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Charlotte

De uns tempos pra cá, tudo tem mudado tanto.
Eu já não divido mais o quarto com a Nick e a Alex, e quase não temos aulas juntas.
A gente ainda se vê de vez em quando pelos corredores, mas é raro. Como esse é o nosso último período, tudo anda meio caótico com as provas, trabalhos, pressão.
Parece que o tempo nunca é suficiente pra nada.
Até a Angel anda sumida.
Antes, a gente se encontrava todo fim de semana, agora mal consegue mandar mensagem. Sinto falta de como era antes... de todas nós juntas, rindo sem motivo.
Hoje é sexta-feira e eu tenho uma prova importante.
Não consegui estudar com a Alex dessa vez, mas tudo bem, espero que pelo menos, tirar um oito. Antes das provas, gosto de comer alguma coisinha pra relaxar.
E, por sorte, hoje encontrei o pessoal todo reunido no refeitório.
As meninas, os meninos... todo mundo junto, como há tempos não via.
Peguei uma torta de morango e um suco de laranja no mini buffet e me aproximei da mesa.
Me sentei ao lado do Scott e dei um "oi" meio tímido.
Oi, gente.
Só os meninos responderam.
Nick e Alex estavam de cabeça baixa, rindo de alguma coisa no celular da Nick.
Jason percebeu e chamou a atenção delas:
Alexandra? Nicolle? A Charlotte tá aqui.
Alex levantou o olhar e sorriu.
Ah, oi, Char! Como você tá? — perguntou, doce como sempre.
Sorri de volta, mas por dentro senti aquele incômodo que venho tentando ignorar.
Ultimamente, parece que elas duas se aproximaram demais e, sem querer, eu acabei ficando um pouco de lado. Eu sei que a rotina e as aulas diferentes atrapalham, mas... ainda assim, dói um pouco me sentir deixada pra trás.
Tô bem... só um pouco nervosa com a prova de hoje — admiti. — Não consegui estudar direito, e você sabe como eu travo com essa matéria.
Alex apoiou o cotovelo na mesa e me olhou com aquele jeitinho otimista dela.
Imagino. Mas você é muito inteligente, Char. Vai se sair bem.
Ela sempre diz isso, e eu queria acreditar.
Mas eu conheço minhas limitações.
Nick completou, animada como sempre:
Você vai arrasar, amiga! Confia!
Depois se virou pra Alex e perguntou:
— A propósito, você e o seu par já entregaram o trabalho de Biologia?
A expressão da Alex mudou sutilmente.
Eu decidi fazer tudo sozinha — respondeu, simples. — Mandei por e-mail pro professor. Não quero ter nenhum tipo de contato com ele.
O clima ficou um pouco tenso.
Eu sabia o motivo.
Alex tinha contado pra mim e pra Nick o que aconteceu: Scott viu ela abraçando o Daren na porta do quarto. Ficou furioso, sumiu por algumas horas, e ela quase desabou de preocupação. Depois, explicou o que tinha acontecido, e ele entendeu.
No fundo, todo mundo sabe que a Alex só quis ajudar. Ela conhece bem o que é ter problemas com a mãe, e Daren estava fragilizado.
Mas mesmo assim, foi uma situação difícil pra ela.
Scott respirou fundo e, com aquele tom calmo e maduro que é tão dele, disse:
Eu não concordo muito com a sua atitude, Alex. Se você fez isso por mim, não precisa se preocupar. A gente tá junto, eu sei o que você sente por mim. Tô tranquilo quanto a isso.
Mas... você precisa aprender a separar sua vida pessoal da acadêmica.
Ela apenas assentiu, em silêncio, e ele pousou a mão na dela sempre carinhoso, compreensivo.
Ver os dois juntos é estranho e bonito ao mesmo tempo.
Eles se entendem com o olhar, e mesmo com pouco tempo de namoro, já passaram por tanta coisa.
Acho que o que eles têm é real.
E, por mais que Daren ainda ronde os pensamentos da Alex, dá pra ver que o Scott é o tipo de cara que traz paz.
A gente ficou ali, todos nós, conversando sobre as coisas que tinham acontecido durante a semana. Fazia tempo que não estávamos todos juntos, e foi bom por um momento parecia que tudo estava como antes, sem brigas, sem tensão.
Quando chegou a minha hora, me despedi das meninas e dos meninos e fui pra sala de aula.
Sentei na minha mesa, tirei meu estojo da mochila e, antes mesmo de abrir o caderno, senti alguém se aproximar por trás.
Oi, amor — disse o Michael, me dando um selinho rápido antes de se sentar logo atrás de mim.
