Alexandra
O quarto estava mergulhado em um silêncio confortável, quebrado apenas pelas nossas vozes e pelo leve zumbido do aquecedor. A luz suave do abajur sobre o criado-mudo tingia o ambiente com um tom amarelado e acolhedor, contrastando com o céu escuro e silencioso lá fora, onde a lua mal conseguia atravessar as nuvens. Sentadas em nossas camas, com os pés enfiados sob os cobertores, começamos a conversar sobre nossas vidas antes de chegarmos à Cheshire Academy. Havia uma mistura de curiosidade e nervosismo pairando no ar, como se estivéssemos prestes a nos abrir de uma forma que raramente fazíamos.
Charlotte foi a primeira a quebrar o silêncio, sua voz hesitante e quase tímida:
- Bem... - começou, mordendo levemente o lábio inferior, e percebi que suas bochechas já estavam levemente coradas. - Antes de vir para este colégio, eu morava com meu pai. Ele decidiu me mandar pra cá... só isso.
Havia um peso implícito nas palavras dela, algo que ia além da simples mudança de escola. Curiosa, inclinei a cabeça:
- E a sua mãe?
Charlotte respirou fundo, seus olhos se distanciando como se olhassem para um passado doloroso.
- Minha mãe morreu no dia do meu parto... - disse, com a voz baixa e carregada de tristeza. - Desde então, meu pai se dedica ao trabalho dia e noite. Às vezes sinto que ele me culpa pela morte dela... porque ela deu a vida por mim.
Um silêncio pesado se instalou. A respiração dela parecia acompanhar cada palavra, e sua dor era quase tangível.
- Eu nunca conheci ninguém da minha família... - continuou, com um tom quase sussurrado. - Meu pai e eu sempre nos mudamos de casa... eu nunca fazia amizades porque sabia que teria que me despedir logo depois. Acho que ele cansou de ter alguém que lembrasse a esposa falecida. Então... aqui estou eu.
Forçou um sorriso, mas era um sorriso vazio, que não chegava aos olhos. Meu coração se apertou.
- Me desculpa, Char... eu... eu não sabia - murmurei, sentindo uma pontada de culpa por tocar em algo tão profundo.
Ela apenas sorriu de leve, mas o olhar dizia mais do que qualquer palavra.
- E você, Alex? - perguntou Nicolle, tentando suavizar a tensão.
Respirei fundo, apoiando-me nos braços, como se precisasse me preparar para abrir meu coração.
- Bem... eu vim porque minha mãe achou que seria uma boa ideia. - Minha voz baixou, quase se quebrando. - Nunca conheci meu pai... ele morreu dois meses depois de eu sair da UTI.
Senti meus olhos se encherem de um brilho úmido, prestes a transbordar.
- Esse assunto sempre mexe comigo... é como se fosse errado falar dele.
Fiz uma pausa, respirando fundo antes de continuar:
- Minha mãe nunca teve tempo pra mim. Sempre ocupada com o trabalho... sempre. Acho que ela também achou que aqui eu poderia fazer amigos... talvez até mais do que ela queria estar comigo.
O ar parecia mais denso, pesado com a melancolia silenciosa que nos envolvia. Então Nicolle respirou fundo e disse:
- Minha vez - tentando reunir suas palavras. - Meus pais me mandaram pra cá só... porque sim. Não tenho um motivo forte como o de vocês, mas... gostei da escolha deles. Acho que precisava de um novo começo.
O silêncio foi interrompido por um som inesperado: toc, toc. Batidas firmes na porta. Troquei olhares com Charlotte e Nicolle, confusas. Ninguém estava esperando visita.
- Pode entrar - dissemos quase ao mesmo tempo, em uníssono.
A porta se abriu, revelando uma mulher de postura firme e olhar atento. Devia ter uns 39 anos, vestia um tailleur impecável e segurava uma prancheta e três pacotes dobrados com cuidado.
- Boa noite, meninas. Espero que tenham gostado do quarto. - Sua voz era calma, quase maternal, mas profissional. - Sou Katherine, a inspetora da ala feminina. Vim entregar o uniforme de vocês.
Ela colocou cada pacote em sua respectiva cama e acrescentou, com um leve sorriso:
- O horário já está disponível no site do colégio. Ah, e o jantar já está servido. É só irem ao refeitório se estiverem com fome.
Com um aceno educado, Katherine saiu, fechando a porta com cuidado, deixando-nos novamente no silêncio acolhedor do quarto.
Olhei para Charlotte e Nicolle. Nenhuma de nós parecia com fome, então pegamos nossos celulares para conferir os horários e disciplinas. Enquanto a tela carregava, meu peito se encheu de uma mistura de ansiedade e curiosidade pelo nosso primeiro dia como alunas da Cheshire Academy.
- Em plena terça-feira, tenho Matemática, Química, Biologia e Computação Gráfica... e vocês? - perguntou Nicolle, revirando os olhos de forma teatral.
- Mesma coisa - respondeu Charlotte, com um sorrisinho cúmplice.
- Igual - confirmei, apoiando o queixo na mão e lançando a elas um olhar que dizia "vamos sobreviver juntas".
Trocamos um sorriso silencioso, aquele tipo de sorriso que não precisa de palavras para transmitir conforto e compreensão. Decidimos dormir cedo; o dia seguinte prometia ser longo, e ninguém queria acordar com cara de zumbi. Fui a primeira ao banheiro. A luz lá dentro era suave, refletindo meu rosto cansado no espelho. Escovei os dentes devagar, sentindo o frescor da menta, e prendi o cabelo em um coque frouxo antes de vestir meu pijama, simples mas aconchegante. Quando voltei, o quarto estava mergulhado na penumbra, restando apenas a luz do abajur. Charlotte mexia no celular, deitada de lado, e Nicolle parecia já meio adormecida, os olhos piscando lentamente. Sentei-me na cama, puxando o cobertor até a cintura, e por um momento fiquei apenas observando o quarto silencioso. Podia ouvir passos distantes no corredor e murmúrios baixos vindos de outros quartos. Apoiei o queixo nas mãos e deixei meus pensamentos correrem soltos. Amigas. A palavra parecia estranha, quase nova para mim.
Respirei fundo, sentindo o peso do dia nos ombros. Apesar da ansiedade, havia algo de reconfortante em estar ali, rodeada delas, sem precisar fingir nada. Amigas. A palavra soava estranha na minha boca, quase nova, mas de alguma forma doce. Eu queria acreditar que aquela noite seria o começo de algo verdadeiro.
Charlotte deu um último suspiro e largou o celular ao lado, virando-se de costas para mim. Nicolle, enrolada no cobertor, murmurou algo indecifrável antes de fechar os olhos. Eu olhei para ambas, o coração apertado por uma mistura de carinho e alívio. Descansei a cabeça no travesseiro, sentindo o calor do cobertor envolver meu corpo. Fechei os olhos lentamente, deixando a respiração encontrar um ritmo tranquilo. Ouvi o zumbido distante do aquecedor, os passos ocasionais no corredor, o leve ranger da madeira da cama de Charlotte, e senti um conforto silencioso me envolver. Por fim, deixei meus pensamentos se acalmarem. Amanhã seria um dia novo, cheio de descobertas, desafios e, quem sabe, novas histórias para contar. Mas, por enquanto, tudo que eu queria era aquele instante de paz. Fechei os olhos de vez, sentindo o cansaço se dissolver lentamente, e deixei o sono me levar.
O quarto ficou em silêncio, apenas o sussurro do vento lá fora lembrando-nos que estávamos juntas, e que, de algum jeito, iríamos sobreviver a tudo que vinha pela frente.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
