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Nicolle

Saí da sala de estar ao lado de Jason como quem foge de uma confusão, tentando não chamar atenção. Ninguém parecia notar nossa ausência, ainda bem. O corredor estava silencioso, apenas iluminado pelas lâmpadas amareladas que deixavam tudo com um ar de mistério. Quando entramos no quarto dele, senti um arrepio me percorrer. O cheiro que me envolveu era tão tipicamente dele: perfume forte, misturado com madeira e um toque quase imperceptível de algo que eu não conseguia identificar, mas que parecia ser só dele. Ele fechou a porta devagar, como se não quisesse que ninguém percebesse. Me indicou a cama com um simples gesto e eu obedeci, me sentando lentamente. O colchão afundou sob o meu peso, confortável demais, e por um instante pensei que poderia ficar ali para sempre. Jason se sentou ao meu lado, perto o suficiente para que eu sentisse o calor que vinha do corpo dele.
Gostou da noite de ontem? — a pergunta dele foi simples, mas me pegou de surpresa.
Soltei um riso sem graça, mexendo nos meus dedos.
Mais ou menos... o final foi meio... peculiar. — respondi, tentando não me alongar muito.
Ele franziu as sobrancelhas, me olhando como se estivesse decifrando um enigma.
— Peculiar? Por quê?
Suspirei, lembrando da cena da noite passada.
Minhas amigas estavam bêbadas e drogadas, Jason. Não é algo que acontece todo dia. — falei, cruzando os braços, mas ainda assim com um meio sorriso.
Ele riu baixo, aquele riso irritante que parecia debochar de tudo.
O clube das nerds. — provocou, revirando os olhos.
O sangue subiu ao meu rosto imediatamente. Odiei o tom de voz dele, mas ao mesmo tempo era impossível não sentir aquela pontada estranha de diversão.
Deixa de ser preconceituoso, menino. A gente pode ser inteligente, mas também sabe se divertir. — rebati, erguendo o queixo, desafiadora.
Jason me encarou de um jeito que fez meu estômago revirar. Ele não estava apenas ouvindo, estava me analisando. Então, sorriu com aquele ar misterioso que sempre me deixava sem chão.
Você principalmente.
Arqueei a sobrancelha, confusa.
Eu principalmente? Ué... por quê?
Ele não respondeu. Apenas se inclinou devagar, os olhos fixos nos meus, como se me desse tempo para recuar se eu quisesse. Eu senti o coração disparar, a respiração acelerar, cada segundo se alongando até se tornar insuportável. Quando os lábios dele tocaram os meus, fiquei imóvel, surpresa demais para reagir. Mas a intensidade com que ele me puxou pela cintura, a firmeza do beijo, a mistura de paixão e desejo que parecia explodir de nós dois... tudo isso quebrou minha resistência. Fechei os olhos e retribuí, me deixando levar. O gosto dele era viciante, e o calor que se espalhava pelo meu corpo só crescia.
Acabei mordendo o lábio inferior dele ao cessar o beijo, meio sem jeito. Jason sorriu, satisfeito, como se tivesse acabado de ganhar algo que sempre quis.
O que foi isso? — perguntei, ainda ofegante, o coração batendo forte dentro do peito.
Um beijo na minha namorada. — respondeu com naturalidade, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, antes de se deitar ao meu lado.
Eu pisquei várias vezes, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.
N-namorada? Desde quando? — gaguejei, tentando organizar meus pensamentos.
Ele virou o rosto na minha direção, os olhos cheios de confiança.
Desde que eu gosto de você... e você de mim.
Fiquei sem reação. Parte de mim queria sorrir, parte queria questionar, mas nenhuma delas venceu. Apenas deitei minha cabeça contra o ombro dele, ainda sentindo os lábios formigarem por causa do beijo.
Depois de alguns segundos de silêncio, Jason se levantou, estendeu a mão para mim e riu.
Vamos voltar antes que percebam nossa ausência.
Assenti, tentando ignorar a confusão dentro de mim, e segui com ele de volta até a sala de estar, como se nada tivesse acontecido.
