Alexandra
Acordei com Nicolle me cutucando de leve.
— Acorda, menina, antes que a cobra desperte. — sussurrou ela, olhando para a cama da Charlotte.
— Tá, mas por quê? — perguntei, ainda sonolenta.
— Pra gente ir tomar café da manhã com os nossos namorados. — respondeu baixinho, com um sorriso travesso.
Me levantei meio confusa.
— Mas por quê? — repeti, piscando os olhos.
— Jason me mandou mensagem. Disse que o restaurante tá vazio e que vão colocar o buffet em breve. Então se apressa e vai logo tomar esse banho. — ordenou, rindo da minha cara de sono.
Assenti rapidamente e fui para o banheiro.
Durante esses dois dias aqui, mal consegui ficar com o Daren. A Sophie simplesmente não desgrudava dele, e isso me deixava com um nó no peito. Depois do banho, vesti um macaquinho preto confortável e calcei meus chinelos. Assim que saí, Charlotte, ainda meio sonâmbula, entrou no banheiro. Enquanto isso, Nicolle e eu começamos a arrumar nossas malas. Quando Charlotte terminou, ajudamos ela a dobrar as roupas e descemos juntas.
O restaurante estava tranquilo, com uma música ambiente suave tocando. Os meninos já estavam sentados mas Daren parecia cansado, Jason com aquele sorriso de sempre e Michael mais interessado no próprio copo de suco do que em qualquer conversa.
Aproximei-me do Daren e beijei de leve a bochecha dele.
— Bom dia. — murmurei.
— Bom dia. — respondeu ele, me olhando de um jeito calmo, quase carinhoso.
Sentei-me ao lado dele e olhei para os outros.
— Que horas a gente sai? — perguntou Nicolle, ajeitando o cabelo.
— Às dez. — respondeu Michael, com a voz ainda rouca de sono.
Jason bocejou e apoiou o queixo nas mãos.
— Alguém me explica como vocês conseguem acordar tão animadas assim?
— É chamado de energia feminina. — respondeu Nicolle, com um sorriso provocante.
— É chamado de excesso de café. — brincou Michael, arrancando risadas da mesa.
O buffet foi finalmente colocado na mesa central: frutas frescas, panquecas, torradas, ovos mexidos e sucos coloridos. O cheirinho de comida recém-feita deixou todo mundo mais desperto.
— Eu vou servir pra gente. — disse Daren, se levantando.
— Eu vou junto! — falei rapidamente, levantando também.
— Românticos. — resmungou Jason, fingindo desgosto. — Aposto que vão se servir do mesmo prato.
— E você morre de inveja. — respondeu Nicolle, rindo.
Voltamos à mesa e começamos a comer. O clima estava leve, e a conversa logo se espalhou por vários assuntos, o jogo de ontem, as viagens de férias, as provas que nos esperavam na volta às aulas.
— Eu ainda não acredito que o Scott marcou aquele gol. — comentou Michael, balançando a cabeça. — Ele nem era o atacante principal.
— O cara teve sorte. — respondeu Daren, comendo distraído.
— Sorte ou motivação. — provocou Nicolle, olhando de canto pra mim.
— Nicolle... — murmurei, sentindo minhas bochechas esquentarem.
Charlotte interveio, divertida:
— Eu só sei que se o Michael fizer um gol como aquele no próximo torneio, eu invado o campo.
— E eu deixo. — respondeu ele, rindo.
A gente riu juntos. Era bom sentir aquele clima de descontração depois de dias tensos. Aos poucos, o restaurante começou a encher. Outros alunos foram chegando, o treinador passou por nós apressado, tomando café de pé e lembrando alto:
— Quero todo mundo no ônibus às dez em ponto!
— Sim, senhor! — respondeu Jason, em tom de brincadeira, fazendo Nicolle rir alto.
Os garçons repunham o buffet, o barulho de talheres e conversas foi tomando o lugar do silêncio inicial.
— Vocês já arrumaram as malas? — perguntou Jason, olhando diretamente pra Nicolle, que levantou uma sobrancelha.
— Por que tá me olhando assim? — ela retrucou.
— Porque eu te conheço, Nick. Aposto que deixou tudo pra última hora.
— A gente arrumou sim, Jason. — respondi antes que começassem a discutir.
