Charlotte
As férias tinham passado como um sopro, mas um sopro bom, leve, cheio de risadas. Eu e as meninas ficamos praticamente grudadas todos os dias — o que, para mim, foi a salvação. Meu pai tinha viajado a negócios, como sempre, e eu nem senti falta da presença dele. Para ser sincera, acho que nunca senti. O vazio que ele deixava já era antigo, como uma ferida que a gente acostuma a carregar. Só que, com Nicolle, Angel e Alex por perto, eu me senti... acolhida. Amada. Algo que meu pai jamais conseguiu me fazer sentir. Na última sexta-feira de férias, rolou a nossa tão esperada festa do pijama na casa da Nicolle. Foi incrível, não só porque a Nick tem uma casa maravilhosa, mas porque os pais dela estavam viajando e isso significava liberdade total. Só nós quatro, risadas altas, travesseiros voando, confidências até o sol nascer. Foi uma noite que grudou na memória, uma daquelas que a gente vai relembrar até ficar velha. Mas, como tudo que é bom acaba, chegou o momento de voltar ao inferno: o colégio. E pior, voltar a aturar o Jason. Eu juro, ninguém merece. Nem o Lúcifer deve aguentar aquele garoto.
Na primeira aula do dia, lá estava ele. Não bastava estar na minha sala, ele tinha que sentar bem atrás de mim. Senti o cutucão leve na minha cadeira e já sabia o que vinha.
— Nerd? Empresta um lápis aí. — a voz dele soou, carregada de falsa inocência.
Revirei os olhos, mas estendi um lápis sem olhar para trás.
— Toma, é todo seu — falei, seca, voltando minha atenção para a lousa.
Silêncio por uns segundos. E lá veio outro cutucão.
— Nerd? O que está escrito ali embaixo? — perguntou, apontando para um canto do quadro como se realmente não conseguisse enxergar.
Respirei fundo, tentando não perder a paciência.
— Me deixa em paz, Jason.
— Nerd? Você é chata pra cacete. — ele riu, se divertindo com a própria provocação.
Me virei de repente, o encarei rápido e sussurrei irritada:
— Será que dá pra parar?!
Antes que eu pudesse continuar, o professor parou a explicação e encarou nós dois.
— Charlotte, Jason, para fora da minha sala. Agora.
Levantei indignada, batendo o caderno na mesa.
— Tudo por culpa sua, seu idiota. — rosnei para ele.
Jason ergueu as mãos em falsa defesa.
— Culpa minha? Eu não tenho culpa de você não ter senso de humor, chata. — e, como se não bastasse, mostrou a língua.
— Crianção. — rebati, mostrando a língua também.
Foi tão ridículo que, por um segundo, nós dois começamos a rir. Sim, rir. Eu e Jason. Do mesmo motivo. Aquilo me deu um arrepio estranho. Eu ri junto com ele, mas, assim que percebi, minha expressão fechou. "Calma? Eu rindo com o Jason? Que nojo." Apertei a alça da mochila e me virei para ir embora.
— Para onde você vai? — ele perguntou, segurando minha mão.
O toque foi inesperado, quente demais. Puxei de leve, desconfortável.
— Vou para a biblioteca estudar já que fui expulsa da aula. — resmunguei, chateada.
Ele me olhou, e pela primeira vez parecia... sério.— Que tal se a gente estudasse junto? — sugeriu.
Soltei uma risada debochada.
— Você passou metade do período zombando de mim, e agora quer ser meu amiguinho? Ah, por favor.
— Vai, nerd... só dessa vez. — ele fez uma cara quase suplicante, que não combinava nada com o garoto irritante que sempre me atormentava.
Suspirei, derrotada.
— Tá bom. Mas se você fizer uma das suas piadinhas, eu te deixo sozinho. — ameacei.
Ele assentiu com um sorriso vitorioso.
Acabamos indo juntos até a biblioteca. E, surpreendentemente, ficamos ali por quase uma hora e meia. Jason até tentou puxar assunto algumas vezes, mas, no geral, se comportou. Talvez fosse o ambiente silencioso, ou talvez ele estivesse cansado de brincar comigo. De qualquer forma, foi... estranho. Estranho no sentido de suportável. Quando a aula seguinte se aproximou, fechei meus livros e levantei.
