Alexandra
Acordei com o toque leve da minha mãe no rosto.
— Acorda, Alex. Está na hora de se preparar para o hospital — disse ela, num tom doce, tentando esconder a preocupação que brilhava em seus olhos.
Afundei um pouco mais no travesseiro, sentindo o calor dela misturado ao cheiro familiar do perfume que sempre usava.
— Eu não quero ir, mãe... Me deixa dormir só mais um pouco... — murmurei, a voz arrastada pelo sono.
Ela suspirou, mas não com irritação. Era aquele suspiro cheio de cuidado e paciência que só uma mãe sabe dar.
— Você precisa ficar boa, meu amor. O Daren, seus amigos... todos querem ver você saudável de novo.
Aquelas palavras penetraram mais fundo do que qualquer ameaça ou ordem poderia. Meu coração se aqueceu, misturado com o medo que eu tentava ignorar. Devagar, sentei na cama e respirei fundo, sentindo o corpo pesado do sono, da ansiedade e do nervosismo acumulado. Levantei-me com cuidado, ainda tonta, e fui até o banheiro. O chuveiro quente me despertou aos poucos; a água escorrendo pela pele parecia lavar também o medo que eu carregava. Tomei meu tempo, observando cada detalhe: o reflexo do vapor nos azulejos, o som da água caindo, o cheiro do sabonete que me acalmava. Vesti um moletom branco, simples e confortável, e calcei chinelos da mesma cor. O conforto da roupa me trouxe uma pequena sensação de segurança.
Quando desci, a cena na sala de jantar me fez engolir em seco. Todos já estavam lá, sentados em silêncio, tentando parecer normais, mas o peso nos olhares denunciava o medo. As mãos trêmulas segurando a xícara de café, o leve franziro de testa do namorado da minha mãe, os suspiros contidos da enfermeira que nos acompanhava. Não podia comer nada, então apenas me sentei, observando. Cada detalhe parecia maior: o brilho da mesa de madeira refletindo a luz suave do início da manhã, o cheiro de pão ainda recém-saído do forno, o som distante dos carros passando pela rua. Tudo era normal, e ainda assim carregava um peso enorme.
Quando o carro nos buscou, seguimos em silêncio. A janela ao meu lado era uma tela em movimento: pessoas caminhando apressadas, carros e ônibus deslizando pelo asfalto molhado da chuva da noite anterior, prédios refletindo a luz cinzenta do céu nublado. Eu tentava fixar cada imagem, cada detalhe, como se pudesse levar um pouco de vida para dentro de mim, afastando o medo que crescia a cada quilômetro. O trajeto parecia mais longo do que realmente era. Cada semáforo, cada curva, cada árvore passando rapidamente, me dava uma sensação estranha de estar dentro de um sonho, uma mistura de realidade e ansiedade, de calma e expectativa. Fechei os olhos por alguns segundos, respirando fundo, sentindo a mão da minha mãe levemente sobre a minha, como se fosse um ancoradouro no meio daquela tormenta silenciosa.
E ali, entre o barulho do motor, o cheiro do ar condicionado e o som distante da cidade, tentei me convencer de que tudo ficaria bem.
O carro parou em frente ao hospital.
O prédio parecia maior do que eu lembrava, imponente, com janelas que refletiam o céu nublado e a luz fraca da manhã. Minha mãe apertou minha mão com um gesto quase imperceptível, mas que me passou força.
— Pronta, Alex? — perguntou ela, tentando sorrir, embora o medo ainda brilhasse nos olhos dela.
Assenti, engolindo seco. A cada passo que dávamos, meu coração batia mais rápido. O piso frio do corredor refletia a luz do teto, e eu podia ouvir o eco dos nossos passos misturando-se ao murmúrio de pessoas e o som distante de carrinhos de hospital. Tudo parecia amplificado, cada detalhe mais nítido.
Chegamos à recepção. Uma enfermeira nos cumprimentou com um sorriso profissional, mas gentil.
