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Scott

A semana de provas finais finalmente tinha acabado. — pensei, encostado no balcão da recepção do colégio. A última foi de Técnicas de Comunicação, e a Alex saiu dizendo que não tinha ido muito bem. Eu até entendo... quem é que consegue se concentrar depois de ter o coração partido na frente de todo mundo?
A Alyssa veio buscar a gente hoje; ontem ela não pôde, porque fez uma mini viagem de trabalho com o meu pai. Então estávamos ali, só eu e a Alex na recepção, com a Kathy, a inspetora do colégio, por perto.
Falando nela... a gente denunciou a Brianna e a Sophie por todos os insultos e humilhações que fizeram contra a Alex. No fim, elas foram apenas suspensas. Pra mim, foi pouco, eu queria contar tudo pro meu pai e garantir que fossem expulsas de vez. Mas, como sempre, a Alex não quis transformar aquilo numa guerra.
Ela nunca quer. Mesmo quando é a mais machucada da história.
Quando a Alyssa entrou, a Alex foi logo beijá-la na bochecha. Eu cumprimentei com um aperto de mão meio desajeitado porque ainda estou me adaptando a essa história de ter madrasta.
Estão prontos, crianças? — ela perguntou.
Estamos, sim — nós duas assentimos.
O motorista veio com as malas e jogou tudo no porta-malas do carro. A Kathy veio se despedir:
Querida, vou sentir muitas saudades. — disse ela, abraçando a Alex.
— Obrigada, Kathy. — Alex retribuiu a abraço, com aquele jeito que sempre amacia as pessoas.— Eu também vou sentir muitas saudades suas.
Entramos no carro. Alyssa sentou ao lado do motorista; eu e a Alex no banco de trás, conversando baixinho. A Alyssa, prática, já perguntou:
— O que vocês querem pedir de comida?
— Pode ser comida japonesa? — a Alex respondeu rápido, e Alyssa concordou.
Você também quer, Scott? — Alyssa olhou pra mim.
— Sim, por favor — eu confirmei.
Então tá decidido, comida japonesa. — Alyssa sorriu, já pegando o celular pra fazer o pedido. — Sushi, temaki, yakisoba... o que vocês querem exatamente?
Hm... — Alex colocou o dedo no queixo, pensativa. — Eu quero um temaki de salmão com cream cheese e... ah, e guioza. — Ela sorriu, como se já estivesse saboreando na mente.
Boa escolha, filha.— Alyssa comentou, anotando mentalmente. — E você, Scott?
— Eu fico com um combinado tradicional, por favor. — respondi. — E yakisoba de frango, se tiver.
— Claro que tem — ela riu, discando o número. — Mais um refrigerante grande e... sobremesa?
— Sorvete de chá verde! — Alex respondeu empolgada, fazendo Alyssa rir.
Enquanto Alyssa finalizava o pedido, olhei para a Alex. Ela estava encostada no vidro da janela, observando a cidade passar, o reflexo das luzes dançando nos olhos dela. Mesmo com o coração machucado, ela ainda conseguia sorrir.
Está animada pra viagem? — perguntei.
Muito. — respondeu baixinho, virando o rosto pra mim. — É a minha primeira vez saindo do país.
Então vamos fazer valer a pena. — sorri.
Ela abriu um sorriso pequeno, tímido, mas sincero.
Obrigada, Scott.
— Pelo quê?
— Por me fazer esquecer um pouco de tudo isso. — murmurou, ainda olhando pela janela.
O carro seguiu silencioso por alguns minutos, até Alyssa desligar o telefone.
Pedido feito! — anunciou. — Chega em quarentena e cinco minutos.
Perfeito — eu disse, me ajeitando no banco.
Alex suspirou e encostou a cabeça no meu ombro, sem dizer nada. Eu fiquei imóvel por um segundo, sem saber o que fazer, até que acabei relaxando também. Ficamos assim, em silêncio, o som do motor misturado ao barulho da chuva fina que começava a cair lá fora.
Era o tipo de momento que a gente não planeja, só sente. Depois de alguns minutos, o carro estacionou em frente à casa. As luzes estavam acesas, e dava pra sentir o cheiro suave de lavanda vindo do jardim, coisa da Alyssa, claro.
Eu saí primeiro e abri a porta pra Alex, que ainda parecia meio sonolenta do trajeto.
Cuidado com o degrau — avisei. Ela assentiu e segurou meu braço pra não tropeçar.
Alyssa entrou logo atrás, animada como sempre, já conferindo o celular.
O pedido deve chegar em vinte minutos — avisou. — Vocês dois podem subir e se trocar, ok? Quero todo mundo confortável pra jantar.
— Sim, senhora — respondi, e Alex riu baixinho, balançando a cabeça.
Subimos as escadas, e quando chegamos ao corredor, ela parou na porta do quarto.
— Scott... — chamou, virando pra mim.
— Hm?
