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Alexandra

Nick vai dormir aqui em casa hoje. Minha mãe e o Damian saíram para jantar, então a gente ficou só nós três, com pizza na cozinha, do jeitinho que eu gosto. Fui pra cozinha pegar as coisas pra arrumar a mesa com o Scott, enquanto a Nick se jogava no sofá, mexendo no celular. Ele pegava as coisas dos lugares mais altos, e eu dos mais baixos, sempre rindo das nossas diferenças de altura.
Já escolheu o filme, Nick? — perguntei, colocando as três caixas de pizza sobre a mesinha da sala.
Ainda não. — respondeu ela, distraída. — Acho que vou esperar o Jason chegar pra escolher.
Ergui as sobrancelhas, surpresa.
— Jason vem?
Ela assentiu, sorrindo de canto.
— Sim. O Scott convidou ele. Disse que não queria que ele ficasse sozinho em casa enquanto a gente se divertia aqui.
Olhei pro meu namorado, que fingiu não me ver e continuou enchendo os copos de Coca-Cola.
— Ah, é? — perguntei, rindo. — Então foi isso o "nada demais" que você me escondeu?
— Ei, eu só achei justo — respondeu Scott, tentando disfarçar o sorriso. — E, pra falar a verdade, foi mais pra Nick se sentir à vontade. Achei que seria legal ter o Jason aqui também.
Nick olhou pra ele com um sorriso grato.
Você é um amor, Scott.
Eu sei — ele respondeu, convencido, fazendo a gente rir.
Alguns minutos depois, a campainha tocou.
Deve ser ele! — disse Nick, já levantando animada.
Scott foi até a porta e abriu, e lá estava o Jason, com o cabelo um pouco bagunçado e aquele sorriso de quem sabe exatamente o efeito que causa.
Oi, amor. — Nick disse, indo direto abraçá-lo.
Ele a envolveu nos braços, apertando com carinho e beijando o topo da cabeça dela.
Oi, gatinha. — murmurou. — Tava morrendo de saudade.
Scott olhou pra mim com um sorriso satisfeito, como quem diz "missão cumprida".
E, de fato, deu certo. Só de ver os dois juntos, o clima da casa ficou mais leve.
Nos sentamos todos na sala: Scott de um lado comigo, Jason do outro com a Nick.
Enquanto comíamos pizza, falávamos sobre qualquer coisa, faculdade, planos, viagens, filmes ruins que a gente ama.
Alex, você já sabe pra onde quer ir ano que vem? — perguntou Nick, depois de morder uma fatia.
Acho que Oxford — respondi, dando de ombros. — Mas ainda tô pensando. E você?
— Harvard. — respondeu ela, confiante. Jason passou o braço por trás dela e sorriu.
Ela vai conseguir. Minha namorada é muito inteligente.— disse ele, todo orgulhoso.
E você, Scott? — Nick perguntou.
Cambridge me parece uma boa. — respondeu ele, me olhando de um jeito que me fez corar.
Inglaterra inteira que se prepare pra esses dois — comentou Jason, rindo, e Nick riu junto.
Depois da pizza, o Scott colocou um filme qualquer na TV, uma comédia romântica boba, só pra acompanhar a conversa. Jason e Nick estavam tão grudados que pareciam viver num mundo próprio, e por mais que eu fingisse implicar, era impossível não sorrir vendo os dois.
Vocês são tão melosos que chega a ser fofo. — falei, rindo.
Inveja detectada. — respondeu Nick, sem tirar os olhos do namorado.
Scott fingiu indignação.
— Ei! E eu aqui do lado dela?
— Tá, vai, vocês também são fofos. — Nick completou, rindo.
O filme terminou e ficamos um tempo conversando, meio deitados no sofá, num clima gostoso de fim de noite. Jason brincava com os dedos da Nick, e ela encostava a cabeça no ombro dele de vez em quando. Eu e Scott trocávamos olhares cúmplices, rindo das bobagens deles.
Lá pela meia-noite, Jason se levantou, relutante.
Eu preciso ir, amor... senão minha mãe surta. — disse, fazendo uma careta.
Você é um bebê. — Nick provocou, mas o abraçou apertado.
Um bebê que te ama. — respondeu ele, beijando a testa dela.
Eu e Scott fingimos olhar pra outro lado, pra não rir da cena. Jason se despediu de nós e saiu, deixando um silêncio confortável pra trás.
Nick ainda ficou um tempo no sofá, olhando pra porta com aquele sorrisinho bobo de quem tá apaixonada.
Ele é perfeito. — murmurou.
É, ele é mesmo. — falei, me encostando no Scott, que me abraçou de lado. — Vocês dois são.
Subimos pro meu quarto pouco depois.