— Bem, agora tenho de ir para a aula de artes. — falei, ajustando a mochila no ombro. — Tchau.
Ele me seguiu com os olhos e sorriu de canto.
— Tchau, nerd. — disse, quase num tom carinhoso, como se fosse um apelido íntimo.
Não zombou, não me humilhou, nada. Só aquilo. Eu franzi o cenho. Era estranho. Jason sempre tinha uma carta cruel na manga, mas, dessa vez, não. Dei de ombros e segui. Quando entrei na sala de artes, encontrei minhas amigas rindo e conversando. Me aproximei e perguntei:
— E o professor, meninas?
Angel, sempre dramática, ergueu as mãos como se agradecesse aos céus.
— O desgraçado não vem hoje. Bora comer?
Ri com a cena.
— Eu também comia alguma coisa.
Alexandra, nossa nerd preferida, concordou com um sorriso tímido.
— Tô com fome mesmo, bora.
Nicolle deu uma risada debochada.
— Até você, Alexandra Cameron? Bora, que eu também tô morrendo de fome.
Levantamos juntas e seguimos para o refeitório. Era engraçado como a gente se completava: Alex era toda focada nos estudos, e ainda assim fazia de tudo para se encaixar no nosso ritmo. Nós, por outro lado, tentávamos entrar um pouco no mundo dela, mesmo que fosse difícil. O problema era que, quando se tratava de se defender, Alex ainda não conseguia. E isso doía. Nos sentamos à mesa, conversando sobre qualquer coisa boba, até que a porta se abriu e a cena que eu mais detestava se repetiu: as "Cats". As quatro idiotas com seus sorrisos falsos, acompanhadas dos três garotos mais insuportáveis da escola que se achavam deuses, mas, para mim, não passavam de galinhas.
— Ih, olha lá, as quatro idiotas chegando com os três galinhas. — murmurou Angel, revirando os olhos.
— É mesmo... que patético. — completou Nicolle, mexendo na bandeja.
Foi nesse momento que Alex baixou os olhos. A voz dela saiu trêmula:
— E-e-eu tenho que ir, meninas. Preciso falar com a minha mãe.
Todas nós trocamos olhares silenciosos. Era mentira. A gente sabia. Sempre que Alex falava da mãe, a tristeza vinha logo depois. A mãe dela não ligava, não se importava. Diferente do meu pai, que, por mais ausente que fosse, ainda tinha a desculpa do trabalho. Alex não tinha nem isso.
Eu suspirei, vendo-a levantar às pressas. O coração apertou.
Alex só tinha a nós. Nós e... Michael.
Mas, sinceramente, eu nunca entendi porque ele namorava a Kathleen se os olhos dele diziam outra coisa. Ele gostava da Alex, era óbvio. Mas parecia preso em algum jogo idiota que só complicava ainda mais a vida dela. E eu? Eu só conseguia pensar que, apesar de todo caos, pelo menos ainda tínhamos umas às outras. E talvez isso fosse a única coisa que nos mantinha de pé naquela selva que chamavam de colégio.
Alexandra saiu quase correndo do refeitório, a bandeja ainda pela metade. Nós três trocamos olhares, sabendo exatamente o motivo. Sempre que as Cats aparecem, ela se encolhe. Sempre. E a verdade é que eu não a culpo. Kathleen é venenosa, o tipo de garota que sorri como se fosse uma rainha, mas só esconde veneno por trás daquele batom vermelho exagerado.
— Eu não sei por que an Alex ainda cai nessas delas... — resmungou Nicolle, batendo o canudo no copo de suco. — Se fosse comigo, eu já tinha dado na cara daquela Kathleen.
Angel riu baixo, mas sua risada era carregada de raiva.
— Ah, se você desse na cara dela, eu filmava e postava em todas as redes. A gente ia virar lenda nessa escola.
Eu dei um sorriso pequeno, mas por dentro estava preocupada. Alex era forte de um jeito estranho, silenciosa, mas sempre se quebrava quando o assunto era a Kathleen e, pior ainda, Michael. Porque todo mundo sabia que, se tivesse um mínimo de coragem, Michael largaria aquela cobra e ficaria com a Alex. Mas ele parecia cego demais, ou covarde demais, para enxergar. Enquanto conversávamos, as Cats se aproximaram, os saltos batendo contra o chão como se fosse uma espécie de anúncio de "chegamos". Kathleen à frente, com os cabelos loiros impecáveis, e as outras duas logo atrás, carregando aquela aura de arrogância. Atrás delas, claro, vinham os três "galinhas": Michael, Daren e Jason.