Onde você tava? — perguntei, mais por costume do que por curiosidade.
Dando uns rolês por aí, amor. Por quê? — respondeu, despreocupado.
Nada não... só perguntei mesmo. — Sorri de leve. — Estudou pra prova?
Ele me olhou com aquele jeitinho preguiçoso e riu.
Estudei... mas você vai me passar cola, né?
Revirei os olhos. Essa é uma das coisas que mais me irritam nele.
Michael é inteligente, sempre foi, mas detesta estudar. Se pudesse, ele preferia limpar o oceano inteiro a passar uma tarde lendo um livro. E eu até entendo, estudar pode ser chato mesmo. Mas às vezes eu queria que ele se esforçasse um pouco mais, por ele... e por nós.
Nos últimos tempos, parece que a gente se afastou demais. Sinto que o Michael não está mais feliz comigo. Aquele brilho de começo de namoro... já não existe mais.
E, se eu for sincera comigo mesma, eu também não sinto mais as mesmas coisas.
A gente tá junto há quase um ano, mas é como se estivéssemos no automático.
Conversamos, nos beijamos, rimos às vezes, mas falta alguma coisa e eu não sei exatamente o quê. Talvez amor de verdade, talvez só vontade de continuar tentando.
E o que mais me machuca é o jeito como ele olha pra Alex.
Eu sei que eles são melhores amigos, e tento não me incomodar, mas... é inevitável.
Ele presta mais atenção nela do que em mim.
E eu sou a namorada dele, não sou?
O som da porta se abrindo me tirou dos meus pensamentos. O professor entrou na sala com passos firmes, equilibrando uma pilha de folhas nas mãos. O barulho das provas batendo contra a madeira da mesa fez o coração de todos disparar.
Silêncio, turma. Só lembrando que esta prova é individual — anunciou o professor, a voz firme como sempre. — Quero concentração total.
Peguei a folha que ele me entregou e a caneta parecia mais pesada do que nunca. Tentei respirar fundo, mas o ar mal entrava. As letras dançavam diante dos meus olhos, eu havia estudado, mas não o suficiente. Atrás de mim, escutei o barulho discreto da caneta do Michael riscando o papel. Olhei de canto. Ele estava encostado na cadeira, o olhar perdido, sem anotar nada. Alguns minutos se passaram, e a tensão entre nós era quase palpável. Então, senti o toque suave dele no meu ombro.
Virei um pouco o rosto. Ele sussurrou:
Char... a número três... me ajuda, por favor.
Meu estômago deu um nó.
Olhei para a frente, tentando ignorar.
Mas o olhar dele, aquele olhar que sempre me fazia ceder continuava sobre mim, insistente.
"Só dessa vez", pensei. "Só pra ele não se dar mal."
Baixei a cabeça, escrevi rapidamente a resposta no canto do papel rascunho e dobrei em quatro. Meu coração batia tão alto que parecia ecoar na sala. Quando achei que ninguém estava olhando, estiquei a mão lentamente, deixando o bilhete deslizar pela lateral da carteira.
Mas o destino é cruel com quem tenta enganar o tempo.
Charlotte Backer. Michael Cantwell. — a voz do professor soou fria e cortante.
Congelei.
Levantei os olhos devagar e encontrei o olhar do professor sobre mim, rígido, desapontado.
Michael tentou esconder o papel, mas era tarde demais. O professor caminhou até nós, o som de seus passos marcando cada segundo do meu arrependimento. Pegou o bilhete das mãos de Michael, leu em silêncio e deixou-o sobre a mesa.
Eu esperava mais de você, Charlotte— disse, por fim, o tom controlado, mas afiado. — Entreguem as provas. Agora.
Ninguém se mexeu.
Eu queria implorar, explicar, dizer que foi um impulso mas as palavras ficaram presas na garganta.
Agora, Charlotte — repetiu ele, com uma calma que doía mais que qualquer grito.
Entreguei a prova com as mãos trêmulas.
Michael fez o mesmo, o rosto sério, quase desafiador.
O professor colocou as duas folhas sobre sua mesa, rasgou-as com precisão e jogou os pedaços no lixo.
Provas anuladas. E, a partir de hoje, os senhores terão uma semana de punição — informou, ajustando os óculos. — A honestidade é o primeiro passo da maturidade, e vocês parecem ainda não ter aprendido isso.
A sala inteira observava.
As costas queimavam sob os olhares curiosos.
Quis desaparecer, evaporar, me esconder dentro da mochila. Quando o sinal tocou, saí sem dizer uma palavra. Michael tentou me acompanhar, mas eu não quis.
