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Michael

O sábado amanheceu luminoso, o céu de um azul limpo que quase doía de olhar. A claridade atravessava as cortinas do meu quarto, e eu fiquei deitado por alguns minutos, apenas encarando o teto, deixando que as lembranças da noite anterior voltassem, uma a uma, como flashes que não queriam se apagar. O baile tinha sido... incrível. A música, alta o suficiente para fazer o chão tremer, ainda parecia bater dentro de mim. As luzes coloridas girando, as risadas, a energia de um salão lotado — tudo se misturava em um retrato vibrante que me fazia sorrir sozinho. Eu tinha dançado mais do que planejava, tinha conversado com gente que nunca tinha trocado uma palavra antes e, por algumas horas, tinha me esquecido de tudo que normalmente me pesa.
Era como se, por uma noite, a vida tivesse ficado leve. Mas, por mais que eu tentasse ignorar, havia algo que destoava, um detalhe que voltava sempre que o silêncio do quarto se instalava: Alexandra não estava lá.
Não sei bem por que me importei tanto com isso. Talvez fosse só expectativa boba. Talvez fosse o olhar dela que me intriga, sempre meio distante, como se vivesse em outro mundo. Talvez fosse o contraste: justamente por não parecer do tipo que gosta dessas festas, eu queria ver como seria se ela tivesse aparecido.
Mas não apareceu.
E isso ficou ecoando. Entre uma dança e outra, entre um gole de refrigerante e uma piada qualquer, em algum momento meus olhos varreram o salão em busca dela. Vi todos, menos Alexandra. Vi as amigas dela tentando fingir naturalidade, mas percebi nos gestos, nas olhadas rápidas para a porta, que elas também notaram a ausência. Agora, sozinho no quarto, o silêncio pesa de forma diferente. O baile foi tudo que eu precisava — leve, barulhento, cheio de vida. E ainda assim, sinto essa lacuna, esse vazio discreto, mas insistente.
Levantei, lavei o rosto e encarei meu reflexo no espelho. Me perguntei por que diabos isso me incomodava tanto. Não sou próximo dela, mal a conheço. Mas há algo no jeito dela existir, retraída e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar, que me deixa inquieto.
Suspirei e voltei para a cama. As imagens da festa se misturavam: as pessoas dançando até perder o fôlego, as risadas altas, o brilho das luzes refletindo em cada rosto. Tudo isso ainda estava vivo em mim. Mas, junto, a lembrança de quem não esteve lá. A ausência dela foi silenciosa, mas tão alta quanto qualquer música daquela noite.
E agora, no silêncio do sábado, era justamente isso que mais ecoava dentro de mim.
Levantei-me de vez, deixando o colchão e o silêncio do quarto para trás. Caminhei até o banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água morna escorrer sobre mim, levando embora o cansaço e a euforia da noite anterior. Depois do banho, vesti uma roupa simples e desci para o refeitório do colégio. O som de cadeiras arrastando, talheres tilintando e conversas misturadas me envolveu imediatamente, junto com o cheiro acolhedor de pão fresco e café.
Me aproximei da mesa dos meus amigos e comecei a me servir. Enquanto pegava ovos mexidos e pão, meus olhos vasculhavam o salão. Foi quando a vi: Alexandra. Ela entrou com suas amigas, caminhando com aquela postura calma e elegante que sempre me deixava desconcertado.
Sem pensar muito, decidi ir até ela. Cada passo parecia diminuir a distância entre nós, mas ao mesmo tempo aumentava a tensão no meu peito.
Olá, Alexandra — cumprimentei, tentando soar natural, mas sentindo o coração acelerar.
Ela olhou para mim, seus olhos claros encontrando os meus, e sorriu levemente:
Oi, Michael.
O sorriso dela era pequeno, quase tímido, mas suficiente para me deixar aliviado. Havia algo reconfortante naquele gesto, mesmo que breve.
