Daren
O quarto estava silencioso, exceto pelo som suave da respiração de Alex. A luz do abajur criava um tom amarelado, deixando o ambiente com aquele ar de tarde preguiçosa e acolhedora. Eu estava deitado no sofá, e ela meio deitada sobre mim, o corpo encaixado perfeitamente ao meu. Meus dedos deslizavam pelos fios loiros do cabelo dela, e o toque era quase viciante, macio, quente, com aquele cheirinho doce de shampoo de baunilha que ela sempre usava. O coração batia rápido, e não era por causa de desejo, mas de um tipo de calma que só ela sabia me dar. Estar ali, com Alex, me fazia esquecer do mundo — dos problemas, da raiva, das lembranças ruins.
— Daren? — a voz dela soou baixinha, quase um sussurro, e quando olhei para ela, vi as bochechas coradas e os olhos verdes cheios de hesitação.
— O que foi? — perguntei, curioso, passando o polegar na bochecha dela.
— Eu gosto de você... de verdade. — Ela disse, e no instante seguinte desviou o olhar, envergonhada, mordendo o lábio inferior.
Sorri. Era impossível não sorrir.
— Eu também gosto de você, nerd. — falei num tom leve, provocando, só pra vê-la rir.
Ela soltou uma risadinha tímida e se aconchegou de novo no meu peito, escondendo o rosto. Eu voltei a fazer cafuné, deslizando os dedos por entre os fios dourados. Era estranho. Eu estava completamente envolvido com uma garota loira e eu odiava loiras. Pelo menos achava que odiava. A vagabunda da minha mãe era loira, e desde então, qualquer mulher com aquele mesmo tom de cabelo me trazia à mente tudo que eu desprezava: falsidade, abandono, traição.
Mas Alex... Alex era diferente.
Ela tinha uma luz própria. Era simpática, gentil, e o tipo de pessoa que enxergava o lado bom das coisas, mesmo quando tudo estava desmoronando. Com as amigas, era divertida e expansiva, mas com o resto do mundo, tímida e reservada e talvez fosse exatamente essa dualidade que me deixava tão preso nela.
De repente, o som da campainha quebrou o clima de tranquilidade.
— Deve ser o Scott — disse ela, sentando-se e ajeitando o cabelo rapidamente. — Filho do namorado da minha mãe. Ele veio jantar aqui hoje porque nossos pais saíram pra um jantar de negócios.
Revirei os olhos, já prevendo encrenca.
— Claro, o famoso Scott... — murmurei, irônico. — O cara que ninguém chamou mas sempre aparece.
Ela deu um tapinha leve no meu braço e desceu as escadas primeiro. Fui atrás, devagar, tentando esconder o mau humor.
Alex abriu a porta e lá estava ele: um garoto alto, cabelo penteado com gel, camisa polo branca e aquele sorriso presunçoso que parecia ensaiado.
— Não sabia que você tinha irmão, Alex — disse ele, com um tom ligeiramente insinuante, o olhar fixo nela.
Dei um passo à frente antes que ela pudesse responder.
— E não tem. — Cruzei os braços, encarando-o. — Sou o namorado dela.
A expressão dele mudou por um instante, os olhos desviando para mim.
— Ah... entendi. — Ele tentou disfarçar a surpresa com um meio sorriso. — Posso entrar, ou as boas-vindas são só na porta?
— Não seria má ideia se ficasse aí mesmo — falei, estreitando o olhar. — Assim a gente aproveita o jantar em paz.
— Daren! — Alex me repreendeu, corando e cruzando os braços. — Pode entrar, Scott.
Ele passou por mim, e propositalmente esbarrou no meu ombro, fingindo que foi sem querer. O cheiro forte do perfume caro dele ficou no ar. Eu travei a mandíbula, segurando a vontade de mandá-lo voltar de onde veio.
— Tem comida na mesa, pode ficar à vontade — disse Alex, tentando quebrar o clima.
Sentamo-nos para jantar. O Scott falava demais, sempre puxando assunto com ela, perguntando sobre a escola, sobre música, sobre viagens. Eu me metia no meio de cada conversa, dando respostas curtas e afiadas, só pra deixá-lo sem graça.
Ele ria de qualquer coisa que Alex dizia, até mesmo do que não tinha graça. E quanto mais ele ria, mais eu sentia o sangue ferver.
Depois do jantar, Alex, toda paciente, propôs:
— Que tal a gente assistir um filme? Eu pego os cobertores, e vocês dois escolhem o que ver.
