Alexandra
O dia tinha começado comum, mas nada foi tão comum assim. O sol iluminava o pátio, mas parecia que cada raio só servia para mostrar o quanto eu estava fora do lugar. Caminhando ao lado da Angel, tentava me concentrar no trabalho da escola, nas vozes baixas, nos detalhes pequenos, mas, claro, o universo tinha outros planos para mim. Porque, como sempre, bastava eu tentar passar despercebida para que alguém decidisse que eu era o alvo perfeito.
— Ai, minha nossa! Me desculpe, eu... eu, me desculpe — murmurei, baixando a cabeça de vergonha, sentindo minhas bochechas queimarem.
A morena me olhou com um sorriso debochado e, sem aviso, esbarrou de propósito no meu ombro, fazendo meus livros caírem no chão.
— Olha por onde anda, sua distraída! — disse, rindo, enquanto eu me abaixava para pegar os cadernos espalhados. — Ops, foi mal, nerd.
Ela e suas amigas se afastaram, rindo e cochichando, deixando-me parada no pátio, sentindo uma mistura de raiva e humilhação subir pela minha garganta.
Angel franziu a testa, cruzando os braços. — Você não pode deixar as pessoas te tratarem assim, Alex.
— Deixa quieto... vamos. Char e Nick em estar impacientes — respondi, tentando me recompor, pegando meus cadernos do chão e ignorando o calor do constrangimento que ainda queimava no meu rosto. Quando finalmente chegamos ao grupo, a conversa mudou para o baile da sexta-feira, uma festa de boas-vindas aos novatos. Não era tão sofisticado quanto o baile dos finalistas, mas ainda assim parecia uma oportunidade de socializar.
— Eu não vou, gente — falei de forma seca, tentando deixar claro que não havia espaço para discussões.
— Ué, por quê? — perguntaram Charlotte, Angel e Nicolle em uníssono.
— Não estou afim — repeti, firme.
Charlotte franziu as sobrancelhas. — Alex...
— Charlotte, por favor, não insista. Eu não quero ir, e ponto final — interrompi, percebendo que ela começaria a argumentar. — Eu esqueci algo na biblioteca... eu... v-v-volto já.
Angel se adiantou, oferecendo-se: — Eu acompanho você.
— Não é preciso, obrigada — respondi com um sorriso rápido e falso, desviando o olhar e saindo em direção à biblioteca.
No caminho, tirei o celular do bolso e liguei para minha mãe.
— Alô, querida — ouvi sua voz do outro lado.
— Oi, mãe. Como você está? — perguntei, tentando soar calma.
— Estou bem, querida. E você?
— Também, mãe... mãe, eu... — tentei começar, mas fui interrompida.
— Querida, vou entrar em uma reunião com os acionistas da empresa. Falamos mais tarde, tá bom? — disse ela, com aquele tom frio e distante.
— Tá, mãe — suspirei enquanto desligava.
Segui em direção às arquibancadas do campo de futebol americano e me sentei na quarta fileira, olhando para o nada, perdida nos meus pensamentos. Os meninos ainda não haviam chegado para treinar, e eu não percebi quando alguém se aproximou.
— Oi, será que posso me sentar aqui? — uma voz masculina soou atrás de mim.
— Claro... eu também já estava de saída — respondi, levantando-me levemente, surpresa.
— Fica, eu não mordo — brincou o garoto, sorrindo. — Eu vi você chorando e quis vir ver se você estava bem.
— Sim, estou bem, obrigada por perguntar — falei, sentindo meu rosto corar.
— Sou o Michael — se apresentou.
— Alexandra — respondi, sentindo uma estranha tranquilidade na presença dele. — Por que você está justamente aqui?
— Porque me lembrei dos meus pais e quis vir para cá, sabe? Onde ninguém vai me incomodar — disse ele, com um leve sorriso.
Curiosa, perguntei: — O que aconteceu com seus pais?
— Eles morreram em um acidente de carro há alguns anos — respondeu, interrompendo meu pensamento.
Um silêncio pesado se formou entre nós. — Me desculpe — murmurei, cabisbaixa. — Eu nunca cheguei a conhecer meu pai... ele morreu dois meses depois de eu nascer. Minha mãe sempre foi ausente, me sinto como se nunca tivesse realmente uma.
Michael sorriu suavemente. — Então você sabe exatamente como me sinto — disse, e o sorriso dele parecia aquecer de algum modo o frio do meu coração.
— Sei sim — respondi, espantando o nó na garganta. — Queria dizer que não sei, mas sei exatamente como é.
Ele inclinou a cabeça, olhando-me com curiosidade. — Você vai para o baile?
— Não, não estou afim de ir — falei com firmeza.
Nossa conversa fluiu por alguns minutos, cada palavra trazendo um alívio silencioso, até que a voz estridente de alguém que eu preferia esquecer irrompeu pelo ar.