Quer se sentar comigo? — perguntei, tentando soar casual.
Ela balançou a cabeça, mas não se aproximou. A expressão no rosto dela se tornou séria, ponderada:
Acho melhor a gente não se falar agora — disse, pausando por um instante antes de continuar. — Pertencemos a grupos muito diferentes... e seria complicado misturar as coisas.
Fiquei quieto, absorvendo as palavras. Havia uma mistura de cautela e firmeza no tom dela. Eu queria insistir, mas algo na sinceridade da voz dela me fez recuar, respeitar o espaço que ela delimitava.
Entendi — murmurei, com um leve sorriso que tentava disfarçar a decepção.
Ela sorriu de volta, pequeno e contido, e então voltou para as amigas, deixando meu coração mais pesado do que antes. Voltei para a mesa dos meus amigos, tentando mergulhar nas conversas deles, mas, mesmo cercado de risadas e barulho, a presença dela permanecia lá, silenciosa e insistente, ocupando cada pensamento que eu tinha. Sentei-me de volta à mesa, ainda com o sabor do café da manhã na boca, e comecei a ouvir as piadas e comentários dos meus amigos. Havia uma leveza no ar; o sábado prometia ser longo e divertido. Depois de algumas risadas, um dos parcas bateu na mesa e disse:
Ei, está um dia perfeito lá fora. Que tal a gente ir para a piscina?
Todos concordaram imediatamente. O sol brilhava alto, e a ideia de mergulhar na água gelada e relaxar fazia muito sentido. Alguns começaram a discutir quem iria buscar as toalhas e protetor solar, outros só riam, já imaginando as brincadeiras e mergulhos.
Perfeito! — respondi, sentindo uma empolgação que quase me fez esquecer o encontro breve com Alexandra. — Vamos chamar as cats também.
Os outros amigos sorriram, e logo começaram a organizar tudo. Risadas e provocações voavam de uma mesa para a outra enquanto nos levantávamos, carregando pratos vazios e garrafas de suco. A atmosfera era leve, despreocupada. Mesmo assim, não consegui evitar de olhar de relance para a entrada do refeitório. Alexandra já não estava mais ali, e uma pontinha de frustração me acompanhava, misturada à excitação do plano com os parcas e as cats. Suspirei, tentando afastar o pensamento, e me concentrei na diversão que estava por vir.
Depois de combinarmos de ir à piscina, cada um de nós começou a se mexer, organizando o que precisava ser levado. O refeitório ainda estava cheio de alunos, alguns terminando o café, outros apenas rindo e comentando sobre o baile da noite anterior. O cheiro de pão fresco e café recém-passado ainda pairava no ar, misturando-se com o perfume doce das meninas que passavam pelas mesas. Peguei minha garrafa de água, ajeitei meu lugar por mais alguns minutos no refeitório e observei o movimento ao redor. O sol já iluminava o pátio lá fora, prometendo um dia escaldante. Risadas altas e conversas animadas enchiam o espaço, e o clima leve fazia meu humor subir junto Depois de terminar meu suco, levantamo-nos e seguimos para os quartos para trocar de roupa. Cada um escolhia sua roupa de banho entre risadas e provocações amigáveis; os comentários sobre quem ficaria mais elegante ou quem provavelmente se molharia primeiro não paravam. O vai e vem de toques rápidos e passos apressados criava uma energia contagiante, misturando expectativa e diversão.
Finalmente prontos, caminhamos até a piscina. A água brilhava sob o sol forte, refletindo o azul do céu. O grupo já se animava, tentando adivinhar quem faria a maior gracinha ou quem conseguiria arrastar alguma das cats para uma brincadeira mais ousada na água. A animação era tão contagiante que, mesmo sentindo uma pontinha de nervosismo, meu coração batia mais rápido, ansioso pelo que estava por vir.
Aposto que o Daren vai se empurrar primeiro — comentou um deles, rindo enquanto ajustava os óculos de sol.
