52

5 0 0
                                        

Michael

A semana passou voando. — pensei, olhando pela janela do dormitório. O sol se escondia devagar atrás das árvores, tingindo o céu com tons alaranjados que pareciam calmos demais pra tudo o que tinha acontecido.
Alex ainda estava no início do seu primeiro coração partido... e isso me partia o coração também. Ver minha melhor amiga daquele jeito era pior do que qualquer coisa. Ela sempre foi o tipo de pessoa que via o melhor nos outros, sempre doce, gentil, incapaz de machucar alguém e agora era ela quem estava quebrada.
Pensei em tudo o que ela já tinha passado, principalmente depois da cirurgia no coração. Era quase impossível acreditar que alguém como o Daren pudesse ter coragem de destruir alguém tão frágil e ao mesmo tempo tão forte.
Suspirei, passando a mão pelos cabelos.
Eu nunca conseguiria fazer isso com a Charlotte... — murmurei pra mim mesmo.
Só de imaginar a ideia já me dava um aperto no peito. Eu preferia apanhar mil vezes do que trair a minha ruivinha.
O barulho da porta se abrindo me tirou dos pensamentos. Era o Jason, com um pacote de salgadinhos na mão e aquele sorriso cansado que ele dava quando queria fingir que estava tudo bem.
Tá pensando em quê, maluco?  — perguntou, jogando o pacote na minha cama .
Na Charlotte e na Alexandra. — falei, me recostando na parede, o olhar ainda perdido na janela. — Sabe, cara... a Alexandra não merecia estar passando por isso. Ela é tão doce, tão amorosa...
Jason se aproximou devagar, abrindo o pacote de salgadinhos e se sentando na beira da cama. — É... ela é o tipo de pessoa que parece feita de luz, sabe? — comentou, jogando um salgadinho na boca. — E o Daren... bom, ele apagou um pouco disso.
Assenti, sentindo o nó na garganta apertar. — O pior é que ela ainda deve amar aquele idiota. Eu conheço a Alex, ela entregou o coração inteiro e quando ele quebrou, levou junto um pedaço dela.
Jason me olhou em silêncio por um instante, depois soltou um suspiro. — Eu também tô preocupado. A Nick me contou que ela tem evitado o refeitório. Parece que perdeu o brilho.
— E ela não pode, cara. — falei com firmeza. — A Alex lutou tanto pra chegar até aqui, depois daquela cirurgia... Ela é uma guerreira. Não pode deixar um cara idiota fazer ela esquecer disso.
Jason apoiou o queixo nas mãos, pensativo. — O Scott tá tentando ficar por perto, né?
. — respondi, coçando a nuca. — E ainda bem. Ele tem um coração bom, e parece entender o que ela precisa — espaço, paciência e alguém que não vá julgá-la.
Jason riu de leve. — Olha só, o Michael todo psicólogo agora.
Revirei os olhos, mas não consegui conter um sorriso. — Cala a boca, idiota. Eu só me importo, tá?
— Eu sei. — ele respondeu, levantando e me jogando o pacote. — Bora descer, vai. A Charlotte e a Nick devem estar esperando a gente pra jantar.
Levantei também, pegando minha jaqueta.
Se eu ver o Daren, prometo que me controlo.
— Não prometo nada. — Jason disse, com um meio sorriso.
Saímos juntos do quarto, rindo baixo. Descemos juntos pro refeitório, eu e o Jason, ainda rindo de alguma besteira que ele tinha dito no corredor. O cheiro de comida quente tomou o ar assim que entramos, cheiro de  batata frita, lasanha, aquele barulho típico de talheres, conversas e risadas misturadas. Depois da semana que a gente teve, só de estar ali já parecia um respiro.
Mano, tô morrendo de fome. — Jason disse, pegando uma bandeja.
E quando é que você não tá? — provoquei.
