Alexandra
Senti algo estranho perto de Daren hoje. Não consigo explicar direito, mas ele não estava tão irritante quanto de costume. Na verdade, estava até suportável, quase agradável. Aquela versão nova dele me deixou surpresa, e estranhamente, gostei. Talvez assim não precisasse lidar com ninguém me atazando além das Cats. Decidi ficar no pátio, sozinha, olhando para o céu. As estrelas estavam brilhando mais do que o normal, como se quisessem me lembrar de que ainda existia beleza mesmo nos dias ruins. Mas logo senti uma presença atrás de mim. Virei-me devagar e lá estavam Samantha e Camilla, cada uma com seu jeito irritante de intimidar. Samantha de braços cruzados, Camilla com aquele ar debochado que sempre me tirava do sério.
— Ora, ora, ora, se não é a ladra de namorados. Primeiro o Michael, agora o Daren? — Samantha falou, se aproximando com uma confiança que me deixava tensa.
Camilla abriu um sorriso provocador, e Samantha continuou:
— Cuidado, hein, Cams. O próximo pode ser o Jason — disse, quase em tom de aviso.
Antes que eu pudesse reagir, Samantha segurou meu rosto com força, os dedos pressionando minha pele de forma quase dolorosa.
— Não quero você perto do meu namorado, entendeu? Se você fizer isso, vai ter que se ver comigo — ameaçou, a voz firme e fria.
Assenti, mesmo sabendo que era impossível me afastar do Daren agora. Ele era meu par até o final do período, mas Samantha parecia não se importar com isso.
— Ah, e só mais uma coisa... — disse, e antes que eu pudesse piscar, senti a palma da mão dela acertando meu rosto. O tapa ecoou em meus ouvidos, doendo mais no orgulho do que na pele. Samantha se virou de costas, riu com Camilla, e ambas se afastaram desfilando pelo pátio como se tivessem vencido alguma batalha. Minhas lágrimas escorriam sem que eu pudesse controlar. Cansada de tudo, desejei ter um pai que me protegesse, ou uma mãe que tivesse tempo para ouvir meus desabafos. Mas a minha só parecia pensar no trabalho, indiferente ao meu sofrimento. Fiquei ali, sentada, as lágrimas ainda rolando, quando um perfume doce chamou minha atenção. Era Angel. O cheiro era tão familiar que meu corpo inteiro pareceu relaxar. Só ela tinha aquele perfume, e só ela sabia me fazer sentir segura.
— Alex? Por que você está chorando? — perguntou Angel, preocupada, os olhos azuis cheios de cuidado.
— Nada não, Angel. Só lembrei do meu pai — menti, tentando conter o soluço.
— Você sabe que pode contar comigo para tudo, né? — disse, e eu assenti, sentindo uma onda de conforto percorrer meu peito.
Ficamos ali, lado a lado, apenas sentindo a presença uma da outra. Nenhuma palavra foi necessária. Era como se a calma de Angel pudesse absorver toda a minha dor.
— Está ficando tarde. Combinei de fazer o trabalho com o Jay. Você vem? — perguntou, quebrando o silêncio.
Assenti, levantando-me devagar. Ela seguiu em direção à biblioteca, enquanto eu caminhei para o dormitório feminino, sentindo o peso do dia ainda nos ombros.
— Onde você estava, loira? — perguntou Charlotte, com aquele tom curioso que eu já conhecia bem.
— Com a Angel, ruiva — respondi, sorrindo, e fui direto para o banheiro.
Tomei um banho demorado, deixando a água quente levar um pouco da tensão acumulada. Vesti meu pijama e sentei-me na cama, tentando organizar os pensamentos antes de enfrentar o próximo momento do dia.
— Hora da verdade, meninas — anunciou Nicolle, com aquele tom que misturava empolgação e mistério. O "Hora da Verdade" era nosso joguinho particular, onde compartilhávamos tudo que acontecia em nossas vidas.
— Tá. — comecei, pensativa, lembrando do dia estranho com Daren. — Hoje na biblioteca eu e Daren meio que fizemos as pazes enquanto fazíamos nosso trabalho.
— Mentira! — Charlotte gritou, incrédula. — Daren McClaren? O mesmo que zoa você desde o começo das aulas? Esse Daren?
Assenti, quase sorrindo. Era estranho admitir que ele podia ser diferente, mesmo que por algumas horas.