Enquanto eu trocava de roupa, Nick se jogou na cama, rindo sozinha.
Eu amo ele, Alex. Tipo... de verdade. — confessou, virando o rosto pra mim.
E dá pra ver. — respondi, sorrindo. — Vocês têm uma coisa linda.
Scott entrou pra se despedir, me deu um beijo na testa e um "boa noite, amor", antes de sair.
Depois disso, Nick e eu ficamos deitadas, conversando sobre o futuro, sobre o colégio, sobre como a vida tava mudando.
Aos poucos, o sono veio.
Nick dormiu primeiro, com um sorriso no rosto. Fiquei olhando pra ela por um instante, sentindo um carinho enorme por aquela menina que, mesmo com o coração completamente entregue, ainda tinha medo de se perder no amor.
Suspirei, apaguei o abajur e me encolhi na cama.
A noite estava tranquila, e o som leve da respiração da minha melhor amiga me fez adormecer com um sorriso no rosto.
[...]
Segunda-feira.
A casa estava um verdadeiro caos, três adolescentes tentando se arrumar ao mesmo tempo para ir para o colégio. O relógio marcava sete da manhã, e o som de malas, zíperes e vozes misturadas enchia o ar. Eu e a Nick já estávamos prontas pra descer e tomar café. Escolhi um vestido largo, longo, e meu par favorito de All Stars. Nick, como sempre, tinha o dom de transformar qualquer roupa em algo estiloso: pegou uma calça jeans minha, de lavagem clara e rasgada, e combinou com uma blusa listrada sem mangas. Ela olhou no espelho, ajeitou o cabelo e sorriu satisfeita.
— Pronta pra mais um ano de aventuras? — perguntou.
— Ou de confusões. — respondi, rindo.
Lá embaixo, o Scott e o Damian estavam colocando as malas no carro. Minha mãe falava sem parar, dizendo que ia sentir falta da gente, que ia ligar todos os dias, e que era pra gente comer direito. Eu sorria, mas por dentro o coração apertava, era sempre difícil me despedir dela.
Ela estava tão feliz ao lado do Damian que eu nem conseguia imaginar sua reação quando descobrisse que o Scott e eu estávamos namorando. Somos, tecnicamente, quase meio-irmãos... e isso não deveria estar acontecendo. Mas ninguém escolhe o coração, não é?
No caminho, o carro ficou em silêncio por alguns minutos. O sol começava a nascer, dourando a estrada, e eu só conseguia pensar que um novo ano estava começando e que tudo podia mudar. Quando chegamos ao colégio, Scott se ofereceu pra carregar minhas malas até o quarto, mas eu recusei com um sorriso.
A Nick me ajuda, pode deixar. — falei.
Ela deu de ombros, tranquila, e seguimos juntas depois de nos despedirmos da minha mãe e do Damian. Peguei uma das malas e o celular, enquanto a Nick pegava a outra. O corredor do dormitório estava cheio de gente nova, rostos diferentes, risadas altas, e aquele cheiro de começo de semestre.
Entramos no nosso quarto, e logo percebi algo estranho: as coisas da Charlotte não estavam ali.
— Que estranho a Charlotte não ter chegado ainda... — comentou a Nick, olhando em volta.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e entrou Sophie. Ela parou na nossa frente e cruzou os braços, com aquele olhar superior que sempre me tirava do sério.
— Olha só quem voltou. A iludida e a selvagem. — disse, com o tom mais venenoso possível. — Caiam fora do meu quarto, agora.
Pisquei, confusa.
— O seu quarto? — perguntei, sentindo o estômago revirar.
Não podia ser... eu não podia dividir o quarto com a Sophie. E se ela resolvesse fazer alguma maldade comigo durante a noite?
Mas antes que eu pudesse reagir, Nick deu um passo à frente.
— Primeiro, controla o jeito como você fala com a gente — respondeu, firme. — E segundo, quem devia cair fora é você, sua vaca.
Sophie arqueou as sobrancelhas, com um sorriso debochado.
— Olha o seu jeitinho de falar, selvagem.
Nick estava prestes a partir pra cima dela, mas eu segurei seu braço.
— Nick, não vale a pena — sussurrei.
Respirando fundo, ela recuou, ainda bufando.
Fomos até o closet, trocamos de roupa e, quando voltamos, Sophie já tinha desaparecido.
Suspirei, aliviada.
— Nick, vamos. A gente precisa comer antes da aula de Biologia. — falei, pela sexta vez.
— Já vou, sua chata. — respondeu ela, revirando os olhos.
A "rainha do submundo", como eu costumava chamar, finalmente terminou de se arrumar. Por sorte, nesse semestre, eu e a Nick teríamos quase todas as aulas juntas, algumas com a Charlotte e outras com o Scott. Descemos pro refeitório, e logo notei que algo tinha mudado.
