Angel
O quarto estava abafado, com o cheiro misturado de perfume adocicado e algum spray de cabelo que Samantha tinha usado minutos antes. Eu já estava começando a perder a paciência. Dividir um quarto no colégio interno já era uma chatice por si só, mas dividir com uma Cat era o inferno na Terra. Samantha, a ruiva espalhafatosa, não parava de tentar impor regras como se fosse a dona do espaço. Pior ainda: fazia questão de falar em tom mandão, como se eu e a outra colega de quarto, uma morena cujo nome ainda não sabia, tivéssemos que obedecer às ordens dela.
Revirei os olhos, peguei meu casaco e saí do quarto, decidida a respirar um pouco longe daquela arrogância. No corredor, senti o friozinho típico da Cheshire Academy, sempre com janelas abertas e cortinas pesadas balançando. Caminhei até o refeitório, distraída, pensando no quanto minha vida tinha dado uma guinada esquisita desde que pus os pés ali. Foi então que esbarrei em alguém. O choque foi leve, mas o suficiente para que o celular da garota caísse no chão.
- Foi mal - disse ela, abaixando-se rapidamente para pegar o aparelho.
- Me desculpe, sou uma distraída - respondi, passando a mão nervosa no cabelo rosa que sempre chamava atenção.
Ela levantou o rosto e eu quase perdi o fôlego. Cabelo preto, pele suave, olhos vivos que pareciam sorrir sozinhos. Ela me olhou de cima a baixo e soltou, com um sorriso fácil:
- Adorei seu cabelo rosa. Sou a Nicolle, prazer.
Estendeu a mão. Apertei sem pensar muito, ainda meio surpresa com a simpatia dela.
- Sou a Angel. E adorei o fato de você ter adorado meu cabelo - falei, tentando soar natural, mas rindo comigo mesma.
Nicolle riu também, um riso que era tão acolhedor que fez minha tensão diminuir. Então, do nada, ela me convidou:
- Quer conhecer meu quarto? Minhas amigas estão lá...e a gente pegou comida do refeitório à pouco.
Eu provavelmente teria hesitado se não tivesse ouvido a palavra mágica que ela usou logo em seguida: comida. Foi como acender uma luz nos meus olhos. Eu não recusaria.
Porque, para quem não sabe, eu sou a louca da comida. Amo comer, e sorte a minha: não engordo. É como se fosse um superpoder.
Segui Nicolle pelos corredores até que chegamos ao quarto dela. Ao abrir a porta, fui recebida por uma visão inesperada: duas meninas, ambas lindas, estavam jogadas entre travesseiros e livros.
- Alex, Char, essa é a Angel. Angel, essas são a Charlotte - apontou para a ruiva sorridente - e a Alexandra - apontou para a loira de olhar tímido.
As duas me olharam de imediato e, em uníssono, riram ao dizer:
- Oi, Pink.
Arqueei a sobrancelha, estranhando no começo, mas confesso que gostei do apelido.
- Não liga, Angel - explicou Alexandra com um sorriso doce. - Nós gostamos de nos chamar pela cor do nosso cabelo. É uma coisa nossa.
- Você não é metida como as "Cats"? - perguntou Charlotte, fazendo aspas com os dedos ao pronunciar o nome do grupo.
Soltei um suspiro dramático, levantando as mãos como quem espanta mau-olhado.
- Ihhh, sai pra lá, menina.
As três caíram na risada, e eu me vi rindo junto sem esforço. Era leve, era fácil. Não parecia forçado como tudo que envolvia as Cats.
Ficamos ali, sentadas, conversando como se nos conhecêssemos há anos. Elas fizeram um monte de perguntas sobre mim, curiosas de verdade, e não aquelas perguntas venenosas com segundas intenções. E, talvez pela primeira vez desde que cheguei, senti vontade de responder a todas.
Depois de um tempo, olhei para o relógio e quase pulei da cama.
- Nossa, gente, eu tenho que ir. Agora tenho aula de Biologia.
