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Alexandra

Acordei com a luz suave da manhã entrando pelas cortinas do meu quarto. O canto distante dos pássaros parecia quase tímido, como se respeitassem meu estado de espírito. Respirei fundo, sentindo a mistura de cansaço e ansiedade que ainda carregava do dia anterior. O silêncio do quarto era quase reconfortante, embora uma pontada de inquietação insistisse em me lembrar de tudo que aconteceu. Levantei-me devagar, sentindo o chão frio tocar meus pés. Caminhei até o banheiro, puxando a porta com cuidado, como se aquele momento de solitude fosse meu refúgio sagrado. Liguei o chuveiro e deixei a água morna escorrer pelo meu corpo. A sensação de estar molhada, de sentir cada gota deslizando pela pele, era quase terapêutica. Fechei os olhos e tentei me concentrar apenas na água, tentando esquecer por um instante Daren, Michael, o testamento, tudo que me confundia e me machucava.
Enxuguei-me lentamente, apreciando o calor da toalha acariciando minha pele. Caminhei até o quarto e abri o guarda-roupa, escolhendo algo simples, mas que me fizesse sentir um mínimo de normalidade: uma calça jeans escura e uma blusa branca de manga longa, confortável, porém arrumada o suficiente para não parecer que eu havia passado a noite chorando. No caminho para a cozinha, o aroma do café recém-passado me atingiu, misturado com o cheiro doce do pão fresco que minha mãe sempre insistia em comprar. Meu estômago reclamou levemente, lembrando-me que, mesmo com a cabeça cheia de preocupações, eu precisava alimentar meu corpo. Sentei-me à mesa, observando a manhã ensolarada que começava lá fora. Peguei uma xícara de café e senti o calor reconfortante aquecer minhas mãos. O primeiro gole foi amargo, mas delicioso, despertando meus sentidos de forma gradual. Ao lado, a torrada com geleia de morango parecia simples demais, mas naquele momento cada pequeno detalhe era um ponto de ancoragem para eu me sentir viva e presente. Enquanto mastigava lentamente, minha mente não podia deixar de vagar para as lembranças do dia anterior. Michael, com seu jeito doce e tranquilo, contrastava tão fortemente com Daren e o peso das humilhações que carregava. Revivi a sensação do abraço dele, o conforto que senti mesmo sem querer admitir, e uma pontada de culpa misturada com alívio atravessou meu peito. O envelope antigo do testamento ainda estava guardado na minha bolsa, e uma parte de mim queria pegá-lo, ler tudo de novo, tentar compreender a profundidade do que meu pai deixou para mim. Mas outra parte temia que, ao abrir, todo o turbilhão de emoções retornasse com força total. Suspirei, levando a mão à xícara de café, e senti o calor reconfortante espalhar-se pelo meu corpo, acalmando-me um pouco. Olhei pela janela, observando a vida lá fora continuar como se nada tivesse acontecido, e senti uma estranha sensação de esperança misturada com medo. Aquele seria mais um dia para enfrentar, mas talvez, apenas talvez, eu pudesse fazer isso de uma forma diferente. Com cuidado, respirei fundo, tentando absorver cada detalhe da manhã — o calor do café, a luz suave, o cheiro do pão — e prometi a mim mesma que, pelo menos por hoje, tentaria deixar de lado a dor e apenas viver aquele instante.
Depois de tomar meu café da manhã, levantei-me devagar da mesa, ainda sentindo o calor da xícara na mão e o aroma do pão fresco no ar. Caminhei até meu quarto, os pensamentos meio embaralhados entre o encontro com Michael e as lembranças que insistiam em me perseguir. Hoje eu ia sair com ele, e mesmo sendo tímida, meu coração não parava de acelerar só de imaginar que estaríamos juntos. Abri o guarda-roupa e meus olhos caíram sobre o vestido que Nicolle Carter tinha escolhido para mim. Era branco, leve, com pequenas flores azuis espalhadas pelo tecido, delicado e simples, mas ao mesmo tempo fofo e confortável — perfeito para mim. Senti um friozinho de nervoso ao vesti-lo, ajustando as alças nos ombros e sentindo o tecido acariciar minha pele de forma suave. Nos pés, um par de All Star branco que eu já estava acostumada a usar, algo que me deixava eu mesma, sem precisar parecer alguém que não sou.
Meu cabelo, levemente bagunçado pelo sono, caiu sobre meus ombros e eu passei os dedos por entre os fios, ajeitando pequenas mechas sem me preocupar em fazer nada exagerado. Nada de batom, nada de maquiagem chamativa — só eu, do jeito simples e nerd que sempre fui. Um pouco de perfume, discreto, foi o suficiente para me sentir pronta. Sentei-me na beira da cama por um instante, respirando fundo. Tentei acalmar o nervosismo e a ansiedade que cresciam dentro de mim. Michael era diferente de todos que eu já conheci , ele me via, de um jeito gentil, sem me humilhar, sem me julgar. A lembrança de Daren ainda me doía, mas naquele momento, tudo parecia mais leve só de pensar que eu estaria com alguém que realmente se importava comigo.
