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Daren

Estava no meu quarto, jogado na cama, com Samantha no meu colo, falando sem parar. Cada frase dela parecia ecoar, mas eu não estava prestando atenção. Minha mente estava em outro lugar, no baile dos finalistas, nas garotas que eu podia conquistar, na noite perfeita que me esperava.
Entendeu, amor? — perguntou ela, com aquele sorriso que parecia esperar alguma resposta.
Olhei para ela, tentando parecer interessado, mas por dentro só pensava: Entendi o quê? Essa mina só sabe tagarelar.
Ah, sim... sim, entendi — falei, forçando a voz calma e um sorriso que não chegava aos olhos. Chata pra caralho.
Ela riu, bateu de leve no meu peito e me deu um selinho.
Tá, meu fofinho, vou indo. Beijos!
A porta se fechou com aquele clique seco que parecia gritar "agora você se vira sozinho". Fiquei ali, no silêncio do quarto, pensando no que fazer. O baile dos finalistas estava chegando, e mesmo eu não sendo um finalista, sabia que ia causar. Nenhum lugar melhor para se divertir e conhecer garotas novas. Peguei o celular e abri o WhatsApp. Precisava falar com os moleques, alinhar o plano da noite.
E aí, minhas gatinhas — digitei, com aquele sorriso torto de quem já imaginava a noite.
Oi, meu amor <33 — veio a resposta, cheia de emojis e risadas.
Oi, vida. E aí, como foi com a Samantha? — perguntou outro, curioso.
Mina chata do caralho. E pra piorar, ainda tenho que ir pra biblioteca estudar com a nerd — respondi, jogando o celular de leve na cama, revirando os olhos.
O nome dela é Alexandra, já falei pra você não chamar de nerd — veio a bronca, com aquele tom que misturava irritação e brincadeira.
Ih, tá apaixonado pela nerd? — provoquei, sentindo uma pontada de diversão com a reação que viria.
Claro que não. Só não gosto quando você chama ela de nerd sabendo o nome dela — respondeu, com um suspiro frustrado.
Por outras palavras... apaixonado — cutuquei de novo, sentindo um sorriso se formar nos meus lábios.
Eu namoro a Kathleen, me respeitem, bando de viados — veio a defesa, meio ríspida, meio divertida.
E pega a Kayla — eu não resisti, rindo por dentro.
Mandou bem. Duas loiras gatas nos seus pés — ele respondeu, cheio de orgulho.
Quem pode, pode, seus FDP — encerrei, jogando o celular de lado e recostando na cabeceira.
Tomei um duche rápido, deixando a água quente lavar o cansaço do dia, e depois fui direto para a biblioteca. Ela estava lá, quieta, concentrada nos livros. Os olhos azuis dela me prenderam de imediato, como se fossem imãs. A feição angelical, os cabelos loiros e lisos que pareciam cheirosos mesmo à distância... tudo nela transbordava calma e serenidade. Ela parecia visivelmente introvertida, quase deslocada no mundo barulhento à nossa volta.
E aí, nerd — falei, cumprimentando de forma automática, mais pelo hábito do que por interesse genuíno.
Oi, Daren. Já falei para você que meu nome é Alexandra — respondeu, a voz suave, ligeiramente tensa. Pude perceber que ela não estava totalmente à vontade comigo; talvez por eu sempre tratá-la mal. Mas sinceramente, não me importei.
Podemos começar? — ela perguntou, tentando manter a neutralidade.
Se tem mesmo de ser — falei, com aquela cara de tédio que sempre aparecia quando algo não me interessava de verdade.
Alexandra, quero dizer a nerd, explicou com paciência como deveríamos fazer o trabalho. Estranhamente, parecia simples. Ficamos horas naquela biblioteca, mergulhados nos livros e anotações, quando ela finalmente disse:
— Eu estou faminta... vou pegar algo para comer. Você quer alguma coisa?
Fiquei confuso, a pergunta me pegou de surpresa. — Por que? — perguntei. — Por que me trata bem?
Sei lá, não tenho motivos para tratar você mal — disse, dando de ombros, com um sorriso pequeno que parecia genuíno.
— Não, eu não quero nada, obrigado — respondi, tentando parecer indiferente, mas sentindo uma pontada de estranha frustração por ela ser tão tranquila comigo.
Enquanto ela caminhava em direção à porta, meus olhos não conseguiram desviar do corpo dela. Alexandra tinha curvas delicadas, uma bunda arrebitada, pernas finas e compridas. Mas o que mais me deixava excitado era aquela cara de anjo, aquela serenidade que escondia qualquer malícia.
Uns quinze minutos depois, ela voltou com uma bandeja cheia de comidas gostosas. As regras da biblioteca proibiam comer ali, mas todo mundo parecia ignorar essas normas, inclusive a nerd.
