Nicolle
Fazia quase duas semanas desde o baile.
Duas semanas desde que tudo começou a parecer... estranho. Alexandra não mandava mensagem, não aparecia nas aulas, e o Daren... o Daren andava diferente. Ele evitava olhar pra gente, passava os intervalos sozinho e, quando alguém perguntava da Alex, ele desviava o olhar e mudava de assunto. No começo, achei que eles tinham brigado. Mas, com o passar dos dias, a preocupação começou a me corroer por dentro. Na décima terceira mensagem não respondida, eu decidi que já tinha esperado demais.
Peguei o carro e fui até a casa dela.
A cada quarteirão que eu passava, a angústia só aumentava. Quando estacionei em frente à casa dos Cameron, senti um aperto no peito, estava tudo... silencioso demais. As cortinas fechadas, o jardim sem movimento, o portão meio entreaberto.
Toquei a campainha. Esperei.
Nada.
Toquei de novo, e dessa vez ouvi passos apressados.
A porta se abriu, revelando senhora Cameron.
Ela parecia exausta, olheiras profundas, cabelo preso às pressas, e um olhar carregado de algo que eu não soube identificar de primeira.
— Nicolle? — disse, surpresa. — O que você está fazendo aqui, querida?
Engoli em seco.
— Eu... eu só queria saber da Alex. Ela não atende minhas mensagens, nem vai à escola. Aconteceu alguma coisa?
A expressão dela mudou, o sorriso sumiu, e os olhos ficaram marejados.
Ela suspirou, abrindo um pouco mais a porta.
— É melhor você entrar.
Entrei devagar, o coração martelando no peito. O silêncio da casa me deixava nervosa, como se até o ar tivesse medo de fazer barulho.
— Senhora Cameron... — comecei, hesitante. — A Alex tá bem?
Ela respirou fundo.
— Nicolle, a Alexandra passou mal na noite do baile.
Senti um arrepio subir pela espinha.
— Como assim, passou mal?
— Ela desmaiou — respondeu, a voz trêmula. — Teve uma dor muito forte no peito, e desabou na frente de todos. Levamos ela pro hospital às pressas.
O chão pareceu sumir sob meus pés.
— O... o quê? — gaguejei. — E ela... ela está bem agora?
Ela assentiu devagar.
— Está se recuperando, mas ainda precisa de cuidados. Ela teve uma complicação cardíaca, e os médicos descobriram que é algo que vem desde o nascimento.
Eu levei a mão à boca, sentindo as lágrimas queimarem os olhos.
— Meu Deus...
Por um momento, não consegui dizer mais nada. O nó na garganta me impedia de falar.
— Posso vê-la? — perguntei finalmente, a voz saindo quase num sussurro.
Senhora Cameron sorriu de leve.
— Claro, querida. Ela vai gostar de ver você.
Subimos as escadas, e ela parou diante da porta do quarto.
— Ela dormiu há pouco, mas pode entrar. Só... tenta não fazer barulho, tudo bem?
Assenti e entrei.
O quarto da Alex parecia o mesmo de sempre cheio de livros, luzinhas penduradas, e aquele perfume doce no ar. Mas ela... ela estava diferente. Pálida. Frágil. Um monte de remédios sobre a mesinha ao lado da cama.
Ela dormia, com o rosto tranquilo, mas havia algo pesado no ar como se a qualquer momento o silêncio pudesse se quebrar e tudo desmoronar.
Senti o peito apertar.
— Ai, Alex... — sussurrei, me aproximando.
Foi então que ouvi uma voz atrás de mim:
— Achei que você não viria.
Virei rápido.
Daren estava encostado no batente da porta, com as mãos nos bolsos e um olhar cansado.
Por um segundo, fiquei sem reação. Depois, a raiva veio de uma vez.
— Você sabia, não sabia? — apontei pra ele. — Você sabia o tempo todo e não contou pra gente!
Ele desviou o olhar, respirando fundo.
— Eu vi. — disse baixinho. — Eu vi quando ela caiu.
Meu estômago revirou.
— E você mentiu! — gritei em sussurro, tentando não acordar Alex. — A gente te perguntou no baile, Daren! Você disse que ela só não quis vir!
Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente arrependido.
— Eu não queria preocupar vocês... eu também estava em choque. Eu pensei que fosse só um desmaio, mas depois... — ele fechou os olhos. — Depois eu descobri o que realmente era.
Senti as lágrimas escorrerem.
— Você tinha que ter contado! A gente é amiga dela, Daren! A gente merecia saber!
Ele ergueu a voz pela primeira vez:
— E o que vocês iam fazer, Nicolle?! Entrar no hospital gritando e assustar ela mais ainda? — o tom era de dor, não de raiva. — Eu fiz o que achei certo na hora, tá? Eu fiquei com ela o tempo todo, não saí do lado dela nem por um segundo.
As palavras dele me cortaram.
Por um instante, o silêncio voltou, pesado.
Olhei pra Alex, dormindo, tão calma. E percebi que, apesar de tudo, Daren também estava quebrado por dentro.
— Ela vai ter que fazer uma operação — ele murmurou. — Um transplante.
Olhei pra ele, horrorizada.
— Um transplante? De quê?
— De coração. — respondeu, sem conseguir me encarar.
Senti as pernas fraquejarem. Me apoiei na mesinha, tentando respirar.