— Obrigada por hoje. — disse, simples, mas com um tom sincero que me desarmou.
Não precisa agradecer, Alex. — sorri. — Só quero ver você bem.
Ela me olhou por um instante, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas acabou só sorrindo de volta e entrando no quarto.
Fui pro meu, tomei um banho rápido e vesti uma camiseta cinza e uma calça de moletom. Quando desci, a mesa já estava posta, cheia de bandejas, hashis e molhos espalhados. Alyssa estava servindo os refrigerantes, e Alex, sentada ao meu lado, parecia bem mais tranquila do que estava de manhã.
Está com uma cara melhor, mocinha — comentou Alyssa, sorrindo pra ela.
Acho que é o cheiro do sushi. — Alex riu, abrindo a caixa com cuidado. — Ou talvez o fato de eu estar com pessoas boas.
Alyssa piscou pra mim, e eu senti minhas orelhas esquentarem.
Então vamos comer antes que esfrie. — disse Alyssa.
A gente começou a jantar, e por um tempo parecia que nada de ruim tinha acontecido nas últimas semanas. Alex ria das piadas da Alyssa, me oferecia pedaços do seu temaki e até tentou me ensinar a segurar os hashis direito.
Quando o jantar acabou, Alyssa recolheu as embalagens e subiu pro quarto, dizendo que ainda precisava resolver umas coisas do trabalho. Ficamos só eu e Alex na sala, com a TV ligada em algum programa qualquer, só pra fazer barulho de fundo.
Essa viagem vai ser incrível, Scott. — ela disse, abraçando uma almofada. — Eu sinto isso.
Também acho. — respondi. — Paris tem esse poder de deixar tudo mais bonito... até o que parecia perdido.
Ela me olhou por um instante, séria, antes de sorrir.
— Você fala bonito demais.
— E você acredita demais nas pessoas. — retruquei.
Acho que é um defeito.
— Não. — balancei a cabeça. — É o que faz você ser quem é.
Alex desviou o olhar, corando, e eu percebi o quanto queria proteger aquele sorriso.
Scott, eu não estou me sentindo muito bem, acho que vou descansar um pouco.— falou não me olhando
Eu também vou subir.— falei
Então adianta que eu vou beber uma água primeiro. Boa noite, Scott.— falou se levantando e indo para a cozinha
— Boa noite, Alex.
Subi pro quarto e me joguei na cama, mexendo no celular, ainda com o barulho do jantar ecoando. Peguei o celular e comecei a rolar o feed sem nem prestar muita atenção. A cabeça estava longe mais especificamente, na Alex.
Não dava pra tirar da mente a expressão dela antes de subir. Tinha algo diferente ali... não era só cansaço. Era como se algo dentro dela tivesse se desligado por um instante. Suspirei e deixei o celular de lado, encarando o teto. Eu conhecia aquele olhar. A Alex tentava esconder quando algo a incomodava, tentava sorrir pra não preocupar ninguém. Mas o jeito como ela desviou os olhos, como apertou o copo d'água na mão antes de ir pra cozinha... não era só indisposição. Me levantei, hesitante. Talvez fosse melhor deixar ela descansar. Ou talvez ela precisasse de alguém.
Fiquei parado na porta do quarto por uns segundos, pensando, até ouvir passos suaves no corredor. A Alex estava voltando, segurando uma garrafa de água. Parecia meio pálida, o cabelo caindo em mechas soltas sobre o rosto.
Você tá bem? — perguntei, sem pensar muito.
Ela ergueu os olhos devagar.
Só um pouco tonta... deve ser o cansaço. — tentou sorrir, mas o sorriso não chegou aos olhos.
Dei um passo à frente, preocupado.
— Quer que eu chame a Alyssa?
— Não, não precisa. — respondeu rapidamente. — Eu só vou deitar um pouquinho, tá? Amanhã já vou estar bem.
Assenti, meio sem convicção.
— Tá... mas se piorar, me chama.
— Prometo. — disse baixinho, e entrou no quarto.
Fiquei ali, parado diante da porta fechada, ouvindo o silêncio se instalar pela casa. Tentei voltar pro meu quarto, mas a preocupação não me deixava em paz. Peguei o celular de novo e abri o chat com ela. Digitei "Se sentir alguma coisa, me manda mensagem, tá?" e mandei.
A notificação apareceu "lida" quase de imediato. Um minuto depois, a resposta veio:
Alex: Obrigada, Scott. Boa noite.
Sorri de leve, mas o nó no peito não passou.
Deitei de novo, encarando o teto escuro. A viagem pra Paris estava a um dia de distância, e por algum motivo, eu sentia que ela seria mais importante do que qualquer um de nós imaginava
[...]
Acordei com o som insistente do despertador. O quarto ainda estava meio escuro, e por alguns segundos fiquei ali, deitado, tentando lembrar em que dia estávamos. Até que a lembrança veio: a viagem. Suspirei, jogando as cobertas pro lado. Peguei o celular no criado-mudo e me levantei. Tomei um banho rápido, vesti um jeans preto, uma camiseta branca e meus tênis da Nike.
