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Michael

Charlotte estava estranha. Desde o café da manhã, parecia distante, desligada. Entramos na sala e nos acomodamos; ela se sentou numa mesa ao lado da minha. Alex e Nicolle se sentaram à frente, conversando animadamente sobre algum assunto da aula anterior.
Alguns minutos se passaram até que Daren e Jason entrassem juntos, cumprimentando rapidamente suas namoradas antes de se sentarem atrás de mim e de Charlotte. Me virei para eles e começamos a conversar, aproveitando o tempo antes da chegada do professor. Logo, o professor entrou, fazendo com que todos nós nos calássemos.
Me desculpem o atraso — disse, deixando suas coisas na mesa. — Hoje a aula vai ser sobre o projeto que vocês terão que fazer em grupos de três.
Ele explicou em detalhes em que consistia o projeto e como deveria ser realizado.
Como eu sou legal, vou deixar vocês escolherem os próprios grupos — disse, sorrindo.
EU QUERO FICAR COM A ALEX! — gritei, mais alto do que devia, e imediatamente uma pequena discórdia começou a se formar.
Eu quero ficar com a Samantha — falou Camilla, olhando para a amiga com firmeza.
Eu quero ficar com a Nick — disse Jason, atrás de mim.
Era óbvio que todo mundo queria ficar com os amigos mais próximos, mas o professor claramente não estava nada satisfeito com nosso comportamento.
CALADOS! — gritou, sério. — Eu vos dei a oportunidade de escolherem seus grupos, mas aparentemente vocês não sabem ser civilizados. A partir de agora, eu escolherei os grupos.
Reclamamos, é claro, mas ele manteve a decisão firme.
Os grupos serão: Alexandra Cameron, Daren McClaren e Scott Peterson — anunciou, e Daren franziu a testa, descontente por ter que trabalhar com o meio-irmão da Alex.
Michael Cantwell, Kayla Adams e Kathleen Cooper. Nicolle Carter, Jason Drummond e Camilla Jones. Charlotte Backer, Samantha Smith e Jonathan Carson.
O murmúrio se espalhou pela sala. Todos olhavam para seus novos grupos, alguns animados, outros nem tanto. Eu observei Charlotte, que ficou rígida na cadeira, olhando para o chão. Era evidente que ela não gostou da escolha, mas preferiu se manter em silêncio, mordendo o lábio e segurando a mochila com força. Assim que o professor terminou de anunciar os grupos, os alunos começaram a se mover. O burburinho cresceu novamente, misturado a risadas, protestos e olhares curiosos. Cada grupo procurava um lugar na sala para se acomodar e começar a discutir o projeto. Alex, Daren e Scott se levantaram primeiro. Alex deu um sorriso rápido para mim antes de caminhar com Daren até uma mesa no canto da sala. Scott parecia um pouco deslocado, mas logo se juntou a eles, e começaram a organizar seus cadernos e materiais. Kayla, Kathleen e eu seguimos logo atrás, pegando uma mesa próxima à janela.
Charlotte se levantou devagar, sem dizer nada, carregando a mochila com cuidado. Jonathan sussurrou algo, provavelmente tentando quebrar o gelo, mas Charlotte apenas deu um pequeno aceno de cabeça e se sentou na cadeira do meio, entre Samantha e Jonathan. Ela apoiou os braços sobre a mesa, olhando para os cadernos, tentando esconder a expressão de insatisfação. Jason, Nicolle e Camilla foram para outra mesa, perto do quadro, conversando animadamente sobre o que fariam primeiro no projeto. O som das vozes deles parecia distante para Charlotte, como se ela estivesse em seu próprio mundo.
Kayla e Kathleen pareciam mais interessadas em comentar o novo desfile que tinham visto no fim de semana do que em discutir o projeto.
Você viu o look da Hailey? — perguntou Kayla, animada. — Eu juro, aquela saia de couro é perfeita!
— Sim! E o casaco? Ugh, quero um igual — respondeu Kathleen, suspirando.
Eu tentava, de algum jeito, manter o foco no caderno à minha frente, mas era inútil. A conversa delas virava um ruído distante, enquanto meus olhos insistiam em se voltar para a mesa ao lado. Charlotte continuava com o olhar perdido, o queixo apoiado na mão, rabiscando qualquer coisa no canto da folha. Parecia completamente alheia a tudo ao redor.
Uma vontade absurda de levantar e ir até ela me tomou. Só queria perguntar se estava bem, ou ao menos arrancar um sorriso pequeno, qualquer coisa que quebrasse aquele muro de silêncio que ela vinha erguendo desde cedo.
Levantei a mão, pronto para fingir que ia pegar algo no armário, mas o professor me notou.
O olhar dele foi direto, firme e ele balançou a cabeça em negação. Sentei de volta, soltando um suspiro frustrado.