Não, vai ser você — rebateu outro, jogando um olhar desafiador. — Lembra da última vez? Você caiu sozinho e ninguém conseguiu ajudar.
As risadas se misturavam aos passos rápidos pelo pátio do colégio, o som das nossas vozes se misturando ao bater do sol nas folhas das árvores. Cada passo trazia a expectativa do dia que nos esperava: piscina, água gelada, brincadeiras, e aquela sensação leve de liberdade que só um sábado sem obrigações conseguia dar.
Chegando à área da piscina, o cheiro de cloro e protetor solar nos atingiu como uma onda. O céu estava limpo, refletido na água azul que cintilava sob o sol. As girls, as cats, já estavam sentadas nas cadeiras, rindo e conversando, com toalhas coloridas espalhadas ao redor, óculos de sol e chapéus que davam um ar de veraneio ao ambiente. Camila ria de algo que Kayla dizia, enquanto Kathleen ajeitava o cabelo molhado e Samanta parecia estar prestes a puxar alguma brincadeira com os rapazes.
Ei, vocês demoraram! — gritou Camila, acenando enquanto ajustava a boia que segurava. — A água está perfeita!
— Nada como começar o sábado do jeito certo — respondi, sorrindo e tirando os tênis. O sol já batia quente nas costas, fazendo o corpo formigar com a expectativa de entrar na água gelada.
Nos aproximamos da borda da piscina. Os rapazes se empolgaram, jogando-se na água com gritos altos e risadas que ecoavam pelo espaço aberto. Um por um, caíam na água, respingos voando em todas as direções, molhando quem estava mais perto. A temperatura gelada fez meu corpo estremecer por um segundo, mas depois a sensação refrescante tomou conta, lavando qualquer resquício de sono ou preocupação da manhã. As cats começaram a rir, correndo para perto da borda, algumas se jogando com cuidado, outras apenas sentadas, deixando que os rapazes tentassem provocá-las a entrar na água. O ambiente era caótico e divertido: respingos, gritos, corridas em volta da piscina, uma energia que parecia não ter fim.
Michael! — gritou Camila, apontando para mim com um sorriso malicioso. — Se molhar agora ou vai se arrepender depois!
Não pensei duas vezes. Corri, escorreguei levemente na borda e mergulhei de cabeça, sentindo a água gelada envolvendo cada centímetro do corpo. Um choque delicioso, e logo estava rindo, emergindo com os cabelos pingando e o coração batendo forte de pura adrenalina.
O sol brilhava alto, refletindo-se na água de um azul intenso, fazendo tudo parecer quase irreal, uma pintura viva de verão e liberdade. Cada respingo parecia carregado de risadas, de gritos, de alegria pura, sem preocupações ou barreiras.
Mesmo com a energia ao redor, um pequeno pensamento sobre Alexandra insistia em aparecer. Mas a sensação de estar ali, cercado por amigos, com o sol batendo, a água gelada e as risadas contagiantes, ajudava a empurrar a lembrança para um canto da mente. Havia apenas o agora, o calor do sol, a água fria e a sensação de que, por um momento, tudo estava certo. O dia prometia ser longo. Sabíamos que logo a música poderia começar de algum celular à beira da piscina, que haveria brincadeiras improvisadas, quem sabe até uma corrida para ver quem atravessava a piscina primeiro, ou quem conseguia fazer o maior salto. Cada detalhe parecia amplificado: a sensação da água na pele, o cheiro do protetor solar, a risada de Samantha ecoando e as provocações constantes, tudo misturado em uma dança caótica, divertida e viciante. E naquele momento, no meio do calor do sol e do frescor da piscina, por um breve instante, me senti completamente livre. Como se nada mais importasse, exceto a sensação do verão, da amizade e da água gelada que me despertava para cada risada, cada olhar e cada movimento ao redor.