— Nicolle, sua vez — disse Charlotte, finalmente cedendo.
— Jason me beijou. — falou Nicolle, suspirando. — Foi tão estranho, mas tão bom ao mesmo tempo.
— Onde aconteceu? Como? Por quê? — Charlotte explodiu de curiosidade.
— Calma, Charlotte, deixa ela explicar — intervi, tentando evitar que ela atropelasse Nicolle.
— Nós nos encontramos por acaso na piscina interna. Eu estava nadando e ele entrou. Ficamos juntos na água, conversando, até que ele se aproximou e me beijou — Nicolle explicou, os olhos brilhando com a lembrança.
— Charlotte, você vez — disse Nicolle, ainda espantada.
— Michael e eu vamos estudar amanhã na biblioteca — disse Charlotte, e ao me olhar completou: — Não é nada demais, Alex, eu prometo.
— Ué? O que eu tenho a ver com ele, Charlotte? — perguntei, confusa.
— É que vocês são tão amigos e... — tentou explicar.
— Nada. Eu e Michael somos só amigos. Ele é meu melhor amigo, assim como vocês. Além disso, você é a dupla dele, então tem todo o direito de estudar com ele — falei, firme, deixando claro que não havia rivalidade.
— Mas você gosta dele? — insistiu Charlotte, baixando a voz.
— Ruiva, eu não gosto dele. Eu gosto do jeito que ele me trata, mas isso é completamente diferente de gostar — disse, sabendo que Charlotte guardava sentimentos por Michael, mas jamais admitiria perto de mim.
Jogamos conversa fora por mais alguns minutos, rindo de coisas bobas e tentando esquecer a tensão do dia. O quarto estava com aquela luz amarelada suave, que deixava tudo mais acolhedor, e mesmo cansada, senti uma ponta de conforto por estar rodeada das minhas amigas. O barulho distante dos corredores parecia tão distante ali dentro, como se estivéssemos em uma bolha só nossa. Eventualmente, a conversa foi diminuindo, cada uma se acomodando no seu canto. Charlotte começou a folhear um caderno, Nicolle ficou mexendo no celular, e eu me encolhi na cama, abraçando um travesseiro. Sentia meu coração ainda acelerado pelas confusões do dia, pelas palavras duras de Samantha e pelo beijo inesperado de Nicolle, tudo parecia girar dentro da minha cabeça. Eu suspirei, fechando os olhos por um instante, tentando organizar os sentimentos que se misturavam de forma tão confusa. Foi quando senti a presença de Angel de novo, mesmo que apenas na lembrança do perfume doce que ela sempre carregava. Um calorzinho de segurança percorreu meu peito, e pude finalmente relaxar um pouco. Era bom saber que, apesar de tudo, existiam pessoas que se importavam comigo de verdade.
— Alex? — Nicolle quebrou o silêncio, e eu abri os olhos. — Tá tudo bem?
— Sim... — respondi, sorrindo fraco. — Só cansada de um dia cheio.
Charlotte ergueu a cabeça e me lançou um olhar curioso, mas não disse nada. A verdade é que naquele momento, eu não queria mais discutir nada, não queria mais justificativas ou explicações. Só queria descansar e me sentir segura no meu próprio espaço. Pouco a pouco, a noite foi se instalando no dormitório. As luzes começaram a ser apagadas uma a uma, e o silêncio ficou mais profundo, só quebrado pelo barulho suave da chuva lá fora, que começara a cair sem que percebêssemos. Era como se o mundo lá fora estivesse lavando todas as tensões do dia, e eu me permiti, finalmente, fechar os olhos e deixar a mente vagar, mesmo que por pouco tempo. Enquanto a respiração das minhas amigas se tornava regular e ritmada, senti uma mistura de cansaço e alívio. Não importava o que Samantha ou Camilla fizessem, ou como o Daren se comportasse, ou até mesmo os sentimentos confusos que surgiam entre todos nós. Ali, naquele momento, eu estava segura. E isso bastava. Logo, o sono começou a me dominar, e adormeci pensando que, talvez, amanhã pudesse ser um dia um pouco mais leve. Um dia em que eu pudesse, finalmente, respirar sem medo, sem brigas, sem surpresas que me deixassem sem chão. Um dia só meu, com minhas amigas e minha própria paz.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
