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Charlotte

Nicolle e eu deixamos a Alex sozinha no nosso quarto. Ela precisava de espaço, daquele silêncio que só a gente entende quando o coração está em pedaços. O cheiro do travesseiro, o lençol bagunçado, tudo ali tinha a presença dela e eu queria que ela tivesse esse momento sem ninguém interrompendo.
Char, eu vou me encontrar com o Jason, tá? — Nick falou, sua voz baixa e cuidadosa, quase como se tivesse medo de quebrar algo dentro da Alex só por falar alto.
— E eu vou com o Michael. — respondi, sentindo o aperto no peito. — Preciso ver como ele está depois de tudo. E, querendo ou não, Alex é muito importante pra ele também.
Nick assentiu, passando a mão pelo cabelo, aquela movimentação meio distraída que sempre a delata quando está preocupada. — Vamos então? Eles devem estar na sala de estar.
Saímos andando pelo corredor, o chão ecoando os nossos passos. Cada passo parecia pesado, cheio de expectativa e aquela mistura de raiva e preocupação que não me deixava respirar direito. Eu só queria que a Alex estivesse bem, mesmo que fosse por alguns instantes.
Quando chegamos à sala de estar, vimos Jason e Michael sentados próximos um do outro, cada um perdido nos próprios pensamentos, os ombros tensos, o olhar longe. Nick foi direto para o Jason, pegando a mão dele de leve, enquanto eu me sentei ao lado do Michael, sem falar nada, só observando. O silêncio estava carregado de sentimento.
Ela vai ficar bem? — Jason perguntou, quase sussurrando, apertando a mão da Nick com força.
Olhei para ele, tentando passar confiança só com o olhar. — Vai sim. Ela é mais forte do que qualquer um imagina... mas hoje, ela precisa ficar sozinha. Só isso importa agora.
Nick assentiu, respirando fundo. — Então vamos deixar ela no seu próprio espaço.
O ambiente parecia pesado, mas ao mesmo tempo confortável, todos nós juntos, preocupados, cuidando dela à distância, mesmo sem saber como fazer a dor desaparecer. Eu sabia que, mais tarde, Nicolle e eu iríamos voltar para o nosso quarto, abraçá-la com delicadeza, mostrar que ela não estava sozinha, mesmo que o mundo inteiro tivesse parecido virar as costas naquele momento. O coração apertado, eu pensei: nada, nem ninguém, poderia machucar a Alex novamente sem que nós estivéssemos ali para segurá-la. O silêncio do corredor parecia mais pesado do que qualquer coisa que eu já tivesse sentido. Mesmo assim, caminhar até a sala de estar me trouxe um alívio tímido: ver Jason e Michael juntos, rindo baixinho de alguma piada boba, lembrava que nem tudo estava perdido. Nick se aproximou de Jason, segurando a mão dele com cuidado, e eu me sentei ao lado de Michael. Não falamos nada, apenas deixamos que o conforto da presença do outro falasse por nós.
Depois de alguns minutos, o riso dos meninos começou a se espalhar pelo ambiente. Jason pegou um rolo de papel que estava na mesa e começou a fazer "bolinhas de neve" improvisadas, jogando para Michael, que revidava, sempre rindo. Nick se juntou à brincadeira, tentando acertar Jason, mas acabou acertando Michael por acidente, o que nos fez rir ainda mais. O som daquelas gargalhadas leves era como um bálsamo para o dia pesado que tínhamos passado.
Ei! — Jason gritou, fingindo indignação —me pegou de surpresa!
Sorte sua que eu não estou tentando de verdade — Nick respondeu, rindo enquanto se esquivava de outra bolinha.
Vocês dois são impossíveis — Michael disse, rindo e balançando a cabeça. — Mas tá bom, vamos ver quem é melhor nesse "tiro ao alvo".
A diversão crescia, e por um momento parecia que nada de ruim tinha acontecido. Até que a porta se abriu com força, e Scott entrou, meio ofegante, com o rosto sério, mas sem perder aquele jeito destemido dele.
