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Charlotte

Acordei com o despertador berrando no meu ouvido, o som estridente rasgando o silêncio do quarto. Tateei às cegas pela mesinha de cabeceira até encontrar o celular e o desliguei o mais rápido possível, apertando o botão com força como se isso pudesse calar o barulho dentro da minha cabeça também. Por um segundo, fiquei deitada ali, ouvindo apenas o som da respiração tranquila de Alex ao meu lado. Ela dormia encolhida, o rosto meio escondido entre os travesseiros, e a última coisa que eu queria era acordá-la.
Saí da cama com cuidado, tentando não fazer o colchão ranger. Peguei as roupas que tinha deixado dobradas na cadeira e caminhei na ponta dos pés até o banheiro. A porta rangeu um pouco quando a fechei, prendi a respiração, esperando ver se Alex se mexia mas nada. Ela continuava dormindo.
Abri a torneira devagar, deixando a água escorrer apenas o suficiente para molhar a escova. Escovei os dentes no ritmo mais silencioso que consegui, com a luz fria do banheiro me lembrando que o dia já tinha começado, mesmo que eu ainda não estivesse pronta pra ele. Depois, entrei no chuveiro e deixei a água morna cair sobre mim, tentando acordar de verdade, tentando não pensar em nada, apenas respirar, e continuar sem fazer barulho. Quando saí, o espelho estava coberto de vapor e o som suave da respiração de Alex ainda vinha do quarto. Um alívio silencioso.
Enxuguei o cabelo com a toalha, ainda tentando manter o silêncio. Peguei o uniforme e comecei a me vestir devagar, os movimentos automáticos, quase mecânicos. O tecido gelado da blusa me fez arrepiar, e por um instante pensei em ligar o aquecedor, mas desisti. Qualquer barulho podia acordar Alex.
Mas, inevitavelmente, o zíper da saia fez aquele som alto demais no quarto silencioso. Suspirei.
Hm... — ouvi a voz sonolenta atrás de mim. — Que horas são?
Virei-me. Alex piscava devagar, ainda meio perdida entre o sono e a realidade, o cabelo castanho espalhado pelo travesseiro, bagunçado e cheio de ondas.
Cedo demais — respondi em voz baixa, sorrindo de leve. — Volta a dormir, você ainda tem uns minutos.
Ela bocejou, espreguiçando-se.
Você sabe que não consigo dormir quando você levanta. — O tom era suave, arrastado, o tipo de voz que ainda vinha embrulhada em sono.
Eu tentei ser silenciosa — murmurei, meio rindo.
Tentou, mas o zíper te entregou — ela respondeu, rindo baixinho, empurrando o cobertor para o lado. — Acho que já vou levantar também.
Tem certeza? — perguntei. — Eu ia te acordar daqui a pouco.
Tenho. — Ela se sentou, passando as mãos pelo cabelo para tentar domar a bagunça. — Se eu ficar aqui, vou acabar dormindo de novo e você sabe que eu não gosto de me atrasar.
Dei um passo até ela e ajeitei uma mecha que teimava em cair sobre o rosto. — Bom dia, dorminhoca.
Bom dia — respondeu, abrindo um sorriso pequeno, ainda preguiçoso.
Alex levantou, pegou a toalha e foi para o banheiro. Ouvi o som do chuveiro ligando, depois o ritmo constante da água caindo. Enquanto isso, terminei de me arrumar, coloquei o casaco do uniforme e conferi o horário no celular. Quando ela voltou, já vestida com o mesmo uniforme azul e branco, o cabelo em um coque desajeitado como quase sempre. Ajeitei o colarinho da blusa dela, que estava torto.
Agora sim. — Sorri.
Obrigada. — Ela retribuiu o sorriso, os olhos brilhando, despertos agora. — Vamos?
Vamos. — Peguei minha mochila e seguimos juntas até ao refeitório .
