Alexandra
O dia tinha se arrastado mais do que eu gostaria. Cada minuto de aula parecia durar uma eternidade, e mesmo quando o sinal finalmente anunciou o fim, não senti aquele alívio que normalmente me animava. Pelo contrário, uma estranha sensação de vazio me acompanhava. Enquanto os corredores se enchiam de risadas, passos apressados e planos entre amigos, eu apenas observava em silêncio, como se estivesse deslocada de todo aquele movimento.
Depois da última aula, eu estava me sentindo estranhamente deslocada. Nicolle tinha ido "estudar" com Jason e todo mundo sabia que "estudar" não era exatamente o que eles fariam juntos, enquanto Charlotte simplesmente me deu um perdido sem muitas explicações. Fiquei com aquela sensação de ser a única sem rumo, como se de repente não tivesse onde me encaixar. Para não me deixar afundar no tédio, decidi caminhar pelo jardim, mas acabei seguindo meu costume de sempre e fui parar nas arquibancadas. Era meu canto de refúgio, onde eu podia observar tudo sem precisar participar de nada. Me sentei em um dos bancos frios e fiquei assistindo os meninos treinarem. O barulho do apito, as batidas pesadas dos ombros, as quedas no gramado e os gritos de incentivo criavam uma energia caótica que não tinha nada a ver comigo. Ainda assim, era hipnotizante. Os corpos musculosos se chocando com força, como se cada jogada fosse uma batalha. Eu sabia que nunca teria coragem de entrar em campo, bastava imaginar levar uma daquelas pancadas e já sentia minhas costelas se partirem em mil pedaços.
Foi nesse momento que senti um toque leve no meu ombro. Levei um susto tão grande que quase pulei do banco.
— Oi. — a voz de Daren soou atrás de mim.
Levei a mão ao coração, tentando acalmar a batida acelerada.
— Que susto, Daren!
Ele ergueu as sobrancelhas, quase se divertindo com minha reação.
— Foi mal... O que faz aqui sozinha?
Suspirei, olhando para o campo e depois para ele.
— Minhas amigas resolveram sumir. Me deixaram no vácuo hoje.
Ele se sentou ao meu lado com aquela postura relaxada que me irritava e atraía ao mesmo tempo.
— Vou sair do colégio. Quer vir comigo? — perguntou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Virei o rosto de imediato, surpresa.
— Como assim sair? Por quê?
— Porque estou com vontade. — respondeu, simplório, quase desafiador. — Você vem ou não?
Balancei a cabeça negativamente, meio assustada com a proposta. Eu não tinha coragem de quebrar as regras daquele jeito.
— Você que sabe. — disse, levantando-se com indiferença. — A gente se fala.
E saiu andando, sem olhar para trás.
Fiquei sozinha de novo, observando o treino. Por alguns minutos ainda tentei me entreter, mas logo senti o cansaço. A rotina se repetia: eu sempre esperando pelos outros. Suspirei fundo, resmungando baixinho para mim mesma:
— Você não pode ficar aqui parada, Alexandra. A sua vida não gira em torno da Nicolle, da Charlotte, da Angel, do Michael ou do Daren. Faz alguma coisa por você, vai.
Decidi então voltar para o quarto. Estava vazio. Me deitei na cama e fiquei encarando o teto, sentindo aquele vazio estranho, como se nada tivesse graça. Mas logo me levantei, cansada da inércia. Entrei no closet, vesti um maiô azul-claro, coloquei um short jeans por cima, uma blusa comprida e caminhei até a piscina interna, torcendo para não encontrar os garotos da natação. Ao empurrar a porta de vidro, senti um alívio enorme: o ambiente estava silencioso, só o cheiro forte de cloro no ar. Ninguém à vista. Tirei as roupas por cima e mergulhei. A água me envolveu completamente, fria e revigorante, lavando um pouco da frustração que eu carregava. Fiquei nadando de um lado a outro, tentando ocupar minha mente, até que o cansaço me venceu. Saí, me enrolei na toalha e voltei para o quarto, mas a sensação de vazio continuava.
— Minha vida é um tédio sem eles. — murmurei para mim mesma. — Eu não sei me divertir sozinha...
