
Seguimos o mapa no aplicativo da escola e encontramos a sala. Era enorme, com janelas altas que deixavam a luz da manhã entrar. Sentei ao lado de Alex, enquanto Nick ficou na carteira à nossa frente. O burburinho era alto até o professor entrar. Ele deixou o material sobre a mesa, deu um passo à frente e falou com voz firme:
- Silêncio, galera! Eu sou o Anthony, o professor de Matemática. Será um prazer ter vocês aqui nessa maravilhosa instituição. E é isso... vamos à aula.
- O senhor não quer que a gente se apresente, professor? - perguntou um garoto do fundão.
- Não, faremos isso com o tempo - respondeu, já virando para escrever na lousa.
- Nossa... a aula mal começou e eu já estou cansada - sussurrou Nick para mim, arrancando uma risadinha minha.
Curiosamente, o tempo passou rápido. Duas horas que pareceram meia.
- Que aula chata... e olha que eu adoro matemática - disse Nick, entediada.
- Eu amei! O professor é tão legal - rebateu Alex.
- Tá, mas você é nerd, ama estudar. É diferente - debochou Nick.
- Você gosta de matemática, sua chata. Só não gostou do professor - retrucou Alex.
- Vou nem comentar, sua loira azeda de olhos azuis - provocou Nick, e todas nós caímos na risada.
Saímos da F2 e fomos para Química, seguindo assim até preencher todo o dia de aulas.
O resto das aulas passou em um misto de cansaço e curiosidade. Química foi... interessante, mas o professor parecia ter tomado café demais, falava tão rápido que mal dava tempo de copiar as anotações. Biologia, por outro lado, tinha uma professora calma, voz suave, que explicava tudo com uma paciência quase maternal. Já Computação Gráfica me pegou de surpresa, a sala era cheia de computadores de última geração, e o cheiro de equipamento novo misturado ao ar-condicionado deixava tudo com aquela sensação de "tecnologia de ponta". Quando o sinal tocou anunciando o fim das aulas, senti um alívio imediato. As pessoas começaram a sair apressadas, conversando animadamente sobre o dia, e eu, Nicolle e Alex seguimos juntas para o dormitório. O corredor estava mais silencioso do que de manhã, com o sol entrando pelas janelas e criando faixas douradas no chão.
- Se todos os dias forem longos assim, eu vou precisar de café intravenoso - resmungou Nick, jogando a mochila no ombro.
- Ah, para... não foi tão ruim. Pelo menos ninguém nos pegou para fazer trabalho em grupo logo de cara - comentou Alex, ajustando a gravata que já estava meio torta.
- Eu ainda acho que Matemática foi a pior... - falei, e as duas riram, lembrando de como Nick cochichou o tempo todo.
Seguindo pelo corredor do dormitório, o silêncio era quase reconfortante, quebrado apenas pelo som ritmado dos nossos passos sobre o piso polido. O ar carregava aquele cheiro característico de sabonete e lençóis recém-trocados, misturado com o perfume discreto de Alex, que sempre parecia estar impecavelmente arrumada.
- Meninas, precisamos organizar os armários antes do jantar - sugeri, percebendo que nossos pertences ainda estavam espalhados de forma desleixada.
Nick bufou, jogando a mochila na cama.
- Ah, que saco. Sempre fico perdida com essas coisas.
Alex, por outro lado, parecia animada.
- Eu adoro arrumar coisas. Vamos transformar isso em um mini desafio: quem organiza melhor o armário?
Ri da empolgação dela e decidi entrar na brincadeira. Começamos a separar uniformes, livros e materiais de estudo. As risadas surgiam cada vez que Nick esquecia algo ou se enrolava com a gravata, e Alex não perdia a chance de zoar a situação:
- Nossa, Nick, parece que você está tentando enforcar o armário - debochou, apontando para a gravata torta.
- Só estou testando se ele aguenta o peso da minha beleza - retrucou Nick, e eu caí na gargalhada.
Depois de ajeitar tudo, nos jogamos nas camas por alguns minutos. O sol da tarde atravessava as janelas e desenhava padrões quentes e dourados no chão e nas paredes. Eu olhei pela janela e percebi que o pátio da escola estava cheio de estudantes: alguns corriam para as quadras, outros se espalhavam pelos jardins, e havia um grupo que claramente estava praticando para algum tipo de apresentação artística.
- Olha só, o pessoal parece se divertir mais aqui do que na aula - comentou Alex, observando o movimento.
- Normal, a gente está só começando. Mas imagina daqui a um mês, com provas e trabalhos - disse Nick, franzindo a testa.
O jantar chegou rápido. O aroma de comida fresca invadia o dormitório, e a fome que já começava a se manifestar nos deixou animadas. Sentamo-nos na mesa, e cada detalhe do ambiente parecia familiar: o tilintar de talheres, as conversas baixas de estudantes que se conheciam há mais tempo, e o cheiro de molhos e temperos que se misturava com o perfume doce das sobremesas.
- Espero que sobrem panquecas para mim - resmungou Nick, com aquele brilho nos olhos que denunciava ansiedade por comida.
- Se não sobrar, é culpa sua por mexer tanto na gravata hoje - provoquei, e Alex riu junto, enquanto Nick fazia uma careta dramática.
Entre garfadas e risadas, começamos a conversar sobre o dia, comentando professores, colegas e detalhes que chamaram nossa atenção. Eu ainda não conseguia tirar da cabeça a garota ruiva do corredor, e por um instante me peguei observando se ela estaria por ali. Mas a atenção logo voltou para nossas piadas internas e para o planejamento do dia seguinte: quais aulas seriam mais difíceis, quais materiais precisávamos organizar, e até a possibilidade de explorar o pátio depois das aulas.
Quando a noite começou a cair, o dormitório se encheu de sombras suaves, iluminadas apenas pelas lâmpadas de luz quente. O clima ficou mais calmo, e todas nós nos acomodamos, cada uma com sua rotina noturna: arrumar mochilas, revisar rapidamente anotações, ou simplesmente ficar olhando para o teto, refletindo sobre o primeiro dia intenso.
- Amanhã promete ser ainda mais puxado - murmurou Nick, antes de se jogar na cama.
- Ah, mas pelo menos agora sabemos onde ficam as salas - disse Alex, ajeitando o travesseiro.
Eu sorri, sentindo uma mistura de cansaço e curiosidade. O primeiro dia tinha sido uma explosão de sensações: risadas, tensão, descobertas e um leve arrepio de mistério que me acompanhava desde o encontro com a garota ruiva. E, naquele momento, enquanto a luz diminuía e o silêncio se instalava, não podia deixar de sentir que essa experiência estava apenas começando.
O quarto já estava mergulhado em silêncio, iluminado apenas pela luz amarelada do abajur ao lado da cama de Alex. Eu me joguei ali de qualquer jeito, sentindo o cansaço do primeiro dia pesar em cada músculo do meu corpo.

