Daren
Quando Alex desmaiou, eu... não fui com ela para o hospital. No fundo, achei que talvez ela quisesse ficar apenas com a família. Que seria melhor assim que eu não fosse um peso. Mas, olhando agora, percebo que foi só covardia. Eu não sabia lidar com o medo de vê-la frágil.
Mesmo assim, fui ao baile. As luzes da quadra brilhavam em tons de lilás e dourado, a música alta, risadas ecoando. Todos pareciam se divertir. Mas eu... eu só via o vazio.
Logo que cheguei, as amigas de Alex vieram em minha direção. O olhar curioso de Nicolle me atingiu primeiro.
— Cadê a Alex? — perguntou, cruzando os braços.
Senti o estômago apertar, mas menti sem pensar.
— Ela desistiu de vir... não estava se sentindo bem.
Nicolle arqueou uma sobrancelha.
— Eu vou ligar pra ela e obrigar essa menina a vir.
Entrei em pânico.
— Melhor não, — respondi rápido demais. — Ela está com a mãe e o Damian agora.
Ela me observou por um segundo, desconfiada, mas acabou desistindo.
— Ah, tá. — murmurou, antes de puxar o namorado pra pista de dança. — Você não vem?
Neguei com a cabeça.
— Talvez depois.
Ela saiu, e eu fiquei ali, encostado na parede, observando os casais dançando sob as luzes lilases. A cada risada, a culpa pesava mais.
A cada música, eu me sentia mais longe dela.
Foi quando ouvi.
— Cadê a princesinha certinha?
Revirei os olhos. A voz vinha de trás.
Samantha.
Claro que seria ela.
— Não tá cansado de ficar sozinho, Daren? — ela se aproximou, com aquele sorriso venenoso que me dava enjoo. — Ou a santa da Alex finalmente percebeu que você é um caso perdido?
— Não enche, Samantha. — murmurei, sem paciência.
— Ah, vai me dizer que ela não veio porque tá com vergonha de ser vista com você? — provocou. — Todo mundo sabe que você é o tipo de cara que só finge se importar pra conseguir o que quer.
Fechei os punhos.
— Cuidado com o que você fala.
— Por quê? Vai me bater agora? — ela deu um passo à frente, sarcástica. — Seria a coisa mais emocionante que você fez desde o início do namoro. Aposto que ela tá cansada do seu jeitinho inútil de rebelde.
— Eu avisei — murmurei, entre os dentes.
Ela riu, debochada.
— Deve ser difícil manter uma garota decente, né? Ainda mais pra alguém como você... que vive fugindo de tudo. Aposto que ela vai perceber rapidinho o erro que cometeu.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Você não fala dela, entendeu? — rosnei, a encarando. — Nem toca no nome dela.
— Ah, qual é, Daren... — ela se inclinou, o rosto próximo ao meu. — Você sabe que uma menina como ela não combina com você. No fundo, até você sabe que eu seria uma escolha melhor.
Foi a faísca.
Eu perdi o controle.
— Você? — ri, mas sem humor. — Você é só um erro ambulante, Samantha. O tipo de garota que se joga em cima de qualquer um e ainda acha que é especial.
O sorriso dela sumiu.
— Cala a boca.
— Ah, te atingi? — continuei, o tom ácido. — Porque todo mundo aqui sabe que você troca de namorado como quem troca de roupa. E, adivinha? Nenhum deles aguenta mais de uma semana. Deve ter um motivo, né?
— Seu idiota! — ela gritou, tentando empurrar meu peito, mas eu não me movi.
— Vai lá, finge que é a vítima agora — cuspi as palavras. — Mas olha bem pra mim, Samantha. Se você tocar no nome da Alex outra vez, eu juro que eu te faço engolir esse seu sorriso falso.
O ginásio inteiro ficou em silêncio. As pessoas ao redor pararam de dançar, observando.
Samantha respirava rápido, o olhar cheio de raiva e humilhação.
De repente, Jason apareceu, segurando meu braço.
— Daren, chega!
— Solta! — tentei me livrar. — Ela tava pedindo!
Michael chegou logo atrás.
