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Nicolle

Alexandra já estava recuperada e pronta pra voltar ao colégio, pelo menos era isso que o médico dela tinha dito. A gente tava empolgado pela volta dela. Eu, Daren e Michael enchemos a cama dela de presentes, tudo que a gente achou que ela ia gostar: livros, chocolates, uma caneca personalizada com o rosto do grupo e até um moletom que o Daren comprou pra combinar com o dele. Ficamos todos na recepção, esperando ela chegar. Kathy, como sempre, implicou com a gente por estarmos ali "atrapalhando a passagem", mas depois de muita insistência e cara de cachorro pidão, ela acabou cedendo. Enquanto esperávamos, percebi que Charlotte estava diferente. Nos últimos dias, ela andava mais quieta, distante... e quando o assunto era Alexandra, parecia desconfortável. Eu sabia que parte disso era ciúme,  dividir a atenção do namorado não devia estar sendo fácil pra ela, mas ainda assim, me incomodava ver ela tratando a Alex de forma tão fria. Tentei conversar com ela algumas vezes, mas Charlotte sempre desviava o assunto, então acabei desistindo.
No fundo, eu só queria que tudo voltasse a ser como antes.
Com a Angel tendo trocado de colégio, o grupo já não era o mesmo. Faltava o riso dela, as piadas fora de hora... e eu tava cansada de lidar sozinha com o mau humor da Charlotte. Então, ver a Alex voltando hoje era tipo um alívio.
Quando o carro da família dela parou em frente ao prédio, meu coração deu um pulo. Alexandra desceu com aquele sorriso de sempre, cercada pela mãe, o padrasto e o meio-irmão. O padrasto carregava as malas, o garotinho tentava ajudar com uma das mochilas, e Alyssa, olhava a filha como se ainda não acreditasse que ela estava ali, bem e de volta. O primeiro a correr foi o Daren, claro. Ele atravessou o saguão quase tropeçando nos próprios pés. Quando chegou perto, abraçou a Alex com tanta força que ela quase perdeu o equilíbrio.
Daren! — ela riu, meio sem ar — Eu ainda tô me recuperando, lembra?
Ele riu também, meio envergonhado, mas sem soltar a mão dela nem por um segundo.
Logo depois, foi ajudar o padrasto a levar as malas até o quarto.
Eu não aguentei e fui logo atrás.
Alex! — gritei, correndo até ela e abraçando com toda a força do mundo.
Nick, eu não consigo respirar — ela riu, tentando se soltar.
Ai, desculpa! — falei, soltando devagar. — É que a saudade tava grande demais, não coube só num abraço leve.
Ela sorriu, e naquele sorriso dava pra ver tudo,  o alívio, a alegria, a força de estar de volta.
Foi aí que o Michael apareceu, como sempre, com o senso de humor de quem quer ser o centro das atenções.
Afasta-te, Nicolle. É minha vez de cumprimentar minha melhor amiga.
Revirei os olhos.
Olha ele começando...
Michael ignorou, abraçando a Alex com cuidado.
Quatro semanas sem me ver e é assim que você me recebe, senhorita Cameron?
Alexandra riu e respondeu:
Senhor Cantwell, você sobreviveu sem mim, vai.
Ele mostrou o dedo do meio, e ela caiu na risada. Aquele tipo de riso que a gente tava morrendo de saudade de ouvir.
Depois das saudações, Alyssa chamou a filha pra uma despedida rápida. Ela nos olhou com aquele olhar de mãe preocupada e disse:
Cuidem bem dela, tá? Nada de deixarem a Alexandra se esforçar demais.
A gente prometeu em coro, e ela pareceu relaxar um pouco antes de ir embora com o marido e o filho. Alex e Daren foram pro quarto arrumar as coisas, e eu aproveitei pra procurar o Jason. Demorei quase meia hora até achar o desgraçado na sala de estar, sentado no sofá, jogando videogame como se nada tivesse acontecido.
Que bonito, senhor Drummond! — falei, cruzando os braços e encarando ele.
Jason deu um pulo, assustado, e virou pra mim com um sorriso debochado.
É o que minha mãe costuma dizer.
— Engraçadinho — retruquei, fingindo birra.
Ele largou o controle e me puxou pra sentar com ele.
Vem jogar comigo, vai. Prometo pegar leve.
— Sei... da última vez você me fez perder de propósito só pra se gabar.
Isso é mentira — ele disse, fingindo indignação. — Você perdeu porque é ruim mesmo.
Revirei os olhos, mas acabei me sentando no colo dele e pegando o controle. Jogamos por um tempo, entre risadas, provocações e pequenos beijos roubados entre uma partida e outra. Era sempre leve com o Jason. Ninguém diria que o "popular chato" e a "nerd marrenta" iam acabar namorando, mas deu certo. A gente era diferente, mas se entendia.
Mais tarde, fomos jantar no refeitório. Estávamos no meio da conversa quando Alex e Daren apareceram e se sentaram com a gente.
Gostou dos presentes, Alex? — perguntei, curiosa.
Ela sorriu, meio corada.
Ainda não tive tempo de abrir todos, mas obrigada, sério. Vocês são incríveis.
Você merece, Alex — disse Daren, com aquele olhar todo bobo de namorado apaixonado.