Quando desci, a mesa do café já estava posta e meu pai estava sentado, lendo o jornal. A cena de sempre.
— Bom dia, pai. — falei, sentando-me à mesa.
— Bom dia, filho. Dormiu bem? — perguntou sem tirar os olhos do jornal.
— Dormi sim. — respondi, pegando uma torrada e passando manteiga.
Ele olhou o relógio, dobrou o jornal e se levantou.
Come rápido, precisamos comprar algumas coisas antes da viagem.
Assenti e apressei o café. Quando terminei, subi de volta ao quarto pra pegar minhas coisas. A casa ainda estava silenciosa,  Alex e Alyssa provavelmente dormiam. Peguei o celular, a carteira e o casaco, e desci novamente.
Podemos ir, pai. — avisei.
Saímos e fomos direto para o shopping. Meu pai parecia saber exatamente pra onde estava indo, então só o segui. Paramos em uma joalheria famosa, e o vendedor nos reconheceu de imediato, trazendo uma pequena caixa preta.
Meu pai a abriu, e um anel brilhou sob a luz.
— É lindo — comentei, sem saber ao certo o que dizer.
Ele sorriu. — É. Quero fazer o pedido em Paris, no topo da Torre Eiffel.
Assenti, retribuindo o sorriso.
— Boa sorte, pai.
Depois de alguns minutos, pedi licença.
— Vou dar uma volta, já volto.
Ele assentiu e me entregou o cartão, mas recusei. Eu queria pagar com meu próprio dinheiro. Caminhei até uma loja de acessórios e, depois de olhar várias vitrines, meus olhos pararam em um colar com uma borboleta azul. Delicado, simples, bonito. Era a cara da Alex. Comprei sem pensar duas vezes.
Quando voltei, meu pai sugeriu que levássemos algo pra comer. Combinamos que ele passaria num restaurante francês pra pegar o que a Alyssa gosta, e eu iria ao Burger King buscar algo pra Alex.
Entrei no Burger King e dei de cara com Daren e Samantha juntos. Fingi não ver. Passei direto.
Bom dia, o que vai ser? — perguntou a atendente.
Um cheeseburger duplo com molho barbecue, batata supreme e um refrigerante grande, pra viagem.
Paguei, sentei e fiquei esperando o pedido. Por um instante, me peguei pensando na Alex, no sorriso calmo, nas pequenas manias, na forma como sempre tenta ver o lado bom das coisas.
Senhor, seu pedido está pronto. — a atendente avisou.
Obrigado. — respondi, pegando o saco e saindo.
Quando voltei, meu pai já me esperava no carro. Seguimos de volta pra casa.
Ao entrar, vi Alex descendo as escadas, já pronta, linda como sempre,  blusa leve, cabelo solto, o olhar sereno.
Trouxe isso pra você. — falei, entregando a sacola.
Ela abriu, viu o lanche e sorriu daquele jeito tímido e doce que me desmonta toda vez.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, meu pai gritou lá de cima:
Scott! Venha me ajudar com as malas!
Beijei a testa dela e subi.
O quarto dela estava diferente, os ursinhos que o Daren tinha dado não estavam mais lá. O espaço parecia mais vazio, mas de algum jeito, mais leve. Peguei as malas dela e levei pro carro, junto com as minhas.
Alyssa e meu pai já esperavam do lado de fora.
Vamos, crianças. — disse Alyssa, animada.
Entramos no carro, e logo seguimos pro aeroporto.
Durante o voo, eu e Alex sentamos juntos. O avião ainda não havia decolado quando ela me mostrou o catálogo de filmes. Escolheu um de romance, claro. Eu só ri, fingindo reclamar.
Horas depois, quando finalmente pousamos em Paris, ela parecia uma criança,  os olhos brilhando, o sorriso largo, o encantamento puro.
Obrigada, Damian! — ela disse, abraçando meu pai.
Ele riu, e eu também. Era impossível não sorrir vendo ela daquele jeito. Seguimos até o Hotel Royal Monceau. Depois do check-in, meu pai entregou nossos cartões de quarto: o dela ficava na frente do meu, e o deles no final do corredor. Deixamos as malas e descemos pra conhecer o hotel.
Aqui é lindo, Scott. — ela disse, observando tudo em volta.
Que bom que gostou. — respondi.
Ela se virou pra mim, tão perto que por um segundo esqueci de respirar. Sem pensar, toquei o rosto dela e a beijei. De início, ela hesitou, mas logo retribuiu. O beijo foi doce, calmo, cheio de significado. Quando nos afastamos, ela corou, sorrindo.
Me perdoa, Alex... — murmurei. — Eu não sei o que deu em mim.
Mas, no fundo, eu sabia.
Não era impulso, era certeza.
A certeza de que, por ela, eu faria qualquer coisa.

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