Cada passo que eu dava pelo corredor parecia mais pesado que o anterior.
Eu não era assim.
Não era o tipo de pessoa que trapaceava e muito menos por causa de um garoto.
Mas eu fiz.
E a vergonha me acompanhou até o fim do dia
Decidi ir pro quarto das meninas pra desabafar, mas não encontrei ninguém.
Será que saíram de novo e esqueceram de me avisar?
Suspirei e voltei pro meu quarto.
Minhas companheiras estavam lá, fofocando animadamente... até eu entrar.
Assim que me viram, se calaram.
Ignorei o clima estranho, peguei minha toalha e fui direto pro banho.
Deixei a água quente cair sobre mim por longos minutos tentando lavar junto a vergonha e o nervoso do dia. Saí, coloquei meu pijama favorito e me joguei na cama.
Peguei o celular e decidi mandar mensagem pra Angel. Fazia tanto tempo que não conversávamos...
Mensagem ON
Me: Oiiiiiii, Angel! Saudades de você, amiga.
Angel: Oiii, Char! Muitas! Mas em breve nos veremos :)
Me: Você vem no baile, né?
Angel: Claro que sim, menina. Como perder isso?
Me: Você e o Ethan?
Angel: 1 ano de namoro ontem! Foi incrível. Char, tenho que ir, eu e o Ethan vamos pra uma visita de estudos. Te amo <33.
Mensagem OFF
Sorri, mesmo cansada. Angel e Ethan sempre foram o casal perfeito.
Já eu... bom, nem tanto.
A noite foi se arrastando.
Recebi algumas ligações do Michael, mas ignorei. Ainda estava chateada.
Falei pra ele que não sabia passar cola mas ele não quis saber, insistiu mesmo assim.
Agora estávamos os dois encrencados por causa disso. Meu celular vibrou de novo, dessa vez era a Nick mas decidi não atender. Amanhã eu falo com ela.
Deitei tentando dormir, mas o sono não vinha.
As meninas tinham saído e o quarto estava completamente silencioso.
Eu estava sozinha... só comigo mesma e meus pensamentos.
A maçaneta girou.
Pensei que fosse uma das minhas companheiras de volta, mas o perfume... não era delas. Virei a cabeça e vi o Michael entrando devagar, com aquele sorriso sem-vergonha.
Shhh — ele sussurrou. — Vim ficar com você, amor.
Suspirei e cedi espaço na cama.
Ele deitou comigo, me puxando pela cintura e sussurrando desculpas pelo que aconteceu mais cedo. As mãos frias dele tocaram minha pele, e eu soube o que ele queria e, no fundo, eu também queria.
Vai trancar a porta, amor — murmurei, quase sem voz.
Desde a nossa primeira vez, há alguns meses, a intimidade entre a gente cresceu.
E, por mais que algo dentro de mim ainda soasse estranho, eu o amava.
E naquele momento... amar parecia o suficiente.
[...]
Por alguns minutos, tudo lá fora deixou de existir.
O quarto estava mergulhado numa penumbra morna, só o som das nossas respirações preenchendo o espaço entre os lençóis.
Michael me olhava daquele jeito calmo e intenso, como se quisesse se desculpar com o olhar e, de certa forma, eu aceitava o pedido silencioso. Entre beijos e carícias, a culpa parecia dissolver-se, mesmo que por um instante. Era como se a gente estivesse tentando consertar, com o corpo, o que havia quebrado durante o dia.
Quando nossos corações finalmente desaceleraram, ele ficou brincando com uma mecha do meu cabelo, os olhos fixos nos meus, e eu percebi que, apesar de tudo, ainda havia amor ali, confuso, imperfeito, mas verdadeiro
Foi incrível — ele comentou depois, com aquele sorriso preguiçoso.
Sempre é quando é com você.
Eu ri, sem graça, e ajeitei o lençol.
Eu sei que você ficou chateada por causa da prova — ele disse. — Então fui falar com o professor. Ele deixou a gente refazer amanhã de manhã.
Tá brincando? — perguntei, surpresa.
Tô falando sério. Só que em salas separadas.
Abri um sorriso largo.
Então bora estudar! A gente tem que tirar uma nota boa dessa vez. — Me levantei, procurando minhas roupas.
Ele resmungou, puxando o lençol pra cima.
Ou a gente podia ficar aqui... namorando um pouco mais.
Revirei os olhos, divertida.
Você me deve essa, Michael. Agora veste a roupa e vem estudar.
Ele emburrou, mas eu vi um pequeno sorriso se formando no canto da boca.

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