O corredor estava silencioso, o som dos nossos passos ecoando baixo no chão encerado. O ar ainda tinha aquele cheiro de manhã, uma mistura de café recém-passado e pão quente vindo do refeitório. Caminhamos lado a lado, às vezes os ombros se tocando, e Alex falava sobre um sonho confuso que teve, rindo sozinha enquanto eu fingia entender o que "um unicórnio de óculos" estava fazendo no meio da história. Quando empurramos a porta do refeitório, o barulho nos envolveu: vozes, cadeiras arrastando, o tilintar de talheres. E ali, no canto, vi Michael, sentado sozinho, olhando para o nada.  Meu coração deu aquele pequeno salto automático, aquele misto de alegria e nervosismo que sempre vinha quando eu o via.
Olha, parece que o Michael madrugou hoje — comentou Alex, sorrindo de lado.
É... milagre — murmurei, ajeitando o cabelo rapidamente, tentando disfarçar o súbito calor no rosto.
Nos aproximamos da mesa. Michael levantou assim que nos viu e o sorriso dele apareceu, aquele sorriso meio torto que sempre fazia meu peito apertar um pouco. Mas o que me surpreendeu foi o gesto seguinte: ele foi direto até Alex primeiro, abrindo os braços.
Ei, bom dia, Alex — disse, abraçando-a de leve, aquele abraço rápido mas afetuoso que parecia natural demais entre eles.
Alex retribuiu com um sorriso doce.
Bom dia, Mike.
Só então ele se voltou pra mim. — Oi, amor — murmurou, inclinando-se pra dar um selinho rápido.
Respondi o beijo, mas algo em mim já tinha travado antes mesmo de nossos lábios se tocarem. O ciúme me atravessou como um espinho fino, silencioso e quase invisível, mas impossível de ignorar. Claro que eu sabia que eles eram próximos. Michael sempre foi assim com a Alex, protetor, carinhoso, às vezes até demais. E eu sempre tentei não me incomodar. Mas naquele momento, a ordem das coisas me incomodou mais do que eu queria admitir.
Estão com fome? — ele perguntou, puxando a cadeira para nós.
Sempre — respondeu Alex antes de mim, sentando-se ao lado dele com aquele sorriso leve de quem ainda despertava.
Então eu vou pegar alguma coisa pra você comer. — disse ele, levantando-se logo em seguida, sem nem olhar na minha direção.
Fiquei parada por um instante, sentindo o sorriso que eu ainda tinha no rosto se desfazer aos poucos. Alex observava o movimento distraída, brincando com o guardanapo entre os dedos. Quando percebi que Michael já estava se afastando em direção às mesas de comida, forcei um sorriso fraco para ela.
Eu... também vou pegar o meu café — murmurei, levantando-me.
Ela apenas assentiu, sem notar o peso na minha voz. Atravessei o refeitório tentando ignorar a pontada amarga que crescia dentro de mim. Eu sabia da ligação entre os dois. Mas desde que Alex ficou doente, ele se aproximou ainda mais dela de um jeito natural, protetor. E eu entendi. Eu mesma quis que ele ficasse por perto, mas não o tempo todo, porque eu ainda sou a namorada dele e precisa que meu namorado prestasse atenção em mim.
Quando me aproximei, Michael já estava com dois pratos quase prontos. Um com frutas, panquecas e torradas, o outro com ovos, bacon e suco. Ele parecia concentrado, escolhendo o que colocar no prato dela, como se soubesse exatamente do que Alex gostava.
Pegando café da manhã pra nós duas? — perguntei, tentando soar leve, embora minha voz tenha saído um pouco mais fria do que eu pretendia.
Ele olhou pra mim rápido, como se só então tivesse percebido que eu estava ali. — Ah, oi, amor. Eu ia levar isso pra Alex e depois pegava o seu, mas já que veio... — deixou a frase morrer no ar, um sorriso curto aparecendo.
