Charlotte
As coisas estavam muito estranhas ultimamente. A Alex parecia viver em um mundo só dela, distante, silenciosa, como se carregasse um peso que não podia dividir com ninguém. Eu entendo que ela nunca gostou de preocupar os outros, sempre foi reservada, mas ainda assim... somos suas melhores amigas. Ela não precisava esconder de nós o que estava acontecendo, nem muito menos o fato de agora ter um novo "irmão", o tal Scott.
Talvez ela tenha achado que seria mais fácil lidar com tudo sozinha. Ainda bem que ela tem o Daren, ele realmente se importa com ela e está sempre ao lado dela, apoiando-a em tudo.
Hoje é dia 26 de dezembro. A operação dela está marcada para o dia 2 de janeiro, e as aulas voltam no dia 15, mas ela só poderá retornar depois de estar completamente recuperada.
Desci as escadas ainda sonolenta, sentindo o cheiro de café recém-passado se espalhar pela casa. A mesa estava farta, tinha pães, frutas, suco, ovos, tudo arrumado com aquele capricho que a empregada sempre fazia. Enquanto me servia, reparei que a porta do escritório do meu pai estava entreaberta. A luz amarelada escapava por uma fresta, e o som suave do folhear de páginas me fez hesitar por um segundo.
Bati de leve.
— Toc, toc, toc.
— Pode entrar — ouvi a voz dele, grave, sem tirar os olhos do jornal.
Empurrei a porta e entrei.
— Pai... — chamei baixinho. — Queria que você tomasse café da manhã comigo.
Ele abaixou o jornal por um instante, me olhando por cima dos óculos.
— Estou ocupado, Charlotte — respondeu seco, voltando ao jornal como se eu fosse apenas mais uma interrupção.
Senti o peito apertar.
— O problema é que você está sempre ocupado, pai. Nunca tem tempo pra mim — falei, a voz começando a tremer. Uma lágrima escapou sem que eu conseguisse conter. — Você não me ama, não é? É porque eu tirei a vida da mamãe... toda vez que você olha pra mim, lembra dela, não é isso?
Ele me encarou, surpreso com as palavras. Por um momento, o silêncio pesou entre nós.
— Não é isso, Charlotte — disse, mais baixo. — É só que... eu tenho muito trabalho.
Houve uma pausa, longa, desconfortável. Então ele suspirou, dobrou o jornal e o deixou de lado.
— Mas o trabalho pode esperar. — Ele sorriu de leve.
Aquele pequeno gesto me aqueceu o coração. Sentamos à mesa, e tomamos café juntos. O ambiente, que antes parecia tão frio, de repente ficou leve. Meu pai fez algumas piadas sem graça, daquelas que só ele acha divertidas e, mesmo assim, eu ri. Ri porque era bom vê-lo tentar. Ri porque há tempos eu não o via tão próximo.
Enquanto o observava, pensei em como ele parecia solitário. Desde o dia em que nasci, quando mamãe partiu, meu pai nunca mais se permitiu amar ninguém. Nenhum jantar, nenhum gesto, nenhuma tentativa de recomeço
— Pai? — chamei, mexendo distraída na caneca.
— Hum?
— Eu acho que você devia namorar. — Falei de uma vez, sem olhar pra ele.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Charlotte, eu não tenho tempo pra isso.
— Ah, mas eu ia adorar ter uma figura feminina aqui em casa — insisti, rindo. — Alguém pra conversar comigo, me dar conselhos...
Senti minhas bochechas esquentarem.
— Alguém pra te dobrar de vez em quando, sabe? Assim eu poderia fazer coisas de adolescente sem tanta vigilância.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Eu posso fazer tudo isso, sabia? — respondeu, fingindo indignação.
— Não é o mesmo, pai! — protestei. — Eu quero alguém que guarde meus segredos... e que te convença a me deixar sair mais.
Ele me olhou por um momento e depois soltou um pequeno sorriso.
— Eu vou pensar no caso. — Disse, rindo.
E naquele instante, por um breve momento, eu senti que talvez as coisas pudessem realmente mudar entre nós. Continuei conversando com meu pai por mais algum tempo. O clima estava leve, algo que há muito tempo não acontecia entre nós. Falamos sobre coisas simples como o trabalho dele, a escola, os planos para o Ano Novo. Quando terminamos o café, ele levantou-se, ajeitou o paletó e disse com um sorriso discreto:
— Foi bom conversar com você, Charlotte.
— Foi, sim, pai — respondi, ainda sorrindo.