— Essa é a minha namorada. — disse Daren, com um sorriso satisfeito. — Eu ainda não arrumei a minha, me ajuda?
— Claro. — respondi, sorrindo.
— Então vamos, já acabei de comer. — ele se levantou, e eu o acompanhei.
— Pra onde vocês vão? — perguntou Michael.
— Arrumar minha mala. — respondeu Daren, dando de ombros.
— Eu esqueci de arrumar a minha, vou com vocês. — disse Michael, levantando-se também.
Daren suspirou, impaciente.
— Eu acho que o Daren quer ficar a sós com a Alex. — comentou Nicolle, rindo.
— E ele pode ficar... depois que ela me ajudar com a minha mala. — retrucou Michael.
— Você é muito chato, Michael. Nem sei como a Charlotte te aguenta. — provocou Nicolle.
— Precisa ter muita paciência. — respondeu Charlotte, arrancando risadas da mesa toda, menos do próprio Michael, que lançou um olhar de fingida indignação. O clima era leve, cheio de risadinhas e olhares trocados. Por alguns instantes, parecia que tudo estava bem entre nós, como se os problemas tivessem ficado para trás, junto com a noite anterior.
Faltavam trinta minutos para a gente ir embora. Daren e Michael já tinham colocado as malas no porta-bagagem do ônibus.
— Onde está a sua mala? — perguntou Daren, se virando para mim.
— No meu quarto, eu vou lá busc...
— Não é necessário. — disse Scott, me interrompendo. — Nicolle me entregou ela.
Daren imediatamente se virou, furioso. Eu vi seus punhos se fecharem e soube que, se eu não fizesse nada, ele iria partir pra cima. Me coloquei na frente dele.
— Se você bater nele, o treinador vai tirar o posto de capitão de você e vai dar pra ele. — falei baixinho, tentando acalmá-lo.
Daren respirou fundo, ainda com os olhos fixos em Scott. Depois apenas pegou minha mão e me puxou para dentro do ônibus.
— Eu não gosto da sua proximidade com ele. — disse, irritado.
— Daren... — suspirei. — Ele é filho do meu padrasto. Ele mora na minha casa. O que você quer que eu faça? Quer que eu o expulse de lá e do colégio também?
— Não seria má ideia. — respondeu seco, mas depois soltou um pequeno suspiro. — Vem, vamos nos sentar.
Ele me puxou para o penúltimo banco. Sentei do lado da janela, e ele ficou ao meu lado.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que o ônibus começou a encher. As primeiras a entrarem foram Sophie e o grupo dela. Sophie olhou para o Daren com um sorriso insinuante e depois para mim, com um olhar de puro desprezo.
— Ignora ela. — disse Daren, meigo dessa vez. — Ela tem inveja de você.
— Inveja de mim? — perguntei, surpresa.— O que tem em mim para invejar, Daren?
— Deixa eu pensar... — ele fez cara de pensativo. — Da sua inteligência, da sua educação, da sua calma, da sua beleza... Ela tem vários motivos pra isso.
Senti minhas bochechas esquentarem e abaixei o olhar, sorrindo sem graça. Logo depois, Nicolle e Jason entraram e se sentaram ao nosso lado. Charlotte e Michael vieram em seguida e ocuparam o banco à frente.
Scott não veio no mesmo ônibus que a gente, ele pegou o número três, já que esse estava lotado. O treinador entrou para se certificar de que todos estavam lá, seguido pela treinadora das líderes de torcida. Assim que confirmaram, o ônibus foi autorizado a sair.
Encostei a cabeça no ombro de Daren, entrelacei nossos dedos e fechei os olhos. Ele olhou pra mim e sorriu antes de encostar a cabeça na minha também.
Adormecemos assim, juntos.
[...]
— Alexandra, Daren, acordem! — ouvi Nicolle sussurrar, me cutucando de leve. — Acordem antes que o motorista volte!
Eu mal abri os olhos quando ela gritou:
— ACORDEM, PELO AMOR DE DEUS!
Meu coração quase parou.
— NICOLLE! — gritou Daren, assustado. — Você quer matar a gente de susto?! Porra!
— Oh, não fala assim com a minha namorada. — disse Jason, rindo. — Ela só tava fazendo o favor de acordar vocês, já chegamos.
Olhei pela janela e realmente estávamos de volta.