Peguei minha bolsa, conferindo se estava tudo: celular, carteira, carregador, algumas coisinhas essenciais de uma nerd, e aquela coragem silenciosa que eu sabia que precisava levar comigo. Saí do quarto e caminhei pelo corredor, sentindo o chão frio sob meus pés e a brisa leve entrando pela janela. Cada passo parecia preparar meu corpo e minha mente para o momento que se aproximava, o encontro com Michael, e tudo que ele podia significar. Quando cheguei ao carro, meu coração disparou. Entrei timidamente, ajeitando a alça da minha bolsa, e sentei-me no banco de trás. O motorista acenou de forma cordial, e eu respirei fundo, tentando acalmar a ansiedade que ainda borbulhava dentro de mim. Enquanto o carro começava a se mover, eu olhei pela janela, vendo o movimento da cidade passar rápido, e senti uma mistura de nervosismo e curiosidade sobre como seria o encontro com Michael no Starbucks.
O carro parou em frente ao Starbucks e meu coração deu um salto. Respirei fundo antes de descer, segurando a alça da minha bolsa como se fosse uma âncora contra a ansiedade. Assim que coloquei os pés na calçada, vi Michael me esperando perto da entrada. Ele sorriu ao me ver, e esse simples gesto foi suficiente para minhas bochechas queimarem. Caminhei até ele, tentando parecer natural, mas por dentro eu estava uma bagunça, Michael tinha essa forma estranha de me deixar insegura e confortável ao mesmo tempo. Entramos e o cheiro de café fresco, açúcar e canela me envolveu. Escolhemos uma mesa perto da janela, e eu me sentei, ajeitando o meu vestido, sentindo o tecido suave sobre minhas pernas. Os All Star batiam levemente no chão enquanto eu cruzava os pés, tentando parecer casual embora meu coração estivesse acelerado demais para qualquer casualidade. Michael olhou para mim com aquele sorriso fácil, mas desta vez, eu me perdi em pensamentos e acabei ficando em silêncio por alguns segundos. Ele franziu levemente a testa, preocupado.
Alex? — chamou, suave.
Ah... oi... — respondi, voltando ao presente. — Fala.
Ele sorriu, e eu senti o calor subir às minhas bochechas.
Você está linda... esqueci de falar— disse, e meu peito apertou, quase me deixando sem palavras.
Obrigada... você também está muito bonito — murmurei, desviando o olhar e brincando com a alça da minha bolsa, tímida demais para encará-lo por mais tempo.
— E então, o que você vai querer, Alex? — perguntou, com aquele tom atencioso que sempre me deixava sem graça.
Hm... um milkshake de baunilha— respondi, quase num sussurro, como se tivesse medo de estar pedindo demais.
Ele sorriu, aquele sorriso fácil que fazia meu coração tropeçar.
Boa escolha. Já volto.
Levantou-se com calma, ajeitando a camisa, e caminhou até o balcão. Eu o observei de longe, tentando disfarçar. O jeito educado com que ele falava com a atendente, o riso leve que soltava ao ouvir alguma piadinha, tudo nele parecia natural, como se fosse impossível não gostar de Michael.
Quando voltou, depositou o número do pedido sobre a mesa e sorriu novamente.
Pedi também um cookie de chocolate... achei que você ia gostar.
Corei de leve e apenas assenti, apertando ainda mais a alça da minha bolsa entre os dedos.
Enquanto esperávamos nossos pedidos, eu não conseguia evitar que minha mente viajasse para momentos que ainda me machucavam. A lembrança de Daren surgiu como uma sombra: seus olhos frios, sua voz debochada, cada palavra cruel sobre meu pai... Meu estômago se contraiu, mas o calor do olhar de Michael ao meu lado parecia me proteger de alguma forma.
Um flashback veio à tona, nítido demais para ignorar. Eu estava sentada nas arquibancadas do campo de futebol americano, alguém se sentando ao meu lado.
Não sabia que nerds curtiam futebol — disse Daren, com um sorriso arrogante.
E não gosto — respondi, tentando parecer indiferente. — Só estou sentada observando o nada.
Ele olhou para mim, com uma expressão estranhamente simpática, e perguntou por que eu sempre vinha ali. Tentei explicar, com a voz embargada:
Talvez porque meu pai amava futebol americano... — murmurei. — Ele morreu dois meses depois que eu nasci. Minha mãe me contou poucas coisas sobre ele, e eu tento imaginar como seria.
E então ele riu de forma cruel, dizendo palavras que nunca sairiam da minha memória. Palavras que me humilharam, me fizeram sentir pequena, invisível e quebrada. Saí correndo, indo me refugiar no jardim perto dos dormitórios, sentando-me na grama e deixando minhas lágrimas caírem sem controle. Foi então que Michael apareceu, silencioso e gentil. Ele me abraçou de lado, e naquele abraço, um pouco da dor começou a desaparecer.