Parei pra pensar que, há alguns meses, se alguém me dissesse que os dois iam namorar, eu teria rido alto. Mas ali estavam eles, juntos, felizes e completamente diferentes do que eram antes.
Tô com fome — Alex disse, encarando o namorado, que revirou os olhos.
Já entendi, vou buscar algo pra você comer — respondeu ele, levantando.
Pouco depois, Michael apareceu com Charlotte e Scott. Eles cumprimentaram de longe, mas só Scott veio se sentar conosco.
Você esqueceu isso, Alex — disse, entregando uma cartela de comprimidos pra ela.
Alex fez cara feia, mas depois de alguns segundos acabou tomando o remédio.
Enquanto comíamos, fomos contando tudo o que ela tinha perdido no colégio. Alex ouvia atenta, meio chocada com a quantidade de matéria acumulada.
Isso tudo? — perguntou, arregalando os olhos.
Pois é, nerd — pensei, rindo por dentro.
No meio da conversa, ela olhou em direção à mesa onde Charlotte estava.
Por que a Char não vem sentar com a gente? — perguntou, com a voz suave.
Dei de ombros.
Ih, deve estar de mau humor. Melhor deixar quieta.
Alexandra suspirou, mas assentiu.
Tomara que isso passe logo. Não quero que nada mude entre a gente.
E eu torcia pra isso também
Nossos namorados nos acompanharam até o dormitório feminino, mas tiveram que parar na porta porque Kathy estava prestes a passar por ali pra dar as boas-vindas à Alex e entregar o novo uniforme, e ninguém queria ser pego no flagra outra vez. Assim que entramos no quarto, Alex foi direto pro banho. Quando saiu, estava usando o pijaminha de canguru que eu sempre achei a coisa mais fofa do mundo. Peguei minhas coisas e fui logo em seguida. Depois do banho, vesti meu baby doll cinzento, prendi o cabelo num coque e me joguei na cama. A gente ficou um tempo conversando, rindo e matando a saudade. O clima estava leve... até que a porta se abriu.
Charlotte entrou sem dizer uma palavra, foi direto pro banheiro e bateu a porta atrás dela.
O silêncio que ficou foi pesado. Alex me olhou de canto, claramente sem entender nada.
Deixa — murmurei —, ela tá naquele modo "drama queen" de novo.
Alex suspirou, mas não respondeu.
Quando Charlotte saiu do banheiro, já de pijama, Alex se levantou devagar e foi até ela, decidida.
Char, o que tá acontecendo com você? — perguntou, a voz calma mas firme.
Dava pra sentir o cansaço nela, não físico, mas emocional. Alex sempre tentava manter a paz, mas dessa vez parecia cansada de ser tratada mal sem motivo.
Charlotte cruzou os braços, desviando o olhar.
Não é da sua conta.
E do nada, me empurrou quando tentei chegar mais perto.
Ei! — reclamei, ajeitando o cabelo. — Vê como fala com a minha amiga! — cruzei os braços, encarando ela. — Você tá se comportando igual às Cats. Será que injetou veneno delas agora?
Charlotte revirou os olhos.
Podem parar de se meter na minha vida?
Alex respirou fundo, tentando manter a calma.
Char, eu nunca quis bagunçar nada entre você e o Michael. Eu não pedi pra ficar doente, e muito menos pedi pra ele cuidar de mim. Ele fez isso porque quis. — Ela deu um passo à frente, o olhar firme. — Eu só não quero brigar com você. Você é minha melhor amiga.
Eu fiz bico, dramatizando:
Ei! E eu sou o quê?
Alex riu.
Você também, Nick. — disse, sorrindo pra mim.
A tensão no ar começou a diminuir. Charlotte respirou fundo, parecendo finalmente baixar a guarda.
Tá... desculpa — ela murmurou, olhando pro chão. — Eu sei que fui grossa. Eu só... não tava sabendo lidar.
Ninguém respondeu de imediato. Ficamos em silêncio por alguns segundos, até ela continuar:
— As coisas com o Michael tão meio ruins... e eu acabei descontando em vocês.
Alex se aproximou e segurou a mão dela.
Se quiser conversar, eu tô aqui, tá?
Charlotte deu um sorriso fraco.
Obrigada, mas... deixa eu resolver isso do meu jeito.
Antes que alguém dissesse qualquer coisa, ouviram-se três batidas na porta.
Toc, toc, toc.
Kathy apareceu, com aquele sorriso típico dela.
Seja bem-vinda de volta, Alex. — disse, entrando. — Sem você aqui, essa daí — apontou pra mim — ficou completamente perdida.
Revirei os olhos.
Kathy, não foi assim que aconteceu...
Alex deu uma risadinha e respondeu educadamente:
Obrigada, Kathy. Eu também senti falta de vocês.
Kathy estendeu o uniforme dobrado.
Aqui está o seu novo uniforme. A gente sentiu muito a sua falta, viu? — e saiu, deixando um rastro de perfume doce no quarto.
Alex ficou um tempo olhando o uniforme nas mãos, como se ele fosse um símbolo de recomeço. Depois, o pendurou no lado dela do closet, junto com os antigos. Todo ano a gente recebia um novo conjunto, caso o anterior ficasse pequeno mas naquele momento, aquilo parecia mais do que apenas roupa nova. Era como se o colégio estivesse, de verdade, voltando a ser o lar dela.

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