O grupinho dos populares não era mais o mesmo. Antes, era o trio inseparável: Jason, Daren e Michael. Agora, no entanto, vi um novo grupo formado: Daren, Jay, Steven, Sophie, Brianna e Sasha.
Se eu fiquei triste ao ver aquilo?
Sim, fiquei.
Porque, mesmo depois de tudo, eu ainda gostava dele. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. Ele tinha feito a escolha dele.
Nick percebeu meu olhar e puxou minha mão, me guiando até a mesa onde estavam os nossos amigos. Nos sentamos, cumprimentamos todos e começamos a conversar. Aos poucos, o peso no peito foi se dissolvendo.
Era o primeiro dia de um novo ciclo e, mesmo com tudo confuso, eu sabia que aquele ano ainda tinha muito pra acontecer
Vou pegar algo pra comer. Alguém quer alguma coisa? — perguntou o Michael, se levantando.
Os meninos negaram com a cabeça.
Eu quero um pouco de tudo que tiver ali pra comer. — falei, e todos me olharam como se eu tivesse dito o maior absurdo do mundo. — O que foi, gente? Eu tô com fome! — emburrei a cara, cruzando os braços.
Scott riu e balançou a cabeça.
— Eu vou buscar pra você, amor. — disse, todo fofo. — Nick, você quer alguma coisa?
— Vou comer com ela. — respondeu Nick, dando de ombros.
Então dobra a quantidade. — falei, corando na hora.
Nick me olhou e caiu na risada.
Você não muda mesmo, hein, Alexandra?
Acabei rindo também.
Michael e Scott voltaram com as bandejas, e eu comecei a devorar a pizza em silêncio. Nick e Jason trocavam olhares cúmplices e Michael cochichava alguma coisa no ouvido da Charlotte, que sorria toda corada.
O sinal tocou.
Eu, Nick e Jason tínhamos Biologia na próxima aula, então pegamos nossos materiais e fomos juntos pra sala B6. Chegamos antes de todo mundo, e o ambiente ainda estava silencioso.
Me sentei no fundão, Nick ficou logo à minha frente e Jason, como sempre, tentou puxar conversa com ela, mas ela tava pagando de difícil. Revirei os olhos e comecei a tirar meu material da mochila. As pessoas começaram a entrar, e no meio da movimentação eu vi Daren McClaren.
Meu coração quase parou.
Fazia só duas semanas desde o último contato, mas parecia uma eternidade. Eu o tinha evitado o máximo possível na semana de provas e agora ele vinha se sentar bem do meu lado.
Engoli seco.
Tentei olhar pra frente, mas minhas mãos suavam. O professor chegou logo em seguida, e eu agradeci mentalmente por isso.
Olá, turma. — começou o homem alto e de óculos. — Sou o professor Gil, o novo de Biologia. O antigo professor deixou uma lista com os melhores e piores alunos. — fez uma pausa e riu de leve. — E, como de costume, vocês vão precisar trabalhar em duplas durante o período. Eu vou escolher os pares aleatoriamente.
Ele começou a chamar os nomes, um por um. E quando disse "Alexandra Cameron e Daren McClaren", senti o chão sumir.
Meu coração errou uma batida.
Não podia ser sério.
Levantei a mão.
Professor, será que dá pra trocar de parceiro? — perguntei, tentando parecer calma.
Ele nem olhou pra mim.
Não, as duplas já estão decididas.
Nick levantou a mão em seguida.
Professor, eu também não tô feliz com o meu par. Quero trocar. — ela tinha caído com o Jason e estava claramente tentando me ajudar.
Não. — respondeu o professor, impaciente. — E ponto final. Vamos começar a aula.
Suspirei, frustrada. Tudo o que eu não queria era ter que dividir espaço com Daren de novo. Mas eu também não ia deixar isso atrapalhar a matéria. Afinal, o foco agora era terminar o colégio e entrar na universidade.
Esse cara é mesmo um mala. — murmurou Nick, se virando pra mim. — Nem deixou a gente trocar!
— Eu e o Daren... outra vez. — resmunguei.
O que há de tão interessante que vocês duas não conseguem guardar pra depois do sinal? — perguntou o professor, cruzando os braços.
Todo mundo olhou pra nós.
Eu só tava pedindo um lápis. Ou é proibido pedir algo que não seja pro parceiro? — retrucou Nick, sarcástica.
Eu ri baixinho, tentando conter o riso.
Abusada, você. — ele respondeu, sério. — Qual é o seu nome?
— Nicolle Carter. — disse, dando de ombros.
Ele pegou uma lista e olhou rapidamente.
Surpreendentemente, você é uma das melhores alunas. Me admira ser tão afrontosa.