Assim que atravessamos o corredor de volta, o som da televisão foi ficando mais nítido. Uma música tensa ecoava pela sala, acompanhada de silêncios longos e respirações contidas dos personagens. Era um daqueles filmes de suspense em que todo mundo prende a atenção, esperando o próximo susto. Jason abriu a porta devagar, e entramos como se nunca tivéssemos saído. Para meu alívio, ninguém pareceu notar. Os olhos de todos estavam grudados na tela, alguns inclinados para frente, outros abraçados a almofadas como se fossem escudos contra o medo. Sentamos no sofá, exatamente no mesmo lugar de antes. O ambiente estava mergulhado numa escuridão quase completa, iluminado apenas pela luz da TV, que lançava sombras rápidas pelo rosto das pessoas. Era como se a sala inteira tivesse sido engolida pela atmosfera do filme. Por um momento, consegui respirar mais tranquila, certa de que nossa ausência tinha passado despercebida. Mas então senti o braço de Jason roçar discretamente no meu, como se fosse de propósito. Não me afastei. Fingi estar concentrada na trama, embora meu coração estivesse batendo bem mais forte do que qualquer trilha sonora de suspense. As cenas na tela mostravam passos ecoando num corredor vazio, e eu me peguei imaginando como os nossos, minutos antes, soaram iguais, silenciosos, quase cúmplices. Jason se inclinou um pouco para frente, como se estivesse apenas acompanhando o filme, mas sua mão encontrou a minha sob a escuridão. O gesto foi tão natural que parecia inevitável. Ninguém viu. Ninguém percebeu. Era como se o filme tivesse se tornado nossa melhor camuflagem.
E enquanto todos aguardavam o próximo susto da história, o verdadeiro suspense estava dentro de mim: o que aconteceria depois daquele toque escondido?
Quer que eu estenda essa cena até o momento em que o filme acaba, para mostrar como eles se comportam na frente dos outros, ou prefere que termine nesse clima silencioso e carregado de tensão?
Assim que a televisão foi desligada, o silêncio pesado deu lugar a um burburinho de vozes. Eu me levantei de um salto, ajeitando o cabelo com as mãos — ficar parada muito tempo me deixava inquieta.
Gente, a gente precisa fazer alguma coisa. Se ficarmos só trancados aqui, vou enlouquecer — falei, tentando animar o clima. Dei uma giradinha sobre os calcanhares, como se fosse um convite para que todos se mexessem.
Jason, como sempre, me acompanhou na energia. Esticou os braços preguiçosamente e sorriu:
Que tal irmos até o jardim? O sol tá bonito lá fora.
Revirei os olhos de leve, mas sorri. Ele sempre sabia pegar carona nas minhas ideias, e eu não ligava. Melhor ele comigo do que contra.
Michael bufou, sonolento, e já veio com aquela mania irritante:
Jardim? Ah, não... quero comida. — Passou a mão no cabelo, todo amassado. — Já tô com fome de novo.
Charlotte riu alto, sem desgrudar do celular:
Michael, você vive com fome. A gente acabou de comer!
— Isso não conta, Charlotte. Café da manhã é só o aquecimento. — Ele piscou, e claro que conseguiu arrancar risadinhas de Jason e minhas também.
Enquanto isso, Angel, sempre toda certinha, ajeitou a blusa como se fosse capa de revista e disse:
Eu apoio o jardim. Um pouco de ar fresco vai nos fazer bem.
Até aí tudo parecia normal. Só que então percebi o olhar de Daren. Ele estava inclinado para o lado de Alex, falando baixo no ouvido dela. Aquilo chamou minha atenção na hora. Franzi a testa discretamente, observando. Ele murmurava algo, e eu não conseguia ouvir, mas pelo jeito com que ela olhou para ele, confusa, percebi que não era conversa boba. A expressão de Daren estava séria demais. Jason também percebeu, porque se ajeitou no sofá, acompanhando a cena de canto de olho. Eu já estava preparada para soltar alguma piadinha quando Angel se aproximou de Alex.
Alex, vem comigo? — perguntou com aquele sorriso falso de serenidade. Eu sabia bem como reconhecer quando alguém queria parecer calmo só para provocar.
Daren endireitou-se de imediato, como um cão de guarda.
— Ela já tem companhia.
Pronto. Era tudo que eu precisava para entender onde aquilo ia parar.
Angel ergueu a sobrancelha, cheio de confiança:
Perguntei a ela, não a você, Daren.
O ar da sala ficou pesado, dava para sentir até na pele. A pobre da Alex parecia perdida, o rosto vermelho, os olhos indo de um para o outro como quem não sabe para que lado correr. Suspirei alto e decidi intervir antes que a situação escalasse.
Gente, calma aí! Não é briga, é só um passeio no jardim. Relaxem.
Jason riu logo em seguida, balançando a cabeça.
Esses dois parecem que vão se morder a qualquer momento.
Eles que lutem — disse Michael, já indo em direção à cozinha. — Eu vou caçar comida.
Charlotte, claro, levantou também, sem largar o celular nem por um segundo.