Eu rolei os olhos.
— Olha o circo chegando.
— Mais do mesmo — murmurou Angel, apoiando o queixo na mão.
Nicolle, porém, não ficou calada.
— Ei, Kathleen, você sabia que batom não esconde veneno? — provocou, com um sorrisinho cínico.
A mesa das Cats parou por um segundo, mas Kathleen apenas sorriu, aquele sorriso que dava nos nervos.
— E você sabia que nem todo mundo consegue ter o privilégio de ser popular? — retrucou, ajeitando o cabelo como se fosse uma coroa.
Antes que eu falasse qualquer coisa, Michael olhou rapidamente em direção à porta, como se estivesse procurando alguém. Era óbvio: ele procurava Alex. E aquilo me irritou. Irritou porque ele não fazia nada, não dizia nada, só fingia que estava tudo bem.
Angel percebeu também e bufou.
— Olha só... o príncipe encantado procurando a nerdzinha. Patético.
Kathleen, como se tivesse lido nossos pensamentos, virou-se para Michael.
— O que foi? Esqueceu alguma coisa no armário?
Ele negou com a cabeça e sentou-se, mas seu olhar parecia inquieto. Eu sabia que ele queria ir atrás da Alex. Mas, como sempre, não foi.
— Eu juro que ainda vou dar na cara desse garoto também — sussurrou Nicolle para mim, baixinho, mas com tanto veneno que eu quase ri.
E eu ri, mas foi um riso amargo. Porque, no fundo, me doía ver a Alex se afastando sempre que via aquela cena: Kathleen segurando a mão de Michael, rindo alto, beijando-o sem nenhuma vergonha, como se estivesse marcando território.
Respirei fundo, tentando me distrair.
— Vamos atrás da Alex? — perguntei, olhando para Angel e Nick.
— Vamos, claro — respondeu Angel de imediato, já se levantando. — Se a gente não for, ela vai ficar lá na biblioteca sozinha e, pior, vai voltar com a cara vermelha de tanto segurar o choro.
Nicolle recolheu sua bandeja de qualquer jeito e seguimos juntas até a porta. Passei pelos olhos de Michael e, por um segundo, pensei ter visto uma pontada de arrependimento nele. Mas segui andando. Não ia perder tempo tentando decifrar aquele idiota.
Encontramos Alex sentada em uma das mesas no fundo da biblioteca, o livro aberto à sua frente, mas os olhos perdidos em outro lugar. Ela nem percebeu nossa chegada até que Angel puxou a cadeira e se jogou ao lado dela.
— Adivinha quem chegou? — Angel falou, tentando soar animada.
Alex apenas suspirou, fechando o livro com delicadeza.
— Eu odeio essa escola.
Nicolle, sem papas na língua, respondeu:
— Não, você odeia a Kathleen e o Michael junto, e com razão.
Alex não respondeu, apenas abaixou o rosto, escondendo as lágrimas que começavam a se acumular nos olhos. Eu coloquei minha mão sobre a dela e apertei de leve.
— Ei, a gente está aqui, lembra? Não importa o que eles façam, você nunca vai estar sozinha.
Os olhos de Alex se encheram de lágrimas de verdade, mas ela sorriu fraco.
— Eu sei... é que dói, sabe? Ver ele do lado dela, fingindo que não sente nada.
Angel resmungou:
— Se ele sente alguma coisa por você e não tem coragem de admitir, então ele não merece nem metade do que você é.
Nicolle assentiu, firme.
— Exato. E sabe o que vamos fazer agora? Vamos esquecer esses idiotas e planejar a próxima festa do pijama.
Alex riu baixinho, limpando as lágrimas.
— Vocês são malucas...
— Malucas, mas suas malucas — completei, abraçando-a de lado.
E naquele instante, enquanto ríamos baixinho entre as prateleiras da biblioteca, eu percebi que não importava o que Kathleen ou Michael fizessem: nós quatro sempre estaríamos juntas. E isso, de alguma forma, já era suficiente para continuar enfrentando o inferno que era aquela escola.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