Jason, que até então tava quieto, se meteu:
E o que uma coisa tem a ver com a outra? Até onde eu sei, sua função aqui é dar aula, não avaliar a personalidade dos alunos.
O professor arqueou as sobrancelhas.
E o seu nome é?
— Jason Drummond. O pior da turma, com certeza. — respondeu, debochado.
O professor fez uma cara de poucos amigos.
Verdade. Suas notas são bem piores que as da senhorita Carter.
— Você vai dar aula ou não? — retrucou Nick, impaciente.
Já cansei dessa brincadeira. Saia da minha aula, senhorita Carter.
Nick se levantou e saiu, e eu olhei pra Jason com um pedido mudo. Ele entendeu, levantou e foi atrás dela.
Sorri, orgulhosa.
O professor voltou a dar aula, e eu me concentrei, anotando tudo pra depois passar as notas pra Nick e Jason. No final, ele passou um trabalho em dupla pra entregar em duas semanas, uma experiência prática sobre genética. Algumas horas depois, eu estava na biblioteca, estudando sozinha. Nenhum dos meus amigos quis vir, nem o Scott.
O silêncio era bom. Me deixava pensar.
Eu estava tão concentrada que só percebi a presença de alguém quando ouvi uma tosse leve do meu lado.
Olhei e vi Daren.
A gente pode conversar? — perguntou, sério.
Senti o estômago gelar.
Sobre o trabalho? Se for isso, eu posso fazer sozinha, sem problema. — respondi rápido.
Não. É sobre nós dois.
Meu coração disparou.
Daren, não existe "nós dois". E você deixou isso bem claro.
Ele suspirou, abaixando o olhar.
Nem você acredita no que acabou de dizer, Alex. — murmurou. — Naquele dia... eu não tava em mim. Eu tinha bebido, fiquei frustrado com a derrota, e acabei dormindo com a Sophie. Mas não foi algo que eu quis. Eu nunca quis te magoar.
As palavras dele me cortaram por dentro. Ele parecia sincero mas o que eu sentia era dor.
Daren... — comecei, sem saber o que dizer.
Eu sei que você ainda gosta de mim. E eu também gosto de você. O que impede a gente de tentar de novo? — perguntou, com os olhos fixos nos meus.
Eu não consegui responder.
Ele se aproximou, colocou o dedo sob o meu queixo, me obrigando a olhar pra ele.
Meu coração disparou.
Quando ele segurou meu rosto e me beijou, eu congelei. No início, resisti mas cedi por um segundo. Um segundo que foi o suficiente pra me arrepender.
Me afastei rápido, quase tropeçando.
Eu... eu não posso. Você me magoou demais, Daren. — peguei minhas coisas e saí apressada, mas ele veio atrás.
Eu não terminei. — disse, e parou, respirando fundo. — A minha mãe apareceu.
Olhei pra ele, chocada.
O quê?
— Não fisicamente... Ela me ligou. Disse que sou um fracasso, que abandonar eu e meu pai foi a melhor coisa que ela fez. — a voz dele quebrou no fim.
Senti meu peito apertar. Eu sabia o quanto aquele assunto era sensível pra ele. E, por mais raiva que eu tivesse, não consegui simplesmente ignorar.
Me aproximei e o abracei.
Daren, eu sinto muito. — sussurrei.
Ele me abraçou de volta, e pude sentir o quanto ele tremia.
Eu ainda te amo, Alex... — murmurou, fungando. — Me perdoa.
Eu... — comecei, mas uma voz me interrompeu.
— Alex?
Congelei.
Scott estava parado na porta, nos olhando. O choque e a dor no rosto dele me acertaram em cheio.
Quer me explicar o que tá acontecendo? — perguntou, a voz falhando.
Ela não precisa justificar nada pra você. — disse Daren, ficando entre nós.
Precisa sim — respondeu Scott, firme. — Afinal de contas a gente tá namorando.
O olhar de Daren endureceu.
— Vocês estão namorando? — perguntou, voltando-se pra mim. — É sério isso, Alex?
Eu não consegui responder.
Scott olhou pra mim, decepcionado.
A sério, Alex? Ainda precisa pensar? — disse, magoado. — Ela é mesmo a sua cara, Daren. — e saiu antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa.
Scott! — chamei, mas ele não olhou pra trás.
Engoli o choro, olhei pra Daren e balancei a cabeça.
— Me desculpa, Daren... mas eu não posso voltar pra você. Eu gosto do Scott. E não tenho dúvidas disso. — pausei, respirando fundo. — Espero que um dia você encontre alguém que te ame de verdade — e que você nunca a magoe como me magoou.
Saí correndo atrás do Scott, com o coração em pedaços.

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