— MICHAEL! VEM AQUI E DEIXA DE CONVERSAR COM A ESQUISITA! — Daren gritou, o som cortando a tranquilidade do momento como um golpe.
— Ah, então você é amigo do Daren — me levantei, sentindo raiva e decepção. — Acho melhor a gente não se falar mais. Tchau! — disse, virando-me e saindo rapidamente.
Voltei para o meu quarto, ignorando Nick e Charlotte, que continuavam conversando animadamente sobre o baile, um mundo distante do meu. No banheiro, tomei um banho rápido e reconfortante, como se estivesse tentando lavar mais do que apenas a sujeira do dia. Vesti meu pijama e me sentei na cama, abraçando o travesseiro em silêncio absoluto.
— Vejo que está de mau humor, Alex — disse Angel, em tom brincalhão.
— Ahaha, engraçadinha... do que vocês estão falando? — tentei disfarçar, mas minha voz traía meu cansaço emocional.
— Do baile que você não vai — respondeu Nicolle, direta. — Você precisa vir, Alex. Sem você, não terá a menor graça.
— É loira, vem com a gente — completou Charlotte, sugerindo até ajudar com o dinheiro para o vestido.
— Não é pelo dinheiro, meninas — respondi, colocando a cabeça no travesseiro. — Eu simplesmente não quero. Deixa isso quieto.
— Na nosso ano, você não escapa, Alexandra Cameron. Você vai nem que seja arrastada — ameaçou Nicolle, com um sorriso de desafio.
— É isso — completou Angel, concordando.
A conversa continuou ao fundo, mas eu me deixei levar pelo sono, os pensamentos do dia finalmente me vencendo. O quarto estava silencioso, exceto pelo barulho do meu próprio suspiro. Me joguei na cama, abraçando o travesseiro como se ele pudesse absorver toda a tensão do dia. Angel se encostou na parede, mexendo distraidamente no cabelo, e Charlotte e Nicolle continuavam rindo baixinho no canto, conversando sobre coisas que não faziam sentido para mim naquele momento.
— Alex, você precisa relaxar — disse Angel, finalmente se aproximando da cama. — Não dá para levar tudo tão a sério.
— Eu sei... — murmurei, sem coragem de explicar o quanto o dia tinha sido humilhante. — Só quero ficar um pouco sozinha.
— Tá, tá, mas só um pouco — Angel concordou, sentando-se na beirada da cama. — Depois você vai ver que dá para rir disso tudo.
Charlotte e Nicolle continuaram conversando entre si, mas eu não conseguia me concentrar. Fechei os olhos e deixei que a cabeça descansasse no travesseiro, tentando desligar do mundo. Cada risada das meninas no quarto soava distante, quase como se viesse de outro lugar.
— Alex... — a voz de Angel era mais suave agora. — Sei que hoje foi pesado, mas você não precisa enfrentar tudo sozinha.
Suspirei, sentindo que tinha razão. — Eu sei, Angel... só... é complicado.
Fiquei deitada, abraçada ao travesseiro, sentindo que aos poucos a tensão do dia ia diminuindo. O quarto parecia um refúgio, meu pequeno mundo onde ninguém podia me atingir. Enquanto as meninas continuavam conversando baixinho, deixei meus pensamentos se perderem, imaginando que, talvez, amanhã seria um dia um pouco melhor. Fiquei ali, deitada, ouvindo as vozes das meninas como um pano de fundo distante. O quarto tinha o cheiro doce do sabonete que eu usava e do lençol recém-trocado, e por um instante, por mais breve que fosse, me senti segura. Era como se o mundo inteiro tivesse ficado do lado de fora da porta, e eu pudesse simplesmente ser eu mesma, sem olhar para ninguém, sem precisar sorrir ou fingir.
Meu corpo relaxou lentamente. As mãos, ainda apertando o travesseiro, começaram a soltar a pressão. O coração, que ainda batia acelerado, encontrou um ritmo mais tranquilo, quase compassado com a respiração. As vozes das meninas se tornaram um pano de fundo distante, uma melodia tênue que não exigia minha atenção. A mente, ainda que relutante, começou a ceder ao sono. Os pensamentos dispersos se desfizeram em pequenos fragmentos, e, um a um, foram desaparecendo. Senti meus músculos relaxarem, os olhos se fecharem por completo, e uma sensação de leveza tomou conta de mim.
Finalmente, me deixei levar. O travesseiro moldou-se ao meu rosto, os lençóis abraçaram meu corpo e, por alguns preciosos instantes, tudo que existia era o silêncio e a sensação de segurança que me cercava. O quarto parecia maior, mais acolhedor, e o mundo lá fora, por enquanto, não tinha importância. Respirei fundo mais uma vez e, sem perceber, o sono me envolveu de vez, me puxando para um descanso profundo e merecido.
E assim, finalmente, eu dormi.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