Aqui, vamos comer? — ela sorriu, colocando a bandeja sobre a mesa com cuidado.
Eu falei que não queria nada — falei, olhando para ela, tentando manter a postura.
Eu sei. Se você não quiser comer, não come. Mas eu trouxe contando com você — disse, sentando-se de frente para mim, sem perder o sorriso.
Não falei nada, mas acabei pegando um sanduíche e comendo. Depois de terminar, olhei para ela, que ainda mordia o seu.
Você fica linda comendo — falei, sem perceber o quanto minha voz saiu alta.
Ela corou, desviou o olhar, e murmurou: — Obrigada...
Terminamos o trabalho só por volta das 20:30. Alexandra fez menção de se levantar:
Como já terminamos, vou andando — disse calmamente.
Mas eu a segurei pela mão antes que pudesse sair.
Ner... Alexandra, me desculpa pelo dia nas arquibancadas. Eu não deveria ter falado aquilo do seu pai. Eu... eu só estava estressado com minhas coisas e acabei descontando em você. Nunca foi minha intenção magoar você — falei, sentindo uma pontada de sinceridade e vergonha.
Sem problemas — ela sorriu, com a delicadeza que sempre carregava, e saiu.
Fiquei parado ali, olhando Alexandra se afastar, cada passo dela parecia gravado na minha mente. Até que Samantha apareceu do nada, me assustando com a voz estridente:
Por que está secando a nerd? — perguntou, olhando com aquela expressão dramática de sempre.
Não te interessa — respondi, virando as costas e saindo dali.
Deitei-me de costas na cama, sentindo o colchão afundar sob o meu peso. O quarto estava silencioso, exceto pelo zumbido distante da rua lá fora e pelo tic-tac do relógio que parecia mais alto do que realmente era. Fechei os olhos, mas a imagem de Alexandra não saía da minha cabeça. Cada detalhe, desde os olhos azuis hipnotizantes até o cabelo loiro e liso que parecia brilhar com a luz da biblioteca, insistia em se repetir como um filme que eu não queria parar de assistir.
Por que eu fico pensando nela tanto? — murmurei para mim mesmo, a voz quase um sussurro.
Sentei-me na cama, puxando os joelhos contra o peito. O silêncio pesava, mas era reconfortante de um jeito estranho, permitindo que meus pensamentos fluíssem sem interrupção. Lembrei de cada gesto dela, da paciência ao me explicar o trabalho, do jeito que segurou a bandeja com cuidado para não derrubar nada. Mesmo sendo "nerd", ela tinha um charme natural que eu nunca tinha notado antes ou talvez nunca tinha me permitido notar  Peguei o celular novamente, mas desta vez não queria falar com ninguém. Rolava as conversas antigas com os moleques, rindo por dentro das piadas, mas nenhuma delas fazia meu coração acelerar como o simples pensamento de Alexandra. O WhatsApp piscou com mensagens de Samantha, perguntando sobre o baile, mas eu apenas deixei no vácuo, incapaz de me concentrar em outra coisa que não fosse ela. Levantei-me, andando devagar até a janela, apoiando os cotovelos no peitoril. A noite estava calma, a lua refletindo nas ruas molhadas, e eu podia ouvir sons distantes da cidade. E ainda assim, nada disso parecia importar. Eu só queria estar de volta à biblioteca, apenas para olhar para ela mais uma vez, para ouvir o som suave da sua voz dizendo algo tão simples e ainda assim capaz de me deixar inquieto.
Que droga, Daren... — resmunguei, apertando as mãos contra o vidro da janela. — É só uma garota, mas parece que ela mexe comigo de um jeito que ninguém mais mexe.
Voltei para a cama, puxando o cobertor até o queixo. Cada movimento dela me vinha à mente: a forma como se inclinava sobre os livros, o jeito que mordia o sanduíche sem perceber, o sorriso tímido que apareceu quando eu disse que ela ficava linda comendo. Senti uma pontada de vergonha, percebendo que minhas palavras haviam saído antes de eu pensar. Mesmo assim, o efeito que teve sobre ela, o jeito que corou, continuava a ecoar dentro de mim, e eu não conseguia parar de imaginar: e se eu tivesse dito mais? E se eu tivesse sido mais sincero antes?
Peguei o celular de novo, rolando sem objetivo. Mensagens antigas, memes dos moleques, piadas que já tinham perdido a graça. Nada parecia preencher o espaço que ela ocupava na minha mente. Respirei fundo, tentando encontrar alguma lógica, algum jeito de organizar o turbilhão de pensamentos e sentimentos que me consumia. Mas era inútil: cada lembrança dela só deixava tudo mais confuso. Olhei para o teto, os olhos fixos no branco da pintura, imaginando como seria se eu realmente me aproximasse, sem provocações ou ironias. Talvez só conversar, talvez rir juntos sem nenhum motivo aparente, talvez conseguir entender um pouco mais daquele mundo tranquilo que ela parecia carregar dentro de si. Um mundo completamente diferente do meu, mas que de algum modo me atraía como um ímã.