Ele voltou para o escritório, e eu subi para o meu quarto. Assim que me joguei na cama, senti uma pontada de saudade apertar o peito. Peguei o celular e, sem pensar muito, decidi ligar para o Michael. Precisava ouvir a voz dele.
[Vídeo chamada: ON]
— Oi, Char — ele disse com aquele sorriso que sempre me desarmava.
— Oi, amor. Como você está? — perguntei, tentando parecer animada.
— Estou bem. E você?
— Também... — respondi, mexendo no cabelo. — Cadê você?
— Estou indo ver a Alex.
O meu sorriso vacilou um pouco.
Eu sempre gostei de ver a amizade deles, de verdade. Só que, às vezes, não conseguia evitar um certo ciúme. Eles se entendiam tão bem... Alex sempre teve um jeito que fazia todos se sentirem à vontade perto dela, inclusive o meu namorado.
— Ah, tá... Depois passa aqui? — tentei disfarçar o tom de desapontamento.
— Não posso. Vou ficar o dia todo lá. O Daren falou que tem o Scott e pediu pra eu ir, já que ele não podia.
Senti um nó se formar na garganta, mas apenas forcei um sorriso.
— Ah, tá. Tchau então. — Acenei com a mão e finalizei a chamada.
[Vídeo chamada: OFF]
Olhei para o relógio: 11h da manhã. O dia estava apenas começando, mas eu já não sabia o que fazer. Nick e Angel tinham viajado com os pais, Alex estava doente e Michael... bem, estava com ela.
Suspirei fundo.
— Acho que vou às compras — murmurei para mim mesma, tentando espantar a sensação de solidão.
Troquei de roupa, coloquei um short jeans, uma blusa leve e amarrei o cabelo num rabo de cavalo. Desci as escadas e parei na porta do escritório do meu pai.
— Pai, vou às compras — avisei.
Ele apenas levantou os olhos do computador e me estendeu o cartão de crédito.
— Obrigada! — sorri, pegando o cartão antes que ele mudasse de ideia.
Pouco depois, o motorista me deixou no shopping. Assim que entrei, o ar fresco do ar-condicionado me envolveu, junto com o som de música ambiente e o burburinho das pessoas. Caminhar entre as vitrines sempre teve um efeito quase terapêutico em mim. Fui primeiro a uma loja de sapatos e saí de lá com três pares de tênis novos e três saltos altos maravilhosos. Depois, passei por seis lojas de roupas e comprei um monte de conjuntinhos fofos, vestidos leves e algumas jaquetas que eu nem sabia se precisava. Já com as mãos cheias de sacolas, parei em frente a uma loja de brinquedos. Na vitrine, um enorme urso de pelúcia me chamou a atenção. Ele era macio, bege, com um laço vermelho no pescoço , exatamente o tipo de coisa que a Alex adoraria.
Sorri.
— Vai ser o presente perfeito pra ela — pensei, entrando na loja.
Comprei o ursinho e saí de lá me sentindo um pouco mais leve. Como já estava faminta, decidi passar no Subway. Pedi um sanduíche vegetariano com bastante molho e uma coca bem gelada. Comi devagar, observando as pessoas passarem apressadas do outro lado do vidro.
Quando terminei, voltei pra casa.
Assim que cheguei, larguei as sacolas no closet e comecei a organizar tudo, separar o que era novo, dobrar roupas, arrumar cabides. Levei duas horas inteiras até deixar tudo impecável.
— Feito! — exclamei, jogando o corpo na cama.
Olhei em volta, satisfeita. O quarto cheirava a novo, e o urso que comprei pra Alex estava sentado sobre a poltrona, como se me observasse.
— Agora, banho. — murmurei, levantando-me.
Entrei no banheiro, deixei a água quente cair sobre o corpo e fechei os olhos, sentindo o cansaço escorrer pelo ralo. Depois do banho, vesti meu pijama preferido, aquele de algodão macio com estampa de estrelas e me joguei na cama. Em poucos minutos, o sono me envolveu por completo. E, antes de adormecer, o último pensamento que me veio à mente foi o sorriso de Michael e a vontade de que ele estivesse ali comigo.
[...]
27 de dezembro.
O Réveillon estava chegando e, sinceramente, eu ainda não fazia ideia do que vestir. O closet estava cheio de roupas novas, mas nenhuma parecia certa. Talvez porque o problema não fosse a roupa e sim a cabeça cheia. Desde que a Alex ficou doente, tudo mudou. Nossas conversas diminuíram, nossos encontros se tornaram raros, e agora, finalmente, iríamos nos reunir mesmo que fosse apenas por vídeo chamada.