Eu vou com ele, porque sei que se ficar sozinho ele vai trazer a cozinha inteira.
As risadas aliviaram um pouco a tensão, mas eu continuei de olho. Angel ainda encarava Alex com aquele ar paciente, como se tivesse todo o tempo do mundo. Daren, por outro lado, mantinha a mão firme na perna dela, como quem marcava território. Eu sorri sozinha, mordendo o lábio. A confusão de Alex era evidente. Mal sabia ela que, para mim, aquilo tudo estava começando a ficar interessante. Assim que as risadas forçadas na sala diminuíram, eu decidi que já tinha visto o suficiente. O ar ali estava pesado demais, cheirava a tensão, a disputa velada, e eu não tinha paciência para ver Alex se enrolando entre dois rapazes como se fosse protagonista de um drama barato. Levantei o queixo, ajeitei o cabelo sobre os ombros e anunciei:
Quer saber? Eu vou mesmo para o jardim. — Minha voz cortou o barulho da sala, e todos se calaram por um instante, como se esperassem que eu desse o próximo passo. — Quem quiser que venha.
Jason não hesitou nem por um segundo. Como sempre, foi só eu dar a deixa que ele já estava atrás de mim. Esticou-se preguiçosamente, soltando um bocejo teatral, e se levantou com aquela confiança irritante que só ele tinha. Veio até mim e passou o braço pelo meu ombro com naturalidade, como se eu fosse extensão dele.
Vamos lá, princesa. — murmurou contra meu ouvido, a voz baixa, grave, quente. Senti o arrepio percorrer minha nuca, mas escondi o sorriso.
Atravessei a sala com ele ao meu lado, consciente dos olhares que nos seguiam. Não precisava olhar para saber: Charlotte, com o celular na mão, registrava tudo em silêncio; Angel nos acompanhava com aquele ar de indiferença estudada; Daren estava ocupado demais tentando se grudar em Alex para se importar; e Michael... bom, Michael só pensava em comida.
Mas era isso que eu gostava, a sensação de ser observada. Eu sabia que, mesmo sem dizer nada, eu e Jason éramos o centro da cena. E eu adorava ser o centro. Quando abrimos a porta, uma lufada de ar fresco me atingiu de imediato. Respirei fundo, enchendo os pulmões. O jardim estava iluminado pelo sol da manhã, aquele dourado macio que fazia tudo brilhar. As folhas das árvores balançavam com a brisa leve, e pequenos pontos de orvalho cintilavam na grama como minúsculas pedras preciosas. Aquele contraste com a sala abafada foi quase um alívio físico.
Melhor assim, não acha? — perguntei, girando devagar sob o braço de Jason, fazendo a saia do meu vestido rodar em volta das minhas pernas. Fiz de propósito, só para sentir o olhar dele me acompanhar, pesado, quente. Ele riu baixinho e me puxou de volta, firme, colando meu corpo contra o dele.
Melhor. — respondeu simples, mas com aquele olhar cheio de intenções.
Encostei a cabeça no ombro dele, fingindo que estava apenas relaxando, mas na verdade a minha mente ainda estava presa ao que tínhamos deixado para trás. Eu conseguia ver, como se tivesse olhos dentro da sala, Alex com as bochechas vermelhas, o coração disparado, enquanto Daren e Angel disputavam cada centímetro da atenção dela. Era como assistir a um espetáculo em que eu já sabia o final e mesmo assim me divertia.
Tá pensando no quê? — Jason perguntou, apertando de leve minha cintura, tentando arrancar minha confissão.
Virei o rosto para ele, um sorriso lento se formando nos meus lábios.
Em como as coisas ficam bem mais interessantes quando ninguém sabe de tudo.
Ele arqueou uma sobrancelha, curioso, os olhos brilhando com aquela malícia que eu conhecia tão bem. Mas em vez de me pressionar, apenas soltou uma risada curta e continuou me guiando pelo jardim.O sol aquecia minha pele, o cheiro da grama húmida misturava-se ao perfume dele, forte, amadeirado, inconfundível e por um instante, me senti exatamente onde deveria estar: longe do caos, mas perto o bastante para não perder nenhum detalhe. Porque, no fundo, eu sabia. O que estava acontecendo dentro daquela sala não ia acabar ali. E eu estaria pronta para assistir cada pedaço da confusão.
O tempo passou rápido demais e, quando percebi, já estava quase na hora de ir almoçar. Jason me puxou pela mão.
— Vamos, antes que o refeitório fique lotado.