— Alexandra Cameron? — perguntou, conferindo a ficha.
— Sou eu — respondi, a voz mais firme do que me sentia.
Ela nos guiou por um corredor longo, cheio de portas numeradas, até um quarto de preparação. A sala era pequena, mas organizada: uma cama, uma maca, armários de metal, equipamentos médicos silenciosos que pareciam vigiar cada movimento.
— Você vai se trocar para a cirurgia, por favor — disse a enfermeira, entregando um avental azul claro.
Fui até o vestiário anexo, respirando fundo, sentindo a textura fria do tecido nas mãos antes de colocá-lo. O avental era simples, mas parecia me transformar em alguém que poderia enfrentar aquilo, alguém que podia confiar na própria força. De volta ao quarto, deitei-me na maca, sentindo o frio do metal por baixo de mim.
Minha mãe se sentou ao meu lado, segurando minha mão com firmeza.
— Vai dar tudo certo, Alex — disse, tentando soar confiante. — Eu estou aqui.
Respirei fundo, tentando imitar sua calma. Fechei os olhos por um momento, lembrando do rosto de Daren, do sorriso de Michael e da risada de Charlotte. Pensar neles me deu uma sensação estranha de conforto, misturada com culpa por não poder estar com eles agora.
O tempo passou devagar, cada segundo alongado pela ansiedade.
Então, a porta se abriu e o médico entrou. Ele se apresentou com um sorriso calmo, quase reconfortante.
— Olá, Alexandra. Vamos começar logo. Vou aplicar a anestesia, ok? — falou, observando-me atentamente.
Assenti novamente, tentando controlar a respiração. Ele colocou a seringa na minha mão, fria e firme. Por um instante, tudo parecia ficar mais silencioso: o barulho do corredor, o som distante do hospital, até a própria batida do meu coração. Um último pensamento atravessou minha mente: vai dar certo. Eu vou sair dessa.
A picada foi rápida. Uma sensação de formigamento começou a subir pelos meus braços, seguida por uma leve tontura.
Minha visão começou a escurecer, e o mundo se transformou em uma névoa suave, quase acolhedora. Fechei os olhos, respirando uma última vez, e deixei que o sono me levasse.
[...]
Acordei horas depois, com a visão ainda turva e o corpo pesado, como se tivesse sido esmagada por ondas de sono e medo. Minha mãe dormia em um sofá próximo, toda torta, os pés apoiados no braço do móvel, os ombros inclinados, os cabelos espalhados pelo encosto. O rosto dela tinha aquela expressão cansada, mas tranquila, e por um instante senti uma pontada de culpa por não poder fazer nada além de estar ali, deitada. Tentei chamá-la, mas a voz não saiu. Apenas fiquei olhando o teto branco, tentando me acostumar com a claridade suave que atravessava as cortinas translúcidas. O som das máquinas ao redor, um zumbido constante, ritmado, quase hipnótico se misturava ao eco distante dos corredores. Cada bip parecia marcar o tempo, lembrando-me de que eu estava viva, e de que algo grande acabara de acontecer.
Quando ela finalmente acordou e me viu de olhos abertos, sorriu. Um sorriso pequeno, contido, mas cheio de alívio. Seus olhos brilhavam, como se uma parte do peso que carregava tivesse finalmente desaparecido. Ela saiu rapidamente, e pouco depois retornou acompanhada do médico.
— A cirurgia foi um sucesso, Alexandra — disse ele, com um sorriso sereno que me fez confiar, mesmo ainda atordoada. — Se você seguir todas as recomendações, poderá voltar à escola em duas semanas.
Assenti, sentindo o corpo ainda flutuar entre o sono e a consciência. Um misto de cansaço, alívio e medo me tomou. Fiquei mais algumas horas em observação, ouvindo o farfalhar de lençóis, o tilintar de instrumentos e o murmúrio das enfermeiras no corredor. Para minha surpresa, recebi alta.