Assenti, mesmo que a resposta dele tivesse me atravessado como um pequeno corte. Peguei um prato e comecei a me servir: panquecas com mel, um copo de suco de laranja e algumas uvas. Me concentrei nisso, como se o simples ato de escolher comida fosse suficiente pra esconder o que eu estava sentindo.
Ele colocou um pedaço de bolo no prato da Alex e virou-se pra mim. — Quer que eu leve pra você?
— Não precisa — respondi rápido, equilibrando o prato nas mãos. — Eu consigo.
— Tá bom. — Ele deu de ombros, voltando a olhar para o outro prato.
Ficamos lado a lado por um momento, em silêncio. O tipo de silêncio que não era confortável, cheio de palavras não ditas.
Voltei pra mesa antes dele. Alex sorriu quando me viu, e por um instante aquele sorriso amenizou a dor que eu tentava disfarçar. Ela não tinha culpa. Nenhuma. Mas enquanto eu sentava e colocava o suco ao lado do prato, não consegui evitar um pensamento teimoso, insistente: Será que ele perceberia, algum dia, o quanto isso me machuca?
Sentei-me à mesa e comecei a comer, tentando ignorar o aperto que ainda me incomodava. Cortei um pedaço da panqueca e o mergulhei no mel, mas o sabor parecia distante, como se o gosto tivesse ficado preso junto com o pensamento que eu tentava engolir. À minha frente, Alex falava sobre qualquer coisa leve e eu apenas sorria, sem de fato participar.
Pouco depois, Michael voltou com o prato dela nas mãos. Colocou-o à frente de Alex com cuidado, como sempre fazia.
Obrigada — disse ela, sorrindo.
De nada — ele respondeu, e os dois trocaram aquele olhar rápido que me fez desviar o meu para o prato.
Terminei o café em silêncio. Assim que acabei, levantei-me, ajeitando a mochila nas costas.
A gente devia ir — falei, olhando o relógio. — O sinal vai tocar em poucos minutos.
Alex assentiu e Michael se levantou logo depois. Caminhamos juntos até o corredor, o som do refeitório ficando para trás. A manhã estava fria, o piso refletindo a luz suave que entrava pelas janelas altas. No meio do caminho, vimos uma figura conhecida vindo em nossa direção, era Nick, com o uniforme perfeitamente alinhado, o cabelo preso num coque elegante e o crachá pendurado com o nome dela reluzindo sob a luz.
— Nick! — chamou Alex, acenando. — Você acordou cedo hoje!
Nick sorriu, aquele sorriso tranquilo de quem sempre parece ter tudo sob controle.
Na verdade, acordei no mesmo horário de sempre. Só vocês que estão atrasadas — respondeu, em tom leve, mas com uma pontinha de provocação.
Ei, isso foi uma indireta? — brinquei
Foi uma direta, na verdade — disse ela, ajeitando a manga do uniforme impecável.
Eu ri, balançando a cabeça. A verdade é que era impossível não admirar o jeito dela sempre serena, organizada, como se nada a tirasse do eixo. Alex riu também, e as duas começaram a conversar sobre o cronograma das aulas.
Seguimos os quatro juntos pelo corredor. Alex e Nick lado a lado, falando sem parar, Michael andando ao meu lado, com as mãos nos bolsos e o olhar calmo. A ponta da manga do casaco dele roçou na minha, e por um instante, isso bastou para aliviar o incômodo que ainda pulsava no fundo. Quando viramos a esquina, o som do sinal ecoou pelos corredores.
— Aí está ele — disse Nick, com um pequeno sorriso. — Nosso lembrete de que a paz acabou.
Alex riu alto.
Vamos antes que o professor entre na sala.
Entramos juntos na sala. O barulho das cadeiras, o som das vozes, a rotina recomeçando. Sentei-me ao lado de Michael, observando Alex e Nick se acomodarem logo à frente e, por um instante, a normalidade daquilo tudo pareceu suficiente pra me manter em paz

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