O relógio marcava quase meia-noite quando finalmente me deitei de lado, abraçando o travesseiro. Minha mente ainda estava cheia dela, dos detalhes que eu nunca tinha notado e do efeito silencioso que ela tinha sobre mim. Fechei os olhos, tentando finalmente descansar, mas o rosto de Alexandra continuava lá, insistente, presente, me seguindo até o momento em que o sono finalmente me engoliu, me levando para sonhos onde talvez, só talvez, eu tivesse coragem de me aproximar dela de verdade.
O sono me levou devagar, como se cada segundo fosse alongado por uma força invisível, e logo me vi em um lugar que parecia estranho e familiar ao mesmo tempo. Estava de volta à biblioteca, mas não era a biblioteca real. As luzes estavam mais suaves, os corredores mais longos, e o silêncio tinha uma textura quase palpável, como se eu pudesse tocá-lo. Alexandra estava lá, sentada em uma mesa, mas parecia mais etérea, quase brilhando sob uma luz que não vinha de lugar nenhum. Ela olhou para mim, e o sorriso tímido que sempre aparecia quando eu dizia algo inesperado se transformou em algo mais profundo, carregado de uma curiosidade silenciosa. Caminhei até ela, cada passo ecoando como se o chão estivesse feito de vidro. Quando me aproximei, notei detalhes que talvez nunca tivesse percebido de verdade: o jeito que seus dedos se moviam com delicadeza sobre o livro, a leve inclinação da cabeça, o brilho quase imperceptível nos olhos azuis que parecia me sondar por dentro.
Daren... — disse ela, e a voz parecia ao mesmo tempo próxima e distante, como se viesse de dentro da minha própria mente.
Alexandra... — respondi, mas a minha voz soou estranhamente fraca, diferente de como eu falo no mundo real. — Por que você... parece tão diferente aqui?
Ela apenas sorriu, e naquele sorriso havia algo que me desarmava completamente. Algo que dizia que ela via além das minhas provocações, do meu jeito despreocupado, do meu escudo de sarcasmo. De repente, senti uma vontade intensa de tocar sua mão, de sentir a realidade dela junto com a minha. E quando toquei, tudo ao redor vibrou, e eu senti uma estranha mistura de calor e eletricidade que me percorreu da cabeça aos pés.
Você sempre me nota agora — disse ela, com aquela voz doce que me fazia perder o fôlego. — Mesmo quando tenta parecer desinteressado, mesmo quando me provoca.
Fiquei sem palavras, porque era verdade. Eu sempre a notava, talvez mais do que queria admitir. Talvez mais do que qualquer outra pessoa que eu tivesse conhecido. Meu coração acelerou, e a respiração ficou pesada, como se o ar tivesse densidade suficiente para me prender.
Ela se levantou lentamente, aproximando-se mais, e cada passo parecia sincronizado com os batimentos do meu coração. — Por que você nunca me deixa ver você de verdade, Daren? — perguntou, os olhos azuis perfurando minha fachada de desinteresse.
Eu... eu não sei — confessei, sentindo uma estranha vulnerabilidade me dominar. — Eu sempre tento parecer... maior, mais confiante, mais seguro. Mas perto de você... é diferente.
Ela sorriu, e eu senti o peso do mundo se dissipar por um instante. — Talvez não precise ser diferente. Talvez você possa só... ser você.
Antes que pudesse responder, a biblioteca começou a desvanecer, as luzes se apagaram, e eu senti como se estivesse sendo puxado de volta para a realidade. Acordei com o coração acelerado, suado, e o quarto escuro parecia tão pequeno e silencioso quanto antes, mas agora carregava o peso do sonho.
Fiquei ali, imóvel, olhando para o teto, tentando processar cada sensação que aquele sonho havia deixado. Cada detalhe de Alexandra, cada toque imaginário, cada palavra dita, parecia tão real que quase doía. Era como se meu subconsciente estivesse me mostrando uma verdade que eu ainda não queria encarar: eu não estava apenas curioso sobre ela, eu estava completamente atraído, e a ficha ainda nem tinha caído de verdade. Peguei o celular novamente, mas dessa vez não havia vontade de rir ou provocar. Apenas queria encontrar alguma forma de sentir novamente aquele calor, aquele vínculo silencioso que existia, mesmo que fosse só em sonhos. O silêncio da madrugada parecia agora cheio de possibilidades, e pela primeira vez em muito tempo, eu não queria mais correr atrás de distrações ou festas. Eu queria entender Alexandra. Queria estar perto dela.

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