O dia passou devagar para mim , depois do mergulho não fiz nada demais e quando me apercebi, já era quase meia-noite e nem Nicolle nem Charlotte tinham voltado. A preocupação começou a crescer dentro de mim. Peguei o celular para checar as horas e, nesse instante, a tela acendeu com uma nova mensagem.
Mensagem de Nicolle:
Alex, vem aqui nas arquibancadas. Precisamos de você agora.
O coração disparou. Algo estava errado. Coloquei apenas um par de chinelos por cima do pijama e saí correndo pelos corredores escuros e silenciosos. Cada passo ecoava, aumentando a tensão. Chegando às arquibancadas, olhei em volta, mas não vi ninguém.
— Nicolle? — sussurrei, temendo atrair a atenção dos seguranças. — Nicolle, você tá aqui?
— Estou aqui. — a voz dela veio abafada, debaixo dos bancos.
Me abaixei e desci até ela.
— O que você está fazendo aí embaixo? — perguntei, confusa. E então vi. Jason, Daren, Angel, Charlotte e até Michael estavam juntos, jogados de qualquer jeito. — Espera... Vocês estavam todos juntos esse tempo todo e nem me chamaram? — minha voz saiu carregada de mágoa.
Daren, com o olhar perdido, tentou falar:
— Eu... convidei você... mas você não quis. — disse embolando as palavras. — Eu... encontrei eles... no bar... que costumo ir...
O choque me paralisou por alguns segundos.
— Como assim bar? O que aconteceu? Vocês beberam?
Michael tropeçou nas próprias palavras, rindo sem controle.
— Pior... a gente fumou também... Tá todo mundo b-b-bebâdo e d-d-drogadão...
Meus olhos se arregalaram. O cheiro de álcool e fumaça impregnava o ar. O estômago se revirou.
— Gente, vocês têm noção do que estão fazendo?! Isso é...
— Sermão depois, Alex. — Nicolle me interrompeu, a voz aflita. — Me ajuda a levar eles pro seu quarto, rápido.
— Mas... por que você não está igual a eles? — perguntei, ainda tentando entender.
Ela suspirou.
— Porque eu não exagerei. Provei pouca coisa. As meninas e os meninos passaram dos limites. Agora não é hora de brigar, precisamos esconder isso antes que algum segurança apareça.
Olhei para os meninos cambaleando, Charlotte rindo sem parar e Angel deitada com os olhos semicerrados. Era um desastre completo.
— Nicolle, eles nem conseguem ficar em pé! Como vamos levar todo mundo até o quarto?
— Um de cada vez. Mas rápido, Alex! Se algum funcionário ver isso, estamos ferradas.
Cruzei os braços por um instante, sentindo a raiva ferver.
— Vocês não pensaram nisso antes de fazer a besteira, né? Agora sobra pra mim!
— Eu sei, tá bom? Eu sei! — Nicolle rebateu, desesperada. — Eu já pedi desculpa, mas agora me ajuda.
Ela tentou erguer Jason pelos ombros, mas ele quase caiu de volta, rindo sem noção. Suspirei fundo, sem saída, e me abaixei para ajudar, sentindo o peso do corpo dele quase me derrubar.
— Vamos rápido, antes que alguém apareça. — murmurei, sentindo o coração martelar.
E assim começou a luta para carregar, um a um, meus amigos bêbados e drogados pelos corredores escuros do colégio, torcendo para que ninguém nos pegasse no flagra.
A noite parecia não ter fim. O corpo de Daren pesava sobre nós, como se ele fosse feito de chumbo, e cada passo dentro da biblioteca soava como um crime prestes a ser descoberto. Nicolle tinha ido à frente, verificando se os guardas estavam fazendo a ronda, enquanto eu tentava manter Daren minimamente em pé.
— Você é muito linda... — murmurou ele, arrastando as palavras, os olhos semicerrados me encarando como se estivesse vendo a primeira vez uma estrela.
— Shhh! — pressionei meu dedo contra os lábios dele, o coração disparando. — Fica quieto, se não vão pegar a gente.
Ele riu baixinho, um som arrastado, mas insistiu:
— Não me importa. Você é muito bonita, véi... A loira mais bonita que já vi no mundo.