Peguei o celular, ajeitei o cabelo e entrei na chamada.
[Vídeo chamada: ON]
— Oie! — disse Alex, acenando com um sorriso cansado.
— Oiii! — respondeu Angel, animada como sempre.
— Oiii. — Nick apareceu logo em seguida. Eu apenas acenei, sorrindo.
— E então, Char? Como estão as coisas? — perguntou Angel.
— Normais... — respondi, dando de ombros. — Ontem tomei café da manhã com meu pai e depois fui às compras. Foi bom, na verdade. Não tenho do que reclamar. E você, Nick? Como está a viagem?
Nick sorriu largo.
— Estou adorando cada segundo! Mas confesso que estou morrendo de saudades de vocês... e do Jason também.
Angel riu.
— Nick, você viajou há poucos dias!
— Eu sei, mas sou sentimental, ué! — disse ela, fazendo um biquinho teatral. — Agora, mudando de assunto... Alex, o que você tem a dizer sobre o Scott?
Alex arqueou as sobrancelhas.
— Quem? O Scott? O que tem ele?
Revirei os olhos.
— Ah, Alexandra, não se faz de sonsa. O que está rolando entre vocês dois?
— Nada! Somos só amigos — respondeu rápido demais.
Angel riu, debochada.
— Um amigo que adora cuidar de você, e vai até trocar de colégio só pra ficar perto? Sei...
— Meninas, por favor — disse Nick, entre risadas. — Todo mundo sabe que a Alex gosta do Daren. Mas que o Scott tá afim dela, tá!
— Ai, gente, para com isso — Alex resmungou, emburrando. — O pai dele vai casar com a minha mãe, tá bom? Então é impossível.
De repente, uma voz masculina soou ao fundo:
— Trouxe comida pra irmãzinha mais gata do mundo!
Era o Michael.
Meu coração gelou.
— Alex? — perguntei, tentando disfarçar a surpresa. — O Michael está aí?
Ela ficou corada.
— Sim. Ele veio me ver... de novo — disse, sorrindo.
Senti uma pontada de incômodo. Ok, ela estava doente, eu entendo. Mas meu namorado precisava mesmo visitá-la todos os dias?
Alex, talvez percebendo o clima, tentou mudar de assunto.
— Angel, e a sua viagem? Como está indo?
Angel fez uma careta.
— Quero voltar logo! — disse, com voz manhosa. — Meus pais ficam nos amassos o tempo todo. Dá até saudade do Ethan...
De fundo, deu pra ouvir Alex reclamando:
— Ai, sai daqui, seu idiota! — claramente falando com o Michael.
E logo depois:
— Tá, sua sem sal! — gritou ele, rindo.
A porta bateu.
Ficou um silêncio constrangido na chamada.
Eu respirei fundo e soltei, num tom irônico:
— Parece que você ganhou dois irmãos, pra quem não tinha nenhum.
Angel arregalou os olhos.
— Charlotte! — me repreendeu. — Você não pode falar assim da Alex, ela está...
— Não precisa, Angel — Alex a interrompeu, a voz baixa. — Eu... eu tenho que ir. Tchau.
A tela dela sumiu.
Nick me olhou indignada.
— O que você estava pensando, Charlotte?
— Ué, o quê? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Você foi fria com ela — disse Angel, séria.
— Foi mal... — murmurei.
Nick balançou a cabeça, decepcionada.
— Foi péssimo. Você não tinha o direito de falar daquele jeito. A Alex é sua amiga. E, pra lembrar, ela conheceu o Michael muito antes de você. — Ela fez uma pausa. — Eu vou ligar pra ela. Aposto que está se sentindo culpada agora.
E antes que eu respondesse, Nick saiu da chamada.
— Eu também vou — disse Angel. — Falamos depois.
[Vídeo chamada: OFF]
Suspirei. Fiquei olhando para a tela escura por alguns segundos, sentindo um misto de raiva e arrependimento. Dei de ombros, tentando me convencer de que elas estavam exagerando.
Desci para jantar com meu pai, mas o silêncio à mesa me deixou ainda mais inquieta. Assim que terminei, voltei pro quarto. Peguei um livro na estante e tentei me distrair com a leitura. As palavras, no entanto, não faziam sentido.
A última frase que consegui ler antes de adormecer ecoou na minha cabeça:
"Às vezes, o que mais dói não é o que os outros fazem, mas o que deixamos de dizer."
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