Descemos do ônibus e fomos buscar nossas malas. Era domingo, então podíamos escolher entre voltar pra casa ou ficar no colégio.
— Eu sinceramente não quero voltar pra casa. — disse Charlotte, se apoiando no ombro do Michael.
— Eu também não. — completou Nicolle. — Sem clima pra acordar cedo amanhã.
— Se vocês não vão, eu também fico. — falei. — E vocês, meninos?
— Eu fico com a minha musa inspiradora. — respondeu Michael, puxando Charlotte e enchendo ela de beijos.
— Que lindo o amor desses dois. — ironizou Jason. — Eu também fico... mas não por você, Nicolle.
— Engraçadinho. — ela mostrou a língua pra ele, e todos rimos.
— Assim não tem como não ficar também. — disse Daren, me abraçando de lado.
Enquanto esperávamos o treinador, Nicolle observava o estacionamento com aquele olhar curioso dela.
— Ali! O treinador e a miss dançarina. — disse, apontando discretamente para o carro.
— Nicolle... — chamei em tom de repreensão.
— Larga do pé da minha namorada, Alex. — defendeu Jason, divertido.
— Você é um chato, Drummond. — murmurei, rindo.
O treinador finalmente saiu do carro e reuniu todos.
— Pessoal, queria parabenizar vocês pelo jogo. Mesmo com a vitória apertada, vocês se esforçaram. — disse, e todos aplaudimos. — Amanhã tem treino.
— Ah, não, treinador... — reclamou Jay. — A gente merece um descanso, as nacionais são só daqui a um mês!
O treinador olhou diretamente para Daren.
— E você, capitão? Acha que o time merece um descanso?
O silêncio foi imediato. Eu apertei a mão de Daren, tentando passar calma, mas o coração já batia rápido.
— Responde aí, capitão. — provocou Scott, cruzando os braços.
Daren manteve o olhar firme no treinador.
— Não, senhor. — respondeu.
O treinador assentiu, satisfeito.
— Foi o que eu pensei. Amanhã, oito da noite, no campo. Não se atrasem.
Alguns resmungos ecoaram.
— Cara, você é um banana. — reclamou Jay.
— Banana é você, que só sabe reclamar. — retrucou Nicolle. — Mal conseguiu tocar na bola durante o jogo inteiro. Patético.
— A porrada que eu vou te dar, garota... — Jay começou a se aproximar, mas Jason se colocou na frente dela num salto.
— Você não vai encostar na minha namorada. — disse Jason, com os olhos queimando de raiva.
— Ih, qual foi, mano? Desde quando você se importa com essa mima..— Jay nem terminou. Num piscar de olhos, Jason partiu pra cima dele.
O som do primeiro soco ecoou no estacionamento. Michael correu pra separar, mas Jason estava completamente descontrolado.
— Jason, para! — gritou Charlotte, assustada. — Nicolle, faz alguma coisa!
— Faço nada. — respondeu Nicolle, fria. — Esse idiota merece.
Daren e Scott correram pra ajudar Michael a puxar Jason de cima de Jay.
— Me larga! — Jason gritava. — Eu vou acabar com ele!
— Jason, para! — disse Daren, segurando-o pelos ombros. — Já chega!
— Violência não resolve nada! — gritou Michael.
— Eu não quero resolver nada! — Jason respondeu, ofegante. — Eu quero que ele pague!
Mais tarde, Daren e eu estávamos na sala de estar. Nicolle tinha levado Jason pra um canto, tentando acalmá-lo. O silêncio pesava no ar.
— Estou orgulhosa de você. — falei baixinho, olhando para o Daren.
— De mim? Por quê? — perguntou ele, confuso.
— Você foi muito responsável hoje. Fez o que um capitão de verdade faria. — respondi, sorrindo.
— Os garotos ficaram contra mim. — murmurou, ainda com o olhar distante.
— Talvez, mas você tomou a decisão certa. Você sabe o quanto os nacionais significam pra você. — disse, colocando minha mão sobre a dele.
Daren sorriu de leve.
— Você me conhece tão bem.
— Claro que sim. — respondi, corando. — Eu te observo muito.
Ele riu baixinho e me puxou pra mais perto, encostando a testa na minha.
E naquele instante, o mundo pareceu mais leve outra vez.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