A ideia de perder a Alex... era insuportável.
— Ela sabe? — perguntei, a voz quase sumindo.
— Sabe. — ele respondeu. — E tá tentando ser forte.
Olhei pra ela de novo, sentindo o peito doer.
Ela parecia tão tranquila, mas agora eu sabia o quanto ela estava lutando. Me aproximei e segurei sua mão com cuidado.
— Você vai sair dessa, tá me ouvindo? — murmurei. — E quando sair, eu vou te xingar por você não ter contado isso para a gente.
Daren suspirou, se aproximando também.
— Ela vai ficar bem. Eu prometo. — ele completa, baixinho, a voz quase se desfazendo no ar.
Olho pra ele e vejo, pela primeira vez, o verdadeiro Daren, não o garoto sarcástico e confiante do colégio, mas um menino exausto, com medo, com os olhos marejados e as mãos trêmulas. Ele tenta parecer forte, mas o peito dele sobe e desce rápido demais.
— Não promete o que não sabe cumprir. — murmuro, encarando o chão. — A gente não tem esse poder, Daren.
Ele aperta os punhos, a voz falha:
— Então me diz o que eu faço, Nicolle! — explode, mas em sussurro contido, para não acordar Alex. — Me diz o que eu faço pra não enlouquecer vendo ela assim!
O grito silencioso dele me desmonta.
Eu não esperava que ele... sofresse tanto.
Daren sempre foi o tipo de cara que se esconde atrás de piadas, que finge que nada o atinge. Mas agora... ele está despedaçado.
Dou um passo em direção a ele.
— Você podia ter falado comigo. — digo, ainda tremendo. — Eu teria ficado do seu lado. Eu teria ficado do lado dela.
Ele passa as mãos no rosto, como se quisesse apagar tudo.
— Eu sei. — respira fundo. — Mas ela me pediu pra não contar. Disse que não queria que ninguém a olhasse com pena... e que, se você soubesse, viria correndo pra cá.
— E eu vim. — respondo, firme, com lágrimas nos olhos. — Porque é isso que a gente faz por quem ama.
Ele me encara por um momento, os olhos marejados, mas sem conseguir responder.
O silêncio se instala entre nós, quebrado apenas pelo som do relógio e o respirar leve da Alex.
Me viro de novo pra ela.
O coração dói de vê-la assim, a menina que sempre ria alto, que sabia de todas as respostas para todas as perguntas mas tinha vergonha de responder em público, agora tão frágil, tão quieta. Ela parece dormir profundamente, alheia ao caos que nos consome ali.
— Ela vai conseguir. — sussurro, mais pra mim do que pra ele.
— Vai. — Daren repete, num tom que soa como uma prece.
Sento-me na beira da cama e passo os dedos devagar pelo cabelo dela, afastando uma mecha do rosto.
Sinto a garganta fechar de novo.
— Eu devia ter vindo antes.
— Não adiantaria. — ele diz, a voz mais calma agora. — Nos primeiros dias ela dormia quase o tempo todo... estava muito fraca.
— Ainda assim. — respondo. — Eu devia ter tentado.
Ele não responde, e o silêncio volta, confortável dessa vez.
O tempo parece parar, como se o mundo lá fora não existisse.
Depois de um tempo, Daren fala:
— Ela vai precisar ficar de repouso até a cirurgia. E depois... vai ter que se afastar da escola por uns meses.
Fecho os olhos, respirando fundo.
O internato sem a Alex. As aulas, as risadas, as confusões, tudo sem ela.
É como imaginar um céu sem cor.
— Quando é a operação? — pergunto.
— No início do ano. — ele responde. — Assim que encontrarem um doador compatível.
Engulo em seco e balanço a cabeça.
Não confio na minha voz agora.
Depois de um tempo, desço as escadas em silêncio. Senhora Cameron está na cozinha, preparando chá. Ela me olha com ternura, e eu vejo em seus olhos a força de uma mãe que tenta não desabar.
— Obrigada por deixar eu vê-la. — digo, tentando sorrir.
— Ela vai gostar de saber que você veio. — ela responde, tocando meu braço com carinho. — A presença dos amigos dela é importante, mesmo que ela ainda não possa receber visitas com frequência.
Assinto, sentindo um peso enorme no peito.
Antes de sair, olho mais uma vez pra escada.
O quarto dela está lá em cima, cheio de luzinhas, de sonhos, de esperança.
Lá fora, o céu está carregado, e gotas de chuva começam a cair. Caminho até o carro devagar, o coração apertado. Quando entro e fecho a porta, o mundo parece finalmente desabar. A primeira lágrima cai sem aviso, e logo depois vem a segunda, e a terceira.
A Alex está doente.
Gravemente doente.
E a gente nem fazia ideia.
Ligo o carro e fico alguns segundos sem conseguir arrancar.
O som da chuva batendo no para-brisa parece acompanhar o ritmo do meu coração rápido, confuso, desesperado.
Antes de sair, olho pelo espelho retrovisor.
Vejo a casa azul dos Cameron ficando menor a cada segundo, e penso em tudo o que a gente ainda não viveu.
Sussurro pra mim mesma:
— Você vai sair dessa, Alex. Eu juro que vai.
E então, pela primeira vez, percebo o quanto o mundo pode parecer vazio.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