Peraí, gente — disse ele, cruzando os braços —preciso saber... o que aconteceu hoje de manhã? Por que todo mundo deixou o Daren humilhar a Alex daquele jeito?
O riso morreu no ar. Jason e Michael se entreolharam, meio sem jeito. Nick e eu trocamos um olhar preocupado, mas decidimos que a sinceridade era melhor.
Scott... — Nick começou, a voz firme, mas calma —Nem a gente consegue entender o porquê de ele ter feito isso, mas precisamos entender o que você fez depois da briga.
Scott respirou fundo, como se precisasse organizar os pensamentos. — Porque não dava pra deixar aquilo passar. — Ele falou sério, cada palavra carregada de cuidado. — Ele humilhou a Alex na frente de todo mundo. Eu não podia ficar parado vendo isso.
Jason balançou a cabeça, finalmente entendendo. — Entendi... Mas a briga... vocês se machucaram feio e poderiam ser expulsos.
Eu sei — Scott respondeu, passando a mão pelos cabelos — Mas às vezes a gente precisa fazer o que é certo, mesmo que não seja fácil. Ela precisava de alguém que a defendesse.
O clima pesado começou a se dissipar aos poucos. Os meninos voltaram a jogar bolinhas de papel, mas agora com uma energia diferente, mais leve, mais consciente, quase protetora. Cada risada, cada brincadeira, parecia dizer silenciosamente que, apesar de tudo, Alex estava segura, que ninguém mais ousaria machucá-la assim. E eu sabia que, mais tarde, Nicolle e eu voltaríamos para o nosso quarto , para abraçá-la com todo cuidado do mundo. Porque algumas dores precisam de tempo, mas também de muito amor ao redor. E Alex nunca estaria sozinha.
A gente continuou a conversar sobre outras coisas, tentando afastar os pensamentos pesados que ainda rondavam o ar. Michael começou a contar uma história engraçada de quando o ônibus que levava o time para os Nacionais quebrou no meio da estrada.
E o Daren jurando que sabia consertar o motor! — ele disse, rindo. — No fim, o que ele fez foi piorar tudo.
— Mentira! — Nick gargalhou. — Ele tentou MESMO mexer no motor?
— Tentou — Jason confirmou, já rindo também. — E depois reclamou que queimou o dedo.
A mesa toda caiu na risada. Até Scott, que ainda estava meio calado, não conseguiu conter um sorriso.
Tadinho — comentei, rindo entre um gole de suco e outro. — Acho que ninguém avisa pra ele que orgulho não conserta motor.
— Nem relacionamento — Nick completou, mais baixa, mas com um sorriso triste.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, mas foi um daqueles silêncios que não pesam, só deixam a gente respirar junto.
Depois de um tempo, Jason se levantou e olhou pra bandeja.
Acho que vou pegar sobremesa. Quem quer?
— Eu! — Nick levantou a mão sem hesitar. — Se tiver bolo de chocolate, traz dois pedaços.
— E um pra mim também. — pedi. — Mas com bastante cobertura, por favor.
— Vocês são insaciáveis — ele brincou, pegando mais bandejas.
O refeitório estava cheio de gente, mas nossa mesa parecia um pequeno refúgio. A luz amarelada, o cheiro de comida, as vozes misturada, tudo criava uma sensação de normalidade que a gente precisava desesperadamente. Quando Jason voltou com as sobremesas, Nick fez questão de trocar o prato dele com o dela, dizendo que o dele tinha mais cobertura. Ele fingiu indignado, mas acabou rindo, e por alguns instantes parecia que o mundo lá fora não existia.
Ei, Scott — chamei, observando o hematoma roxo no canto da boca dele. — Você precisa colocar gelo nisso.
— Já coloquei mais cedo. — respondeu, dando de ombros. — Tá melhor do que parecia.