O sol continuava alto, dourando a pele de todos e transformando a água em pequenos espelhos que refletiam o céu azul sem nuvens. As risadas ecoavam pelo espaço aberto, misturando-se ao barulho de respingos, corridas e pequenas provocações entre os rapazes. Daren e eu começamos a disputar quem conseguia atravessar a piscina mais rápido, arrancando gritos e risadas das cats que observavam da borda.
Aposto que você não aguenta meu ritmo! — gritou Daren, dando impulso e mergulhando com força, provocando ondas que nos atingiam todos.
Ah, é? Então segura isso! — respondi, empurrando-me e cortando a água com velocidade, sentindo o choque da água gelada contra a pele. Cada braçada parecia amplificar a energia do momento; cada respingo se transformava em gargalhadas. Camila, sempre a mais atrevida, decidiu se juntar à corrida, pulando de lado e caindo de barriga na água, fazendo um enorme respingo que nos molhou ainda mais. Kayla e Samantha não ficaram atrás: começaram a tentar nos empurrar ou nos distrair com provocações, enquanto Kathleen, mais contida, observava e sorria, deixando escapar risadas discretas de quando alguma brincadeira atingia alguém em cheio. A competição improvisada rapidamente se transformou em pequenas brincadeiras de grupo: quem conseguia segurar a respiração por mais tempo, quem conseguia pular mais alto sem escorregar, quem conseguia derrubar mais gente sem cair sozinho. A cada mergulho, a cada corrida, a sensação de liberdade e diversão se intensificava. Era como se estivéssemos todos conectados por uma energia que só aquele momento conseguia criar.
Em um instante de pausa, sentei-me na borda da piscina, deixando as pernas mergulhadas na água fria. A respiração ainda acelerada, observando os amigos e as girls se moverem, senti uma pontada de satisfação. Era um daqueles momentos que, por mais simples que fossem, pareciam eternos.
Michael, vem cá! — chamou Kathleen, estendendo a mão. — Quero ver se você aguenta meu salto!
Não resisti. Puxei impulso e me joguei, sentindo o ar se abrir ao meu redor antes do impacto gelado na água. As bolhas subindo rapidamente e a sensação de choque frio se misturando à adrenalina me fizeram rir antes mesmo de emergir. A visão do grupo rindo, torcendo e provocando uns aos outros parecia uma cena perfeita de verão, cheia de cores, sons e movimentos.
Daren se aproximou, ainda rindo:
— Tá vendo? Eu disse que você não aguenta nada!
— Ah, cala a boca, Daren — respondi entre risadas —,você vai se arrepender quando eu te empurrar na próxima!
As cats, por sua vez, aproveitavam cada momento para provocar e rir da gente, mas também para se jogar na água, sentir o frescor e se divertir sem medo. Havia algo de mágico na forma como pequenos detalhes como uma risada, um olhar, um mergulho podiam transformar um simples sábado em algo memorável. Depois de algum tempo, nos sentamos novamente na borda da piscina, bebendo água, ajustando os cabelos molhados e observando a luz do sol refletindo na água. O calor na pele, o frio da água, as risadas e os respingos criavam um contraste delicioso, uma sensação completa de verão e liberdade.
Sério, precisamos fazer isso mais vezes — disse Samantha, secando os cabelos e sorrindo. — Esses dias vão passar rápido, e momentos assim... não dá pra esquecer.
Eu concordei silenciosamente, sentindo a verdade nas palavras dela. Era exatamente isso: nada de obrigações, nada de pressões, só o agora, o calor do sol, o frescor da água e a energia contagiante de amigos e risadas. Enquanto o dia seguia, pequenas rivalidades e brincadeiras continuavam: quem conseguia ficar mais tempo submerso, quem derrubava mais alguém, quem conseguia pular mais alto. Cada detalhe parecia amplificado: o barulho da água, o calor do sol, a textura do chão molhado sob os pés, a sensação de estar vivo em cada risada e cada respingo.

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