— Vamos enviar uma enfermeira para acompanhá-la em casa — explicou o médico, dirigindo-se à minha mãe, que havia insistido com uma determinação quase protetora. — Só por precaução.
Damian nos esperava do lado de fora.
— Que bom ver você assim — disse ele, abrindo um sorriso contido que misturava alívio e cuidado.
— Foi a mamãe que conseguiu isso para mim — respondi, olhando pela janela do carro. O movimento da cidade passava em câmera lenta, como se o mundo também estivesse respirando junto comigo. Olhei ao redor, tentando memorizar cada detalhe: as árvores alinhadas ao longo da avenida, o reflexo do sol nas vitrines, o azul pálido do céu nublado que ainda prometia uma tarde quente. Mas, aos poucos, percebi que aquele caminho não era familiar.
— Damian, pra onde estamos indo? — perguntei, minha voz ainda fraca e trêmula.
Ele apenas sorriu de canto, sem revelar nada.
— Você vai ver.
Trinta minutos depois, entramos em um condomínio cercado por muros altos e árvores perfeitamente podadas. As casas eram grandes, modernas, silenciosas, com jardins impecavelmente cuidados. Cada detalhe parecia planejado para transmitir segurança e conforto.
Paramos diante de uma casa cinza, imponente, e minha mãe se virou para mim, radiante:
— Bem-vinda à nossa nova casa.
Senti o coração acelerar. Eu sabia que a mudança estava planejada, mas não esperava que fosse tão repentina, nem que acontecesse justamente agora, logo após a cirurgia.
Damian me pegou nos braços e subiu comigo para o andar superior, enquanto minha mãe vinha logo atrás, carregando uma sacola com meus pertences hospitalares.
Quando a porta do quarto se abriu, fiquei paralisada.
O quarto era um sonho: paredes em azul céu, uma cama enorme no centro, o nome "Alexandra" iluminado em luzes brancas sobre a parede. Ao lado, uma escrivaninha elegante e uma pequena área de estar com poltronas e almofadas claras. Uma porta dava acesso à varanda, onde cortinas translúcidas deixavam a luz entrar suavemente, criando um efeito quase mágico.
Senti o cheiro dos lençóis limpos, da madeira nova e do ar fresco que entrava da varanda.
— Está lindo — murmurei, quase sem fôlego.
Damian me colocou na cama, ajeitou o travesseiro e piscou, antes de sair. Fiquei apenas com minha mãe, que se sentou ao meu lado, passando a mão suavemente pelo meu cabelo.
— Está se sentindo bem, Alex? — perguntou, a voz carregada de carinho e preocupação.
— Sim... mãe, dorme aqui comigo? — pedi, num tom mais infantil do que pretendia.
Ela sorriu, como se tivesse esperado por aquele momento há anos.
— Claro, Alexa.
O som daquela palavra me soou estranho, mas reconfortante.
Ela percebeu minha expressão curiosa e explicou:
— Seu pai queria que seu nome fosse Alexa. Eu insisti em Alexandra, e ele acabou cedendo. Mas, no fundo, sempre te chamou assim.
Houve um silêncio longo. Meu peito apertou levemente, e uma pergunta antiga veio à tona:
— Mãe... qual era o nome dele?
Ela olhou para a janela, respirou fundo, e falou com voz firme, quase reverente:
— Leandro. Leandro Cameron.
Repeti o nome mentalmente, sentindo-o preencher uma lacuna que nem sabia existir. Havia nele firmeza e suavidade ao mesmo tempo. Era bonito. Familiar.
Sorri, leve, e deixei que o sono me dominasse novamente. O último som que ouvi antes de me entregar completamente ao descanso foi o sussurro do vento passando pela varanda.
Naquela noite, dormi profundamente, talvez pela primeira vez em muito tempo com a sensação de que algo dentro de mim finalmente estava começando a se recompor.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