Nick o olhou com aquele ar protetor. — Mesmo assim, devia descansar um pouco.
Ele riu, sem graça. — Descansar? Depois do dia de hoje, acho que só durmo semana que vem.
Michael esticou o braço e deu um tapinha leve no ombro dele.
— Você fez o que achou certo. A gente entende. Mas agora, deixa que a gente cuida dela, tá?
Scott assentiu, e pela primeira vez naquela noite, o olhar dele pareceu mais tranquilo.
Ficamos ali por mais um tempo, falando sobre tudo e nada. As conversas foram se tornando mais leves, os risos mais naturais, e quando a noite começou a cair, o refeitório foi se esvaziando aos poucos. Quando finalmente nos levantamos para ir embora, o coração ainda doía, mas de um jeito mais suportável.
Sabíamos que a Alex ainda estava no quarto, quietinha, tentando juntar os pedaços do que o Daren tinha quebrado e que no dia seguinte, ela ainda estaria frágil.
Mas uma coisa era certa: ela não estava sozinha. Enquanto caminhávamos pelo corredor iluminado pelas luzes suaves, senti a presença deles ao meu lado e pensei que, talvez, amizade fosse exatamente isso, segurar firme uns aos outros quando o mundo parece ruir.
Entramos no quarto sem fazer barulho. As luzes estavam apagadas, só a claridade suave da lua entrava pela janela, desenhando sombras no chão. Alex já estava dormindo, o rosto tranquilo, mas com os olhos ainda inchados, como se o sono tivesse vindo depois de muito choro. Nick olhou pra ela em silêncio por alguns segundos e suspirou baixinho, aquele tipo de suspiro que carrega tristeza e carinho ao mesmo tempo.
Ela apagou de vez... — murmurou.
Assenti devagar, sentindo o mesmo aperto no peito. — Espero que o sono traga um pouco de paz pra ela.
Nick pegou a toalha e foi para o banheiro, enquanto eu fui até o guarda-roupa trocar de roupa. O som da água do chuveiro começou a encher o quarto, suave e constante, e eu aproveitei pra tirar minha roupa e colocar meu pijama preferido. Olhei novamente pra cama dela. Mesmo dormindo, ela parecia pequena demais naquele colchão grande. Enrolei o lençol sobre os ombros dela com cuidado, pra que não sentisse frio, e sentei um pouco na beira da minha cama, em silêncio.
Quando Nick saiu do banheiro, com o cabelo molhado e uma expressão cansada, sentou-se ao meu lado sem dizer nada. Ficamos assim por alguns minutos, só ouvindo a respiração tranquila da Alex e o barulho distante do vento lá fora.
Acha que ela vai ficar bem? — Nick perguntou baixinho, como se tivesse medo de acordá-la.
Demorei alguns segundos pra responder. — Acho que sim. Mas vai demorar um pouquinho... o Daren quebrou algo dentro dela hoje.
Nick mordeu o lábio, triste. — Eu ainda não acredito que ele falou tudo aquilo. Ela sempre foi tão boa pra ele.
— Pois é. — suspirei. — Mas às vezes, a gente só descobre o que uma pessoa realmente é quando o amor não basta mais pra disfarçar.
Nick ficou em silêncio, só olhando para o teto. O ambiente tinha aquele tipo de calma que dó, o silêncio depois da tempestade.
Peguei o celular pra ver as horas: quase meia-noite.
Vamos tentar dormir um pouco? — perguntei, me levantando pra apagar a luz.
Vamos. — ela respondeu, se deitando.
Apaguei o abajur, e o quarto mergulhou na penumbra. Antes de deitar, olhei uma última vez pra Alex. Ela se mexeu de leve, o rosto sereno, como se, por um instante, os sonhos tivessem conseguido afastar a dor. Deitei também, virada na direção dela, e fechei os olhos com um pensamento que se misturava entre fé e promessa:
Amanhã seria outro dia. E nós estaríamos ali, prontas pra ajudá-la a recomeçar.

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