Concordei e seguimos juntos para lá. Quando entramos, o burburinho tomou conta do silêncio que havia no jardim. O cheiro de comida quente se espalhava pelo ar. Hoje o cardápio tinha lasanha, filé mignon e strogonoff, e o refeitório estava lotado de alunos. Pegamos nossas bandejas e encontramos os outros. Charlotte já nos esperava, acenando de longe para chamarmos atenção. Sentamos todos juntos: Michael e Alex lado a lado, Daren entre mim e Charlotte, Jason do meu outro lado, restando uma cadeira vazia entre Alex e Daren.
O clima era leve, cheio de risadas e provocações. Jason, como sempre, não perdeu a oportunidade de brincar e me provocar. Depois que todos terminaram de comer, ele se levantou de repente, chamando a atenção de todos ao redor.
EU SÓ QUERIA AVISAR QUE EU NAMORO A GAROTA MAIS LINDA DO COLÉGIO... — começou, e eu já queria me esconder debaixo da mesa.
Ele fez um discurso inteiro sobre mim, que me deixou corada e sem graça. Algumas pessoas bateram palmas, outras apenas olharam e voltaram para suas conversas. Quando ele terminou, eu nem consegui encará-lo.
Nicolle, eu sei que não sou o último romântico, mas queria que você soubesse que eu gosto muito de você. Aceita namorar comigo? — perguntou, me olhando fixo.
— Eu aceito... mas eu não vou te beijar na frente dessa gente toda como nos filmes. — avisei, ainda morrendo de vergonha.
Ele riu e se sentou novamente, satisfeito com a resposta. A mesa inteira ficou comentando, enquanto a conversa fluía para assuntos aleatórios. Foi então que Angel apareceu, se juntando a nós, e o grupo voltou ao clima leve de sempre. Quando o almoço terminou e cada um seguiu para seus compromissos, Jason me puxou discretamente pela mão.
Vem comigo. — falou num tom baixo.
Subimos juntos até o quarto dele. Assim que entramos, ele tirou o casaco e deixou a porta encostada. Eu me sentei na cama, ajeitando as almofadas, e ele sorriu.
Espera aqui. Vou buscar algo pra gente comer mais tarde. — disse antes de desaparecer pelo corredor.
Fiquei ali olhando ao redor, ainda sentindo meu coração acelerado pelo discurso dele no refeitório. Pouco depois, Jason voltou com uma bandeja cheia de coisas: suco, frutas, um pedaço de bolo e alguns salgados.
Achei que você ia querer beliscar alguma coisa mais tarde. — falou, colocando tudo em cima da mesa.
Você pensa em tudo, hein. — respondi, sorrindo.
Sentamos lado a lado na cama e começamos a conversar sobre bobagens: professores, provas, os outros alunos, até alguns planos para o futuro. Ele me ouvia com atenção, às vezes zombava de alguma resposta minha, e eu o empurrava de leve, rindo. O tempo foi passando, a voz dele se misturando ao meu cansaço. Em algum momento, já deitada contra o ombro de Jason, senti meus olhos pesarem.
— Nicolle? — ele chamou baixinho.
— Hm? — respondi sonolenta.
— Nada, dorme... eu tô aqui.
Senti os dedos dele mexendo de leve no meu cabelo, e depois não ouvi mais nada. Adormeci ali, ao lado dele, em paz.
[...]
Acordei com ele me cutucando:
— Você precisa ir embora, já está ficando tarde e a qualquer momento o inspector vai passar por aqui.
— Me leva no seu colo, por favor — pedi baixinho, quase manhosa, olhando para ele com um sorriso de canto.
Jason soltou um suspiro divertido, revirando os olhos, mas cedeu.
— Tá bom, vem cá, preguiçosa — murmurou antes de me erguer do chão como se eu fosse uma noiva.
Seus braços me envolveram com firmeza e, no mesmo instante, senti meu corpo relaxar. Ele me carregava com facilidade, como se eu não pesasse absolutamente nada. Saímos do quarto dele, e durante o caminho até o meu, percebi que vários olhares curiosos se voltavam para nós. Alguns cochichavam, outros apenas observavam com uma mistura de surpresa e reprovação. Mas, sinceramente, eu não me importava. Pelo contrário... tinha algo de reconfortante em ser carregada por ele daquela forma.
Ao chegarmos na porta do meu quarto, Jason parou e arqueou uma sobrancelha.
— E agora, espertinha? Como vou abrir essa porta se você está no meu colo? — perguntou, um sorriso malicioso brincando em seus lábios.