— Cara, você vai acabar sendo expulso! Para com isso!
Samantha estava vermelha, furiosa, os olhos marejados de raiva.
— Você é um lixo, Daren! — gritou. — Um completo lunático!
— E você é uma piada — respondi, frio. — E todo mundo aqui sabe disso.
Jason me empurrou pra trás, me afastando.
— Sai daqui, antes que dê merda.
Fiquei ofegante, o sangue pulsando nos ouvidos. As luzes pareciam girar.
Olhei uma última vez pra Samantha e pela primeira vez, ela não tinha mais aquele olhar arrogante. Tinha medo.
Virei as costas e saí.
O ar frio da noite me acertou em cheio quando empurrei as portas do ginásio.
A raiva começou a se dissolver, dando lugar ao arrependimento.
Jason veio atrás de mim, ainda sério.
— Cara, o que foi aquilo?
— Ela falou merda. — respondi, ainda trêmulo. — E eu não consegui segurar.
— Você precisa controlar isso, Daren. — disse Michael, cruzando os braços. — A Alex não ia querer te ver assim.
E foi aí que as palavras dele me acertaram.
Porque era verdade.
Ela não ia querer.
Suspirei, passando as mãos no rosto.
— Amanhã... eu vou ver ela. — murmurei, com a voz rouca. — E vou tentar consertar tudo.
Jason e Michael se entreolharam, mas não disseram nada. Eles sabiam que não havia nada que pudessem falar que piorasse ou melhorasse a situação. Fiquei ali por alguns segundos, parado no estacionamento vazio, sentindo o vento frio bater no meu rosto. As luzes do ginásio piscavam atrás de mim, e a música abafada parecia distante — como se viesse de outro mundo, um mundo do qual eu não fazia mais parte. De repente, percebi o quão deslocado eu estava. Não havia sentido nenhum em continuar ali, fingindo que estava tudo bem, quando por dentro tudo estava desmoronando.
Peguei as chaves do carro no bolso, girei nos dedos por um instante e caminhei até o veículo.
O som do metal batendo na minha mão ecoou como uma despedida. Liguei o motor e dirigi sem pressa, com os faróis cortando a noite fria. As ruas estavam quase vazias, só o som distante dos pneus sobre o asfalto e o zunido constante do vento entrando pela janela entreaberta.
Quando cheguei em casa, o silêncio era quase sufocante.
Nenhum som, nenhuma voz.
Meu pai, como sempre, não estava.
A mesa da cozinha ainda tinha a garrafa de uísque pela metade e um copo vazio.
Nem um bilhete.
Nem uma mensagem.
Só o eco das paredes e a sensação de que, de alguma forma, aquele lugar também estava cansado de mim.
Subi pro quarto devagar, cada degrau rangendo como se me julgasse.
Joguei a jaqueta sobre a cadeira, tirei os tênis e fui direto pro chuveiro.
A água gelada escorrendo pela pele não aliviou o peso no peito — mas pelo menos lavou a raiva que ainda queimava.
Depois, vesti uma camiseta qualquer, me joguei na cama e fiquei olhando o teto.
O relógio digital piscava em vermelho: 01:37 AM.
Peguei o celular e abri o chat da Alex.
A foto dela sorrindo me encarava, como se me perguntasse: por que você não ficou comigo?
Digitei devagar:
"Tá tudo bem?"
Olhei pra tela por um tempo.
Meu polegar pairou sobre o botão de enviar...
Mas não consegui.
Apaguei a mensagem.
O vazio ficou.
Ela provavelmente estava dormindo.
Ou talvez... nem pudesse responder.
Soltei o celular sobre o peito e fechei os olhos, mas o sono não veio. Virei de um lado pro outro, tentando achar uma posição que me fizesse esquecer o peso da culpa. Mas a consciência é um travesseiro ruim.
E naquela noite, o único som que me acompanhou foi o tique-taque lento do relógio e a lembrança do olhar dela antes de desmaiar.
Demorei horas pra pegar no sono.