Fiz menção de sair, mas Alexandra se levantou de imediato, ajeitando a mochila no ombro.
- Espera, eu também tenho essa aula agora. A gente pode ir juntas. Até logo, meninas.
Charlotte e Nicolle acenaram, e nós duas saímos lado a lado.
O caminho até a sala B5 foi leve, cheio de conversas soltas. Descobri que Alex era tímida, mas tinha um jeito natural de me deixar à vontade, como se nossa amizade tivesse nascido ali, naquele corredor. Quando entramos na sala, ela escolheu o lugar ao meu lado sem pensar duas vezes. Gostei daquilo.
As aulas correram como sempre: rápidas demais, cheias de anotações e professores com mania de falar difícil. Até que o aviso veio: trabalho para sexta. Suspirei alto, emburrando a cara como uma criança.
- Trabalho para sexta? Nossa, que saco.
Alex riu da minha reação e, com um brilho divertido nos olhos, falou baixinho:
- Eu ajudo você, Angel.
Piscou para mim, e eu sorri sem jeito. Seguimos para a biblioteca depois disso. Era quarta-feira, e no nosso horário só tínhamos aquela aula, então aproveitamos para ficar lá estudando juntas.
O silêncio da biblioteca era quebrado apenas pelo arranhar das nossas canetas no papel e o folhear de páginas. Eu começava a gostar daquela ?tranquilidade quando uma sombra se aproximou da mesa. Levantei os olhos e vi. Um garoto. Lindo. E não lindo de qualquer jeito. Lindo como um deus grego saído de um filme, alto, cabelos bagunçados do tipo perfeito sem esforço, e um olhar que parecia arrogante demais para caber em alguém tão bonito.
Ele parou diante da mesa, cruzou os braços e falou, com uma grosseria que contrastava com a beleza dele:
- Aí, nerd. Já terminou nosso trabalho?
Alexandra congelou na hora. A mão dela tremia levemente sobre a folha, e a voz saiu baixa, atropelada.
- A-a-a-ainda não, Daren.
Pisquei algumas vezes, surpresa com a reação dela. Nerd? Trabalho? E por que parecia que eu tinha perdido alguma parte importante dessa história?
Olhei de Daren para Alex, e a sensação foi a mesma de estar no meio de uma cena que eu não deveria assistir mas da qual eu não conseguiria desviar os olhos.
- E quem você pensa que é para obrigá-la a fazer seu trabalho, seu idiota? - perguntei, sem me importar com a formalidade.
Ele arqueou a sobrancelha, surpreso, e respondeu com desdém:
- Não é da sua conta, sua intrometida. Quero o trabalho bem feito, nerd. - E virou-se, saindo como se tivesse vencido algum duelo que, na verdade, só existia na cabeça dele.
Olhei para Alex, o coração acelerado.
- Por que você deixa ele tratar você assim? - perguntei, mais preocupada do que zangada.
Ela desviou o olhar, tentando esconder a mistura de timidez e desconforto:
- Ah, esquece isso, Angel... sou nova aqui e não quero confusão com ninguém. - mentiu, com uma serenidade que escondia a insegurança evidente.
Eu sabia que a Alexandra tinha suas barreiras, sua timidez, e que evitava confrontos. Não era fraqueza, era cautela, maturidade em forma de medo do conflito. Diferente de mim, que não deixo que nada desagradável passe impune.
Terminamos nosso trabalho, e o silêncio confortável da biblioteca voltou a nos envolver. Sorri para ela, um plano se formando na minha mente:
- Amanhã você vai acordar com café da manhã na sua cama - falei, piscando. - Considere isso uma forma de agradecimento.
Alex riu, os olhos brilhando com o toque de humor e surpresa. Sorri de volta. Apesar de tudo, havia algo reconfortante em dividir aquele momento com ela. E, pelo menos em um aspecto, éramos iguais: "na fome". Não apenas pelo café da manhã, mas pela fome de pequenas alegrias, de amizade genuína, de momentos que não precisavam ser forçados.
