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Alexandra

Já fazia algumas semanas desde o dia em que os meninos tinham viajado para os Nacionais. As últimas duas tinham sido uma mistura de correria e silêncio, provas, estudos, mensagens rápidas e aquela saudade que batia do nada.
Os Nacionais aconteceram bem no meio da época das provas, então só o time e as líderes de torcida puderam ir. O resto de nós teve que ficar pra trás, torcendo à distância.
Antes da viagem, todo mundo fez as provas antecipadamente. Eu e o Daren passamos tardes inteiras estudando juntos, ele estava tão determinado, tão focado... eu tinha certeza de que ia se sair bem. Mas as coisas não saíram como o esperado. Os meninos foram eliminados no terceiro jogo. Foi o Michael quem me ligou pra contar, e dava pra ouvir na voz dele o quanto estava arrasado. Eu tentei confortá-lo, mas no fundo meu coração doía também. Sabia o quanto o Daren tinha se esforçado pra chegar até ali.
Eles voltavam hoje. Tinham sido eliminados na quinta-feira, mas o treinador decidiu deixá-los mais uns dias no hotel pra descansar a cabeça.
Eu, a Nick e a Char fomos até o estacionamento da escola pra recebê-los. O clima estava pesado, todos pareciam exaustos, arrastando malas e tentando esconder a frustração.
Nicolle foi direto abraçar o Jason, já avisando que ia demorar pra chegar no quarto. Charlotte se aproximou do Michael, que a recebeu com um sorriso triste. E eu... fui até o Daren.
Ele estava de costas, tirando as coisas do ônibus, a roupa amassada, o olhar distante.
— Daren... — chamei baixinho, dando um passo à frente. Eu só queria abraçá-lo, mostrar que estava ali pra ele. Mas ele desviou o olhar e continuou mexendo nas malas, como se nem tivesse me ouvido.
— Você precisa de ajuda? — perguntei com um sorriso tímido, tentando quebrar o gelo.
Nada. Nenhuma resposta.
— Daren? — tentei de novo. — Eu tô muito orgulhosa de você, de verdade. Sei o quanto você se esforçou pra chegar até aqui. Você foi o melhor capitão que o time já teve e
— Alexandra, me deixa em paz. — ele disse, frio, sem olhar pra mim. — Eu não tô no clima.
Engoli em seco, sem saber o que fazer. — Eu sei que você tá chateado com tudo, mas eu só quero animar você...
— Alexandra — ele interrompeu, o tom mais pesado —eu já falei pra você não me irritar. A gente conversa depois.
— Mas eu só...
— EU JÁ FALEI PRA VOCÊ QUE NÃO QUERO SER IRRITADO! — ele explodiu, a voz ecoando pelo estacionamento. — VOCÊ NÃO ESCUTA! VOCÊ NUNCA ESCUTA! VOCÊ NÃO PASSA DE UMA GAROTA MIMADA! VOCÊ NÃO SABE O QUE QUER, ALEXANDRA!
Fiquei parada, completamente imóvel, o coração acelerando.
— EU SIMPLESMENTE TÔ CANSADO DE TER QUE TE ATURAR! TÔ CANSADO... DE VOCÊ. TÁ TUDO ACABADO!
As pessoas começaram a parar e olhar. Ele não se importou. Não tentou disfarçar.
Senti as lágrimas escorrerem sem controle, e antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, ele continuou:
— E TEM MAIS! — gritou Daren, o olhar duro, o rosto vermelho de raiva. — VOCÊ PODIA APRENDER A SER MAIS MULHER... COMO A SOPHIE!
Por um segundo, o mundo parou. Senti o chão sumir debaixo dos meus pés.
Mas ele não parou ali.
— Ela sim sabe o que quer, Alexandra. — ele continuou, a voz cortante, como se cada palavra fosse uma lâmina. — Ela é madura, segura... não vive nesse mundinho cor-de-rosa achando que tudo é perfeito!
Senti as pessoas ao redor começando a se virar, cochichando. Alguns olhares se cruzaram com o meu, cheios de pena.
— Você vive sonhando, Alex! — ele gritou, gesticulando, completamente fora de si. — Quer que o mundo gire do seu jeito, acha que todo mundo vai te proteger pra sempre, mas a vida não é assim!
Tentei falar algo, mas a voz não saía. Ele me olhou com um desprezo que eu nunca tinha visto antes.
— Sabe o que mais me cansa? — ele disse, mais baixo, mas ainda com veneno na voz. — Ter que fingir o tempo todo que você é frágil demais pra ouvir verdades. Que tudo tem que ser dito com cuidado, porque a "pobrezinha da Alex" pode se magoar.
Cada palavra dele parecia bater direto no meu peito.
— Eu tô farto disso, Alexandra. Farto de andar em volta de você como se pisasse em vidro. Farto de ter que fingir que tudo tá bem, quando não tá.
O silêncio que se formou ao redor foi quase insuportável. Eu conseguia ouvir meu próprio coração batendo, descompassado.
— Você é infantil, carente, e nem percebe o quanto se torna pesada às vezes. — ele disse por fim, cruzando os braços. — E sinceramente... eu mereço alguém melhor.
Foi nesse momento que senti algo dentro de mim quebrar. As lágrimas já escorriam sem controle. Eu não conseguia respirar direito, não conseguia entender como a pessoa que eu mais amava podia dizer tudo aquilo e na frente de todo mundo. As pessoas começaram a cochichar, algumas tentando disfarçar o constrangimento, outras apenas observando, curiosas.
Corri até o dormitório, empurrei a porta e a desabei na cama, chorando como uma criança. Tudo o que eu queria era acordar e descobrir que nada daquilo tinha sido real
Depois de um tempo, ouvi batidas suaves.
Alex... — era a voz da Nick. — Abre, por favor.
Demorei um pouco, mas abri. As duas, Nick e Char entraram devagar.
Nicolle se sentou ao meu lado e me abraçou com força. — Eu não entendo o porquê dele ter feito aquilo... ele parecia tão apaixonado por você.
Charlotte se aproximou, com os olhos marejados. — Nem eu, Alex. Você é uma das pessoas mais doces que eu conheço. Ele não merecia você.
Fiquei quieta, só ouvindo. As palavras delas me envolviam como um cobertor, mas o peito ainda doía demais.
— Obrigada, meninas... mas eu preciso ficar sozinha, tá? — pedi baixinho.
Elas hesitaram, mas assentiram e saíram.
Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou. Chorei de novo, até o corpo cansar, até o coração doer menos e, sem perceber, acabei adormecendo ali mesmo, abraçada ao travesseiro.

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