De manhã, o sol atravessava as cortinas e cortava o quarto em faixas douradas. Tomei outro banho e desci pra tomar café. Meu pai estava sentado na mesa, como sempre, com o jornal na frente do rosto, a barreira perfeita pra evitar qualquer conversa. Nem me dei ao trabalho de cumprimentar. Peguei minhas coisas, celular, chaves, cartão e saí de casa.
No caminho, parei numa loja de brinquedos.
Vi uma prateleira cheia de pelúcias coloridas e, entre elas, um conjunto de três alpacas fofas, cada uma de uma cor.
Sorri involuntariamente.
Alex não tinha nenhum bicho de pelúcia no quarto, só livros, luzinhas e aquele mural de fotos que ela tanto amava. Achei que aquelas alpacas dariam um pouco de vida àquele espaço azul.
Comprei o trio.
Depois, passei em uma floricultura.
O aroma doce das flores frescas me atingiu de imediato. Escolhi um buquê grande, cheio de cores, tulipas, margaridas, rosas, girassóis, uma mistura caótica, mas alegre.
Como ela.
Guardei tudo com cuidado no carro e dirigi até a casa dela. Ao estacionar, senti o coração acelerar. Parte de mim queria sair correndo, outra parte só queria abraçá-la.
Toquei a campainha.
Alyssa, a mãe dela, atendeu com um sorriso gentil, mas cansado.
— Oi, Daren! Como você está?
— Oi, Alyssa. Tô bem, e você? — respondi, forçando um sorriso. — A Alex tá por aí?
Ela assentiu.
— Claro. Entra, querido. Vou te levar até o quarto dela.
Subimos as escadas. Eu sabia exatamente onde era, mas deixei que ela me guiasse. Quando chegamos, ela apontou a porta e desceu, deixando-me ali.
Bati de leve.
Silêncio.
Girei a maçaneta e entrei.
O quarto estava iluminado por um feixe suave de luz que entrava pela janela. As paredes azuladas, as luzinhas piscando vagarosamente, e Alex...
Alex dormia.
Tão serena, tão calma, com o cabelo espalhado pelo travesseiro e a respiração lenta.
Pousei as flores e as pelúcias na poltrona, tirei meus tênis e me deitei ao lado dela, cuidadosamente.
Apenas a abracei.
Por alguns minutos, fiquei ali, ouvindo o som da respiração dela, tentando memorizar aquele ritmo, o som mais precioso do mundo pra mim. Quando ela abriu os olhos, piscando devagar, sussurrou:
— Daren?
— Que foi? — respondi, virando o rosto pra ela.
— O que tá fazendo aqui? — perguntou, ainda sonolenta.
— Vim ver você. — murmurei, levantando-me e pegando os presentes. — Trouxe isso pra você.
Ela se sentou devagar, e o sorriso que deu quando viu as alpacas quase me desmontou por dentro.
— São lindas... obrigada. — disse, emocionada.
Expliquei o motivo de não ter ido ao hospital, tropeçando nas palavras, e ela apenas me olhou por um tempo e então me perdoou.
Depois, ela me contou.
Tudo.
Sobre o problema no coração.
Sobre o transplante.
Sobre o medo.
Naquele momento, senti o chão desaparecer sob meus pés.
Mas não deixei que ela percebesse.
Sorri, mesmo com o nó na garganta.
— Você vai sair dessa, amor. Eu prometo.
Ela assentiu, com aquele olhar doce e firme que sempre teve.
Contei que tinha dito às amigas dela que ela preferiu ficar com a mãe e o padrasto.
— Se quiser contar a verdade, tudo bem, — acrescentei.
Mas ela balançou a cabeça.
— Prefiro não preocupar ninguém por enquanto.
Assenti em silêncio.
Ficamos o resto do dia juntos, falando de tudo e de nada, rindo, lembrando de besteiras antigas. Em algum momento, Alyssa subiu discretamente, abriu a porta e deixou entreaberta.
Disse que era "por segurança".
Mas eu sabia que ela só queria garantir que a filha dela estivesse segura.
E eu também.
Porque, naquele instante, vendo Alex rir baixinho, percebi que meu maior medo era acordar um dia e ela não estar mais ali para rir comigo.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