— Eu abro pra você — respondi com simplicidade, estendendo a mão até a maçaneta. Com um giro rápido da chave, a porta se abriu.
Ele entrou comigo ainda nos braços e só me colocou no chão quando já estávamos no meu quarto. Com cuidado, como se eu fosse feita de vidro, me acomodou no chão.
— Está entregue, senhorita Carter — disse com uma reverência falsa, debochada.
Soltei uma risadinha antes de abraçá-lo com força e deixar um beijo rápido em seus lábios.
— Obrigada, senhor Drummond.
Mas o momento doce foi interrompido bruscamente. Uma voz firme e irritada ecoou pelo corredor.
— NICOLLE CARTER E JASON DRUMMOND, O QUE É ISSO?!
Congelamos no lugar. Katherine, a inspetora, estava parada ali com o rosto fechado, as sobrancelhas arqueadas em pura fúria.
Jason, é claro, não perdeu a chance de provocar.
— Ah, Kathy, foi só um beijinho de nada — disse, tentando brincar com a situação.
— Não provoca, menino — sussurrei, apertando o braço dele, já irritada com a falta de noção.
Katherine cruzou os braços, ainda mais severa.
— Vocês sabem que isso é proibido aqui no colégio.
— A gente sabe, e não vai repetir. Até porque eu já estava de saída — rebateu Jason, tentando escapar.
Mas Katherine se adiantou, bloqueando o caminho.
— Não tão rápido, Jason. Eu terei que informar o diretor.
Meu coração acelerou. A última coisa que eu precisava era confusão.
— Kathy, por favor, não. Foi só um beijinho sem importância. Ele só está aqui porque... porque eu não conseguia andar — menti rápido, tentando parecer convincente.
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
— É mesmo? E por que não conseguia andar, Nicolle?
— E-eu... eu não conseguia porque... — gaguejei, sem conseguir pensar em algo.
Jason, ágil, entrou na frente.
Porque ela teve uma cãibra. Você deve saber como é. Com certeza já teve uma dessas, né? — disse, olhando para ela de cima a baixo, com aquele tom provocador que só piorava as coisas.
— Suas piadinhas ainda vão te custar muito caro, Jason — retrucou Katherine, visivelmente irritada.
Eu tentei me apressar.
— Kathy, por favor, não fala nada com o diretor. Ele só estava me ajudando e...
Mas minhas palavras morreram na garganta quando vi Alexandra e Daren surgirem no corredor. Estavam de mãos dadas. Jason prendeu um palavrão e eu senti o ar pesar. Katherine também percebeu. Virou-se para eles, incrédula.
— Até você, Alex? Eu realmente pensei que fosse a boa menina. Mas, pelos vistos, é igualzinha à Nicolle.
A ofensa me fez arder de raiva.
— Não precisa me ofender — retruquei firme.
Daren se apressou em intervir.
— Não castigue a Alex, Kathy. Eu que insisti em acompanhá-la. Não queria que as Cats a encontrassem sozinha pelos corredores e a fizessem chorar, como sempre fazem.
Katherine ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— O que você está dizendo é muito grave, Daren.
— Mas é verdade — confirmei, aproveitando o momento. — Elas fazem bullying com a Alex o tempo todo. Só não vê quem não quer.
A inspetora virou-se para Alexandra, a expressão séria.
— Isso é verdade, Alexandra?
Alex abaixou o olhar, desconfortável.
— Eu... eu não quero meter ninguém em problemas. Será que eu posso só entrar no meu quarto, por favor? — pediu, quase suplicando.
Katherine suspirou fundo, claramente dividida. Mas no fim, decidiu aliviar a barra para todos nós. A única razão era Alex, ela tinha um carinho especial por ela. Ainda assim, levou Jason e Daren para a ala masculina, só para garantir que nenhum deles voltaria para bancar o herói.
Assim que a porta fechou atrás dela, soltei um longo suspiro de alívio e deslizei até o chão, encostada na madeira.
— Essa foi por pouco — murmurei, exausta.
Alexandra ainda estava nervosa, mas logo disse, já mexendo no celular:
Verdade. Melhor avisar a Charlotte que a Kathy está rondando o colégio inteiro.
Enquanto ela mandava a mensagem, eu fui direto para o banheiro. Precisava relaxar. Um banho quente caiu sobre meus ombros, levando junto o peso da tensão daquele encontro. Depois, escovei os dentes, desembaracei o cabelo e vesti meu pijama favorito. Quando finalmente me deitei, o corpo inteiro parecia agradecer. Mal encostei a cabeça no travesseiro e já estava mergulhando no sono, pesada e profunda.

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