- Ei, Nick... você acha que vamos conseguir nos adaptar mesmo aqui? - murmurei, virando-me para ela com os olhos cheios de curiosidade e, talvez, um pouco de medo.

- Claro que sim - respondeu ela, com aquele sorriso que tentava passar confiança. - Pode parecer assustador agora, mas a gente se apoia, lembra?

Mordi o lábio, sentindo uma pontada de insegurança. - É, eu sei... mas... e se a Alex ou você se arrependerem de me aturar?

Nick soltou uma risada suave e passou a mão no meu cabelo. - Charlotte, você é impossível de não gostar. Agora, foca em dormir, amanhã o dia promete.

Resmunguei baixinho, mas me enrolei no cobertor, tentando acalmar meu coração acelerado. Nicolle tinha um jeito de fazer tudo parecer menos assustador, mesmo que eu soubesse que o amanhã ainda traria desafios.

Do outro lado, Alexandra estava sentada na própria cama, abraçada ao travesseiro, olhando fixamente para o teto como se buscasse respostas invisíveis. O silêncio dela pesava mais do que qualquer palavra, e por um instante eu pensei em perguntar o que se passava em sua mente. Mas o jeito encolhido de seu corpo, como se quisesse se tornar pequena e invisível, me fez engolir a pergunta.

Ela parecia tão frágil naquele momento, como se tivesse mil pensamentos presos, mas nenhum encontrasse coragem para sair.

Nick percebeu também, mas não falou nada - apenas lançou um olhar rápido para Alex, do tipo que prometia proteção silenciosa.

E assim, entre a segurança firme de Nicolle e o silêncio carregado de Alexandra, eu deixei meus olhos se fecharem. O primeiro dia tinha terminado, mas a sensação de que ainda havia muito a enfrentar só crescia dentro de mim.

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