A biblioteca ficou silenciosa novamente, mas o ar parecia mais leve. Havia risadas guardadas, olhares cúmplices e a sensação de que, finalmente, eu tinha encontrado alguém que entendia o meu ritmo, e que talvez, só talvez, a vida pudesse ser mais divertida do que o inferno que Samantha estava tentando impor no meu quarto. Quando saímos da biblioteca, o céu já estava tingido de um laranja suave, prenunciando o fim da tarde. A sensação de caminhar ao lado da Alex era estranhamente confortável, como se aquele corredor interminável da Cheshire Academy tivesse se transformado em algo familiar, mesmo sendo nosso segundo dia ali. Eu ainda não entendia como alguém tão tímida conseguia irradiar uma calmaria que quase fazia o mundo parecer menos caótico.
- Então... você realmente vai fazer café da manhã pra mim amanhã? - Alex perguntou, com aquele sorriso tímido que parecia iluminar seu rosto sem esforço.
- Claro! - respondi, fingindo entusiasmo, mas na verdade meu coração bateu mais rápido só de pensar na surpresa que iria preparar. - Mas não vai ser qualquer café da manhã. Vai ser o café da manhã de guerra, daqueles que te deixam pronta pra qualquer batalha da escola. Tipo, se a vida te lançar um Daren no caminho, você vai estar preparada pra esmurrar ele com a força de uma torrada bem amanteigada.
Alex riu baixo, meio sem jeito, e senti uma pontinha de satisfação. Havia algo na forma como ela se permitia rir quando eu exagerava que me fez pensar que talvez tivéssemos mais em comum do que só gostar de comida.
No caminho para o dormitório, nossas mochilas balançando nas costas, passei a observar mais detalhes: a forma como ela ajeitava o cabelo atrás da orelha, a leve inclinação da cabeça quando escutava atentamente, e até o jeito que seus sapatos batiam no chão, ritmados, como se marcassem um pequeno compasso secreto só nosso. Chegamos ao quarto, e o clima mudou de imediato. O ar abafado voltou a me incomodar, carregado pelo perfume adocicado que Samantha parecia reaplicar a cada dez minutos. Ela estava sentada na cama, com o celular em mãos, digitando freneticamente, mas o olhar dela levantou assim que entramos.
- Até que enfim, Pink, a gente conseguiu terminar o trabalho, né? - Alex comentou distraída, largando a mochila e sorrindo para mim antes de abrir o estojo.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas eu senti a atenção de Samantha virar na hora. Ela ergueu a sobrancelha, um sorriso venenoso aparecendo nos lábios.
- Pink...? - repetiu, como quem prova uma palavra nova. - Olha só, a Pink encontrou uma babá nova.
Engoli em seco, mas não respondi de imediato. Eu já tinha aprendido que Samantha se alimentava de reação. Alex abaixou a cabeça de novo, evitando confronto, e aquilo me deu vontade de pular da cama e falar tudo o que eu pensava. Mas preferi soltar apenas um sorriso de deboche.
- Inveja é feio, Sam. Cuidado, vai te dar rugas antes da hora.
O silêncio que veio depois foi quase tão satisfatório quanto uma vitória declarada. Alex escondeu um riso baixinho, e eu me joguei de costas na cama, certa de que estava apenas começando a me divertir naquele colégio.
Quando finalmente nos despedimos para ir embora, senti meu coração um pouco mais leve. A tarde havia sido longa, cheia de tensão e pequenas vitórias silenciosas, mas havia também risos, cumplicidade e a promessa de uma amizade que eu sabia que ia durar. Caminhando pelo corredor, olhando para as sombras alongadas no chão, pensei que talvez, só talvez, aquele dia tivesse sido o primeiro de muitos em que Alex e eu seriamos uma espécie de equipe secreta contra os absurdos da academia.
E, claro, que amanhã ela iria acordar com um café da manhã que poderia muito bem ser considerado arma letal contra qualquer Daren que ousasse cruzar o nosso caminho.
Porque, quando se trata de comida... e de proteger os amigos, eu nunca recuo.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