Ouvi passos ecoando no corredor. O desespero me atingiu de repente. Coloquei a mão na boca dele com força, sentindo o calor da respiração quente contra minha pele. Fechei os olhos com força, torcendo para não ser nenhum guarda.
— Alex! — a voz baixa de Nicolle me fez abrir os olhos. — Caminho livre, vamos?
Assenti rápido, suspirando de alívio. Juntas, arrastamos Daren para fora dali, tentando ignorar os tropeços dele e o cheiro de bebida impregnado nas roupas. O caminho até o quarto dos meninos parecia interminável, mas finalmente Nicolle abriu a porta e eu o coloquei sobre a cama vazia. Antes que pudesse recuar, ele me puxou, me arrastando consigo.
— Você é a nerd mais bonita, Alexandra... — as palavras saíam arrastadas, emboladas, e eu já nem sabia se era efeito da bebida ou das drogas.
— Tá, obrigada. Agora me solta. — tentei me desvencilhar, mas ele me apertava forte.
— Dorme aqui... por favor. — havia uma súplica infantil na voz dele.
— Não. Eu tenho que ir pro meu quarto. Daren, me solta.
Ele suspirou pesado, os olhos quase fechando.
— Tá... mas só se você prometer que da próxima vez... vem com a gente.
— Prometo. Agora me larga.
Ele finalmente afrouxou os braços. Aproveitei a brecha e me levantei rápido, saindo atrás de Nicolle.
De volta ao nosso quarto, Charlotte já estava desmaiada de tanto sono. Me sentei na cama, observando Nicolle andar de um lado para o outro, tomando banho, trocando de roupa, escovando o cabelo. Cada movimento dela parecia normal, mas em mim pesava o silêncio da noite.
Quando terminou, ela se sentou na cama e me olhou com um ar culpado.
— Me desculpa por não ter te avisado onde a gente ia... Eu ia avisar, mas os meninos estavam saindo, a gente quis ir também e não deu tempo.
Dei um sorriso fraco.
— Não se preocupa com isso, de verdade.
— O que eu posso fazer pra compensar? Você ficou sozinha, e mesmo assim ajudou a gente... no mínimo eu tenho que retribuir.
— Eu não quero nada.
— Alex, me deixa fazer algo por você, por favor.
Suspirei, cedendo.
— Eu vou pensar e depois te digo, tá?
Ela assentiu, e o quarto caiu no silêncio.
A noite estava sufocante. O silêncio do quarto parecia mais barulhento que qualquer gritaria do treino de futebol que eu tinha assistido antes. O som da respiração profunda de Charlotte, misturado ao farfalhar leve da cortina quando o vento entrava pela janela entreaberta, criava um cenário de calma que não condizia com o caos que eu ainda sentia por dentro. Me sentei na cama, abraçando os joelhos contra o peito, como se aquilo pudesse me proteger dos pensamentos que insistiam em girar sem parar. A imagem de Daren cambaleando, murmurando aquelas palavras desconexas e cheias de um carinho que talvez nem fosse real, ainda me martelava na mente. O olhar perdido dele, misturado com a força com que me segurou, deixou uma sensação agridoce presa na minha pele. Eu não sabia se queria esquecer ou se queria guardar. Nicolle deitou-se na cama dela, mas não parecia encontrar descanso. Ela virava de um lado para o outro, ajeitando o travesseiro, puxando e empurrando o cobertor, até que soltou um suspiro frustrado.
— Não consigo dormir... — murmurou, a voz baixa e cansada, como se tivesse medo de acordar Charlotte. Virei o rosto para ela, apoiando o queixo nos joelhos.
— Eu também não.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, nossas respirações se misturando no ar pesado do quarto. Eu podia sentir o cheiro de cloro ainda grudado na minha pele por causa da piscina, misturado ao perfume doce do shampoo de Nicolle que invadia o espaço. Era um contraste estranho, mas de algum jeito reconfortante.
Ela rolou na cama até ficar de frente para mim, apoiando o rosto na mão.
— Você ficou com raiva de mim, né?
Hesitei. Por um instante pensei em dizer que não, que estava tudo bem, mas não conseguia simplesmente ignorar a verdade. Suspirei fundo.