Ele é um idiota — disse ele. — É a única explicação que tenho para você.
Voltei ao presente, sentindo o calor das lembranças e o conforto do sorriso de Michael. Ele se levantou quando chamaram nosso número e foi buscar a bandeja, voltando logo depois com cuidado para não derrubar nada. Colocou o milkshake e o cookie à minha frente, e se acomodou com seu cappuccino e um croissant ainda quentinho.
Espero que esteja do jeito que você gosta — disse, empurrando o prato na minha direção.
Está perfeito, obrigada — respondi baixinho, enfiando uma mecha de cabelo atrás da orelha, tentando disfarçar o rubor que ainda teimava em ficar no meu rosto.
Michael mordeu um pedaço do croissant, observando-me com atenção. Eu, por minha vez, levei o canudo aos lábios e provei o milkshake gelado. O contraste da bebida doce com o ambiente acolhedor fez meu coração se acalmar um pouco.
Sabe... — ele começou, limpando os dedos num guardanapo —eu sempre quis perguntar uma coisa.
Ergui os olhos, curiosa. — O quê?
Por que você sempre tenta se esconder tanto? — disse com delicadeza, sem me pressionar. — Você tem esse jeito tímido, mas... quando sorri de verdade, parece que todo o lugar muda.
Fiquei sem reação. Minhas mãos automaticamente buscaram a alça da bolsa, como se aquilo fosse me proteger.
Eu... eu não sei — murmurei. — Acho que é mais fácil passar despercebida do que ser notada.
Michael se inclinou para frente, apoiando o queixo na mão, e me olhou com seriedade, mas com ternura também.
Bom, eu acho um desperdício você querer passar despercebida.
Meu coração deu outro salto, e antes que eu conseguisse responder, ele pegou o cookie, partiu ao meio e me ofereceu.
Vai, prova.
Peguei o pedaço, nossos dedos roçando de leve. Um arrepio subiu pelo meu braço. Mordi o cookie e não consegui segurar um sorriso.
Está maravilhoso.
— Sabia que você ia gostar — ele respondeu, satisfeito, voltando ao cappuccino.
E ficamos ali, entre goles e bocados, conversando sobre coisas simples , professores chatos, os treinos intermináveis de futebol, os filmes que ele dizia que eu precisava assistir e, por alguns instantes, o mundo parecia seguro de novo.
O papo entre nós seguia entre risadas baixas e silêncios que, estranhamente, não eram desconfortáveis. Mas, de repente, a pergunta que vinha queimando no fundo da minha mente escapou antes que eu pudesse segurar:
Por que você fala comigo? — perguntei, baixando os olhos para o milkshake. — Você é da turminha do Daren... devia ser igual a eles.
Michael arqueou as sobrancelhas, mas não demorou a responder.
Você tem algo que nenhuma outra garota tem, Alex. — Sua voz saiu firme, sem hesitação. — Sério, acho que estou gostando de você.
Olhei de relance e vi o sorriso bobo que iluminava seu rosto. Meu peito se apertou. O canudo girava lentamente entre meus dedos enquanto eu mexia o milkshake, tentando manter a compostura.
Não respondi. Não sabia o que dizer.
Não quis dizer isso para te deixar desconfortável — acrescentou ele, percebendo meu silêncio. A voz dele soou calma, sincera. — Só quero que saiba como me sinto. Você é muito especial para mim.
Meu coração disparava, e ao mesmo tempo eu me sentia sufocada por tantas lembranças. O olhar cruel de Daren, a forma como me fazia acreditar que eu era invisível, ecoava na minha mente, brigando com a ternura de Michael que estava bem ali, tão perto, tentando me alcançar.
Quando Michael levantou-se para pagar a conta, segui seus passos com os olhos, sentindo uma mistura confusa de gratidão e medo. Ele voltou em seguida, pegando a bandeja com delicadeza e ajeitando a cadeira antes de se sentar novamente, como se fosse impossível para ele não ser atencioso. Eu respirei fundo, buscando coragem para dizer algo que me desse um pouco de espaço.
Estou com dor de cabeça — murmurei, tímida, mas sincera. — Acho que vou pegar o carro da minha mãe
Michael me olhou com preocupação imediata.
Eu posso te levar, não é incômodo nenhum.
Balancei a cabeça com um sorriso pequeno, tentando não deixá-lo ver o turbilhão dentro de mim.
— De verdade, não precisa. Ela já mandou um carro.
Ele pareceu querer insistir, mas desistiu diante da firmeza suave na minha voz. Quando o carro encostou na calçada, me levantei.
Então... até mais tarde? — perguntou, com esperança nos olhos.
Assenti, sem conseguir responder em palavras. Apenas um aceno tímido, antes de entrar no carro e fechar a porta.
Enquanto o motorista acelerava, encostei a testa no vidro frio da janela, sentindo meu coração pesado e leve ao mesmo tempo — como se dentro de mim houvesse medo e esperança tentando se equilibrar em cada batida.

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