A aula se arrastou. Minutos pareciam horas. O som das risadas de Jason e Nicolle misturava-se com o farfalhar das folhas, com o arrastar de cadeiras, e tudo parecia longe demais de Charlotte.
Ela estava ali, mas parecia não estar.
Quando o sinal finalmente tocou, o barulho foi quase um alívio. Todos começaram a guardar os materiais às pressas, ansiosos para sair dali. Charlotte foi uma das primeiras a levantar. Jogou os cadernos na mochila sem muita paciência e saiu antes mesmo que eu conseguisse alcançá-la. Peguei minhas coisas depressa e saí também, acompanhando o fluxo de alunos pelo corredor. Kayla e Kathleen ficaram para trás, ainda rindo de algo sobre maquiagem e "looks de outono".o
— E aí, cara — falou o Jason, se aproximando de mim com a Nicolle ao lado. — A gente vai pegar alguma coisa pra comer antes da próxima aula. Quer vir?
Pensei por um segundo, ainda olhando na direção por onde a Charlotte tinha saído.
Não sei... a Charlotte tá tão... — comecei, mas antes que eu terminasse, uma voz atrás de mim me interrompeu.
O que vocês vão fazer agora? — perguntou o Daren, aparecendo do nada, com a Alexandra logo atrás.
Comer qualquer coisa. — respondeu a Nicolle, dando de ombros.
Comida? Oba! Eu topo. — falou a Alex, animada, batendo palmas de leve.
A empolgação dela fez todo mundo rir.
Que isso, hein, nerd? — provocou o Jason, rindo. — Você não devia estar estudando agora?
— Vai sonhando — retrucou a Alex, mostrando a língua pra ele, o que fez a Nicolle rir ainda mais.
Acabamos indo todos juntos pro refeitório. O corredor estava cheio, o barulho das conversas se misturava com o som dos passos apressados. Eu ia um pouco atrás do grupo, ouvindo a risada deles e tentando não pensar demais em como Charlotte parecia cada vez mais distante.
Chegando lá, a fila estava grande, então pegamos o que deu: umas frutas, pedaços de bolo e copos de suco. A Alex e o Daren discutiam sobre quem era melhor em matemática (mesmo que ela claramente estivesse ganhando), enquanto o Jason fazia piada de tudo. Não demoramos muito, porque só tínhamos uns quinze minutos até a próxima aula. Terminamos de comer rápido e jogamos o lixo fora antes de sair correndo pelo corredor de volta pras salas.
Na saída do refeitório, o grupo se separou.
A Nicolle, a Alex e o Daren foram pro lado oposto porque eles tinham aula de matemática computacional enquanto que Jason e eu fomos para a aula de Biologia.
Pra nossa sorte, o professor de biologia não apareceu. A coordenadora entrou na sala só pra avisar que ele tinha faltado e que a aula estava cancelada. Do nada, ganhamos o resto da manhã livre e, como à tarde só teríamos treino, era praticamente um dia de folga.
Melhor notícia da semana! — gritou o Jason, jogando a mochila em cima da mesa e levantando os braços como se tivesse acabado de ganhar um prêmio.
Cara, você comemora até feriado de professor — falei, rindo.
Óbvio! É o tipo de feriado que vem do céu. — Ele colocou a mão no peito, fazendo drama. — A biologia que me perdoe, mas eu prefiro viver a vida.
Caímos na risada. Fazia tempo que não ríamos assim, de coisa nenhuma, sem precisar forçar assunto.
Saímos da sala e fomos direto pro pátio. O sol estava forte, o tipo de manhã em que todo mundo parece mais vivo. Alguns alunos jogavam basquete, outros estavam espalhados pelos bancos, e o clima era leve. Jason, é claro, quis jogar.
— Bora uma partida? — ele perguntou, pegando uma bola emprestada de um grupo.
Sério? Achei que seu talento era só zoar os outros.
— Eu sou um homem de muitos dons — disse ele, fingindo esticar os ombros como se fosse atleta profissional.
Acabei entrando no jogo, e em poucos minutos já estávamos competindo feito idiotas. Ele errava uns passes absurdos, mas fazia questão de comemorar cada cesto que nem criança e eu não ficava atrás. Era como voltar no tempo, antes de toda aquela confusão, antes de cada um se preocupar demais com tudo.
Depois da partida, paramos no refeitório pra pegar algo pra beber.
Aquele treino debaixo de chuva, lembra? — ele perguntou, rindo. — Cara, você parecia um pinto molhado tentando correr.
— E você escorregou e caiu de cara na lama. Foi poético — respondi, rindo alto.
É, mas eu levantei com estilo. — Ele ergueu o copo de suco como se brindasse à própria queda.
Continuamos assim por um bom tempo, só falando besteira, rindo e aproveitando a manhã ensolarada. Nada de preocupação, nada de tensão. Só a sensação boa de estar com o meu melhor amigo, como sempre foi.
Por um instante, tudo parecia simples de novo.

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