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Alexandra

Fazia algum tempo que Charlotte vinha agindo de forma estranha comigo.
A distância dela não era declarada, mas perceptível. Estava nos silêncios prolongados, nas respostas curtas, na maneira como evitava olhar-me nos olhos durante as chamadas. Eu entendia, em partes. Desde que fiquei doente, Michael tem estado ao meu lado quase todos os dias. Não por escolha dele, exatamente, mas porque Daren, antes de viajar com o pai, lhe pediu que cuidasse de mim. Ele não confia em Scott, e isso diz tudo. A sala de estar estava banhada pela luz morna do fim de tarde. O som baixo da televisão se misturava ao leve zumbido do ar-condicionado. Michael estava sentado no sofá, com o semblante obstinado que eu já conhecia bem.
Você precisa passar mais tempo com a Charlotte — disse, sem erguer a voz. — Eu vou ficar bem.
Ele respondeu sem hesitar, o olhar fixo em mim:
Daren me pediu pra cuidar de você. É o que eu estou fazendo.
Antes que eu pudesse rebater, Scott apareceu no batente da porta.
Eu posso cuidar muito bem dela — disse, em tom mais baixo, quase ofendido.
Olhei para ele e sorri de leve. Desde que sua mãe e meu padrasto anunciaram o noivado, Scott vinha se tornando uma presença constante. Às vezes ficava comigo até tarde, conversando, esperando o sono me vencer. Era uma boa companhia, uma presença silenciosa e reconfortante num momento em que tudo parecia instável.
Mas a minha operação estava cada vez mais próxima e, por mais que eu tentasse parecer tranquila, o medo me corroía em silêncio.
Suspirei.
Michael, vai embora. — O tom saiu mais suplicante do que eu pretendia. — A Charlotte fica incomodada com isso.
Ele cruzou os braços, impassível.
Você é minha melhor amiga, Alexandra. Não seja teimosa. Aproveita a minha companhia.
— Eu só quero um pouco de espaço — murmurei.
E eu só quero garantir que você fique bem. — A voz dele saiu mais baixa, quase um sussurro.
Rendi-me. Pedi que me trouxesse uma água de coco. Ele levantou sem reclamar e voltou alguns minutos depois, entregando-me o copo.
Obrigada. — disse, tentando suavizar o clima.
Ele sorriu, com aquele ar protetor que, às vezes, me sufocava.
Se a Charlotte não entende a nossa amizade, é um problema dela. Eu vou continuar cuidando de você.
— Michael, você está me sufocando.
E vou continuar — respondeu, meio brincando, meio sério.
Desisti de insistir. Ele não mudaria de ideia.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem da Nick.
Chat on
Nick
—Nick: Alex, não fica triste. A Charlotte te ama muito, só que às vezes exagera.
— Eu: Está tudo bem, de verdade.
— Nick: Você ficou magoada, eu sei.
— Eu: Fiquei. Mas não quero falar sobre isso.
— Nick: Desculpa :(
Eu: Estou tentando convencer o Michael a ir embora, mas ele não quer.
— Nick: Você está sendo dura com ele. Ele te ama como irmã. A Charlotte é quem precisa entender isso.
Eu: Mas ele também precisa lembrar que tem uma namorada.
Nick: Ah, Alex... às vezes a gente exige equilíbrio de quem está tentando salvar o outro.
Chat off
Guardei o celular.
Discutir com Nick ou com Michael era inútil, os dois tinham o mesmo dom irritante de estarem certos.
A casa estava silenciosa, e o tempo parecia arrastar-se em câmera lenta. Às vezes, Michael e Scott subiam para o quarto do Scott e passavam horas jogando videogame. Eu aproveitava esses momentos para ligar para Daren. Subi as escadas devagar, sentindo o corpo pesado, a mente cansada. No quarto, liguei o computador. O rosto de Daren apareceu na tela, iluminado por uma luz suave.
[Vídeo chamada: ON]
— Oi, Alex. — sorriu.
— Oi, Daren. Como você está?
— Com saudades. — respondeu sem hesitar. — E você?
Soltei um riso breve.
— Tentando respirar. Pede pro Michael me deixar em paz. Ele não sai daqui.
Ele riu baixo, encostando o queixo na mão.
— Fui eu quem pediu pra ele ficar com você, lembra?
— Sim, mas eu já tenho minha mãe pra isso. — Pausa. — A Charlotte precisa mais dele do que eu.
Daren suspirou, resignado.
— Tá bem.
Houve um silêncio leve, quase confortável.
— E a viagem? — perguntei. — Você e seu pai estão se entendendo melhor?
Um sorriso discreto surgiu no rosto dele.
— Aos poucos. Ele ainda é o mesmo homem exigente de sempre, mas... ontem fomos pescar juntos. Foi bom. Acho que estamos reaprendendo a conversar.
Sorri de volta.
— Fico feliz. Você merece isso, Daren.
Ele me olhou com ternura.
— Eu já tenho o que mereço, Alex. Tenho você.
Senti o rosto aquecer. O silêncio que veio depois foi cheio — não de constrangimento, mas de algo mais profundo, uma paz que só a presença dele trazia.
— Estou com sono — murmurei. — Vou dormir um pouco.
— Tá. Boa noite, meu amor.
[Vídeo chamada: OFF]
Fechei o notebook e me recostei na cama. A casa estava quieta. Lá fora, o vento movia as cortinas, e o som distante da rua se misturava à minha respiração. O cansaço era mais emocional do que físico. Ficar confinada entre o tédio, a expectativa e a saudade estava me deixando instável, como se, a cada dia, eu me afastasse um pouco mais de quem eu era antes da doença.
Fechei os olhos.
O sono veio devagar, carregado de pensamentos confusos, Charlotte, Michael, Daren, Scott. Pessoas que, de formas diferentes, orbitavam a minha vida.
E, por um instante, antes que a escuridão me tomasse por completo, eu desejei apenas que tudo voltasse a ser simples

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