Olhei pra ela como quem implora pra não deixar os dois sozinhos nem por um segundo, mas ela já estava subindo as escadas.
Assim que ela sumiu, o Scott cruzou os braços e soltou, casual:
— Eu acho que a gente devia assistir um filme de terror.
— Minha namorada não gosta. — respondi firme. — A gente pode ver um de ação.
— Sua namorada não gosta... ou você que tem medo de terror? — ele provocou, com aquele sorrisinho idiota. — Se a Alex ficar com medo, eu posso protegê-la. Afinal, meu pai e a mãe dela vão casar, né? Vamos ser praticamente família.
O som de raiva que escapou da minha garganta foi baixo, mas suficiente pra que ele entendesse o perigo. Eu me levantei devagar, chegando bem perto, até que nossos rostos ficaram a poucos centímetros.
— Você não me provoca. — murmurei, com a voz rouca.
Ele recuou um passo, ainda com o sorriso debochado, mas os olhos denunciavam o nervosismo. E foi nesse momento que Alex apareceu na escada, com dois cobertores azuis dobrados nos braços, o cabelo solto caindo sobre os ombros.
— Que filme vocês escolheram? — perguntou, sem perceber o clima pesado que pairava no ar.
Os dois nos viramos para ela, tentando disfarçar. Scott limpou a garganta, e eu apenas respirei fundo, contando até dez pra não fazer besteira. Alex olhou de um para o outro, confusa, e eu soube naquele instante que aquela noite ainda estava longe de acabar.
O som da televisão preencheu o silêncio que ficou depois do jantar. Scott mexia no controle remoto, com aquele ar de quem queria parecer descolado. Alex estava sentada ao meu lado, enrolada no cobertor, o rosto ainda corado depois da confusão na mesa.
— Insidious — falou Scott, com um sorriso provocador, jogando o título na tela.
Alex fez uma careta imediata, cruzando os braços.
— Terror? Nem pensar. — emburrou o rosto, o nariz franzido. — Você sabe que eu não gosto.
Inclinei-me até ela, roçando meus lábios perto do ouvido dela, só o suficiente pra sentir o perfume suave do cabelo.
— Eu protejo você. — sussurrei, baixo, com um tom que a fez arrepiar.
Ela mordeu o lábio e assentiu, rendida.
Sentamos no sofá maior, eu e Alex juntos, as pernas quase entrelaçadas, e Scott no sofá oposto, fingindo que não nos olhava, mas o olhar dele sempre voltava pra ela. O filme começou, a luz da sala foi diminuída, e logo as sombras dançavam nas paredes. Dois minutos depois, senti o peso leve da cabeça de Alex caindo sobre o meu ombro. Olhei pra ela, dormia profundamente, os cílios longos tocando as bochechas. Soltei um riso baixo; claro que ela ia dormir no começo de um filme de terror. Peguei o celular e vi as horas. Já era tarde, e se meu pai voltasse pra casa e não me encontrasse, eu estava ferrado.
Desliguei a TV e me levantei com cuidado, segurando Alex nos braços. Ela era leve, tão pequena ali no meu colo que parecia feita pra caber nele. Subi as escadas em silêncio, o coração batendo mais devagar só de olhar o rosto calmo dela.
Deitei-a na cama, ajeitei o cobertor até cobrir os ombros e encostei os lábios na testa dela.
— Boa noite, nerd. — murmurei, num carinho silencioso.
Quando apaguei a luz, o quarto se encheu de pequenos pontos brilhantes — luzinhas coloridas presas na parede. Sorri sozinho, surpreso com aquilo. Minha namorada tinha medo do escuro. Uma infantilidade linda, que me fez gostar ainda mais dela.
Fechei a porta devagar e desci as escadas. Scott ainda estava na sala, encostado no batente, com um sorriso debochado no rosto.
— Dormiu rápido, né? — disse ele, cruzando os braços.
Ignorei o comentário, mas o olhar dele me fez travar os punhos. Eu só não parti pra cima dele porque a Alex não merecia descobrir que eu desfigurei o rosto do "irmãozinho" dela. Passei por ele em silêncio e saí. A noite estava fria, o vento batendo no rosto enquanto eu dirigia de volta pra casa. Quando cheguei, meu pai ainda não tinha voltado. Suspirei de alívio, fui direto pro banheiro e deixei a água quente cair sobre mim. Depois vesti uma calça de moletom, sem camisa, e me joguei na cama, ainda com o cheiro do perfume da Alex preso na pele.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