Ei, metabolismo rápido! — respondeu com um sorriso debochado.
Pegamos a comida e procuramos uma mesa. Foi então que vi Charlotte e Nicolle do outro lado do salão, já sentadas juntas, conversando animadas. O riso delas se destacava no meio do barulho. Jason acenou pra Nick, e ela logo chamou a gente com um gesto.
Nos aproximamos. Charlotte sorriu quando me viu, e foi impossível não sorrir de volta.
Até que enfim, demoraram. — disse ela, fingindo impaciência.
— A culpa é dele. — respondi, apontando pro Jason. — Ele quis pegar sobremesa antes do prato principal.
— Prioridades, cara. — Jason respondeu, dando de ombros e arrancando risadas das meninas.
Sentamos com elas. O clima estava leve, diferente dos últimos dias. Nick contava sobre uma confusão na aula de matemática computacional, algo sobre um aluno dormindo e roncando alto e Charlotte ria até quase chorar.
Eu juro, Char, parecia um trator! — Nick dizia entre risos.
— Se eu tivesse lá, teria gravado. — Jason comentou, rindo junto.
Gente, o baile de fim de ano tá chegando. — Charlotte mudou de assunto, ainda sorrindo. — Já pensaram no que vão vestir?
— Eu só quero comer de graça e dançar com a minha namorada. — falei, rindo.
Charlotte arqueou uma sobrancelha, divertida. — Só isso?
— Tá, e ver você com um vestido que vai me fazer passar mal. — completei, e ela deu um leve tapa no meu braço, rindo.
Eu vou de preto. — Jason disse. — Clássico, elegante, irresistível.
Nick fez careta. — Irresistível? Duvido.
— Tá me desafiando, Nicolle Carter? — ele provocou, e ela riu.
Era bom ver todo mundo assim leve, sorrindo, como se por alguns instantes nada estivesse errado. A gente falava de férias, de música, de séries ruins que amávamos assistir juntos.
Depois que terminamos de comer, ficamos só nós quatro ali, rindo e lembrando das primeiras semanas de aula. A energia estava leve, cheia de risadas e provocações.
Ai, vocês eram muito idiotas e escrotos! — falou Nicolle, olhando para Jason com aquele sorriso travesso que só ela tinha.
— E você uma insuportável, eu hein. — retruquei, dando risada junto.
— Mas você queria que eu fizesse todo o trabalho do nosso projeto por você! — ela revirou os olhos.
Eu ri, sacudindo a cabeça. — E o que tem? Você é bem mais inteligente que eu e também eu ia atrasar o projeto — falei, dando de ombros. — Eu sou um zero à esquerda.
À esquerda, à direita, no centro. Você é um zero e ponto. — Nicolle respondeu triunfante, batendo no peito como se tivesse ganho a batalha.
Jason riu alto, sacudindo a cabeça. — E ainda diz que sou eu que dou trabalho! — brincou, lançando um olhar cúmplice para Nicolle.
É sério! — Nicolle rebateu, rindo. — Mas tudo bem, admito que você tem seu charme, mesmo sendo um zero.
Charlotte, ao nosso lado, sorria de forma doce, observando a energia caótica da Nicolle se misturar com a nossa. Nick apenas balançava a cabeça, rindo baixo, tentando se manter fora das provocações.
Vocês dois são impossíveis — falei, jogando as mãos para o alto, ainda sorrindo. — Mas não dá pra não se divertir com vocês.
Nicolle me lançou um olhar malicioso. — Se acostuma não, Michael. Eu só dou pitadas de gentileza.
— Sonsa.— respondi, rindo baixo.
O riso continuou ecoando pela sala, cada lembrança boba do início das aulas arrancando gargalhadas nossas. Por alguns minutos, era só a gente ali, sem pressa, sem preocupações... e, por mais que o mundo lá fora estivesse bagunçado, esse momento fazia tudo parecer mais leve.

Colégio InternoOnde histórias criam vida. Descubra agora