— Eu fiquei magoada. Não só com você, com todos vocês. Eu passei o dia inteiro me sentindo de lado... e no fim, quando finalmente precisei de companhia, todo mundo tinha sumido. — minha voz saiu baixa, embargada, mas carregada de sinceridade.
Nicolle mordeu o lábio, como sempre fazia quando estava prestes a chorar, mas queria parecer forte.
— Eu não queria que fosse assim. Juro. Eu devia ter te chamado.
— Devia. — respondi, firme, mas sem agressividade. — Você é minha melhor amiga, Nick. Eu esperava mais de você.
Ela desviou o olhar, apertando o lençol entre os dedos, e pela primeira vez naquela noite não tentou se justificar. Apenas ficou em silêncio, como se as minhas palavras tivessem perfurado uma parte dela que nem ela mesma queria enxergar.
— Eu prometo que não vou te deixar de fora de novo. — murmurou por fim, com a voz embargada. — Se você quiser me castigar por hoje, eu aceito.
Soltei uma risada fraca, quase amarga.
— Eu não quero te castigar, Nicolle. Eu só quero sentir que eu pertenço a algum lugar.v
A frase saiu mais sincera do que eu tinha planejado, e imediatamente senti um nó na garganta. Era aquilo, no fundo, que me corroía: a sensação de estar sempre sobrando, de nunca ser prioridade, de ser apenas um apêndice na vida das pessoas que eu chamava de amigos.
Nicolle se levantou da cama, caminhou até a minha e se sentou ao meu lado. Seus olhos brilhavam na penumbra do quarto, refletindo a pouca luz que vinha da lua pela janela.
— Você pertence comigo. — disse com firmeza, colocando a mão sobre a minha. — Eu sei que errei hoje, mas eu vou provar que você nunca vai estar sozinha.
Fiquei em silêncio, sentindo o calor da mão dela contra a minha. Queria acreditar. Queria mesmo. Mas as imagens da noite voltavam como agulhas, espetando meu peito. Charlotte rindo descontrolada, Angel quase desmaiada, Jason perdido no próprio corpo, Michael tropeçando nas palavras, e Daren... Daren me segurando como se eu fosse a âncora dele. Meus olhos se fecharam por alguns segundos, e as palavras dele ecoaram dentro de mim: "Você é muito bonita... a loira mais bonita que já vi no mundo...". Um arrepio subiu pela minha espinha. Não era a primeira vez que alguém dizia isso pra mim, mas nunca tinha soado tão confuso, tão errado e tão... verdadeiro ao mesmo tempo.
— Alex... — a voz de Nicolle me trouxe de volta. — O que você tá pensando?
Abri os olhos devagar, encarando o teto.
— Que eu não reconheço mais vocês. Hoje... parecia que eram outras pessoas.
— Talvez a gente tenha se perdido por algumas horas. — Nicolle respondeu, apertando minha mão. — Mas você ainda é a nossa bússola. Se não fosse você, a gente tinha se ferrado.
Ri baixinho, um riso carregado de cansaço.
— Ótimo, então eu sou a babá oficial do grupo.
— Não fala assim. — ela pediu, com um olhar quase suplicante. — Você é quem mantém a gente em pé.
As palavras dela mexeram comigo mais do que eu queria admitir. Fiquei em silêncio, e o silêncio entre nós foi preenchido pelo barulho leve da respiração de Charlotte e pelo vento suave entrando pela janela. Nicolle finalmente se deitou de novo, mas dessa vez ficou de costas para mim. Antes de fechar os olhos, murmurou:
— Boa noite, Alex. E... obrigada por tudo.
Demorei alguns minutos para responder.
— Boa noite, Nick.
Apaguei a luz do abajur e me encolhi debaixo das cobertas. Mas o sono não veio de imediato. Fiquei ali, olhando para a escuridão, sentindo o coração inquieto. As palavras de Daren e a promessa de Nicolle ecoavam dentro de mim, como se a noite tivesse plantado sementes que eu ainda não sabia se queria ver florescer. E, no fundo, uma única pergunta latejava sem descanso na minha mente:
Será que eu realmente pertenço a algum lugar... ou vou estar sempre sobrando?
O quarto mergulhou no silêncio absoluto, mas dentro de mim o caos só começava.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
