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Alexandra

Desci as escadas lentamente, tentando controlar o turbilhão de emoções que dançava dentro de mim. Cada passo parecia ecoar pelo corredor, e meu coração batia como se quisesse anunciar para o mundo inteiro que era o dia do baile. Quando alcancei o último degrau, respirei fundo, ajeitei o tecido do meu vestido e caminhei até a porta. Minhas mãos estavam levemente trêmulas enquanto girava a maçaneta e assim que a porta se abriu, o mundo pareceu parar por um segundo.
Daren estava ali.
Ele usava um terno azul-escuro, perfeitamente ajustado ao corpo, o que o deixava ainda mais irresistível. O cabelo, ligeiramente bagunçado, dava a ele um ar despreocupado e natural, contrastando com o brilho sério do olhar. Nos pés, um tênis branco da Nike, simples, mas que só ele conseguia usar com tanta confiança, o equilíbrio exato entre o formal e o descolado.
Por um momento, ele ficou me observando em silêncio. Seus olhos percorreram lentamente cada detalhe do meu vestido, e o sorriso que surgiu em seus lábios era de pura admiração.
Você está linda, Alex. — disse ele, a voz rouca e sincera, quase como um sussurro, mas cheio de emoção.
Senti minhas bochechas corarem.
Meu vestido, um azul-claro suave, como o céu pouco antes do amanhecer deslizava sobre meu corpo em camadas leves de tule, formando uma silhueta etérea e delicada. Pequenas flores rosadas estavam espalhadas por toda a extensão do tecido, como se pétalas tivessem caído sobre mim e decidido ficar. A alça única, também coberta por flores, deixava um dos meus ombros à mostra, dando um toque de leveza e romantismo. A cada passo, o vestido se movia como se tivesse vida própria, flutuante, delicado, e encantadoramente mágico, exatamente como eu sempre imaginei que me sentiria num conto de fadas
Você também está perfeito. — respondi, sorrindo, antes de me aproximar e roçar meus lábios nos dele, num selinho terno, breve, mas suficiente para me fazer esquecer de respirar por um instante.
Ele sorriu, com aquele olhar que sempre me desmontava, e então tirou algo do bolso do paletó, uma pequena caixa de veludo azul-marinho.
Eu trouxe isso pra você. — disse, estendendo-a para mim.
Abri com cuidado. Lá dentro, repousava uma pulseira prateada, delicada, com pequenos pingentes em formato de estrelas. O brilho suave do metal parecia dançar à luz da sala, como se fosse mágica.
— É linda... obrigada. — falei, encantada. — Coloca em mim, por favor.
Ele assentiu com um sorriso discreto e segurou meu pulso com delicadeza. Seus dedos roçaram levemente minha pele enquanto ele fechava o fecho da pulseira, e um arrepio percorreu meu corpo. Quando terminei de admirar a joia, ouvi passos vindo do corredor.
Mamãe e Damian apareceram, sorrindo, ambos visivelmente emocionados.
Nossa, filha... você está maravilhosa! — disse minha mãe, com os olhos marejados.
Tenho que concordar com ela, Alex. Você está fantástica. — completou Damian, rindo, orgulhoso.
Obrigada, mãe... obrigada, Damian. — respondi, corando, tentando disfarçar o nervosismo que me fazia brincar com os dedos da pulseira nova.
Daren estendeu a mão para mim. Estávamos prontos para sair. Mas antes que eu pudesse dar o primeiro passo, algo mudou.
Uma pontada aguda atravessou meu peito.
O sorriso sumiu do meu rosto.
Ai... — murmurei, levando a mão ao coração.
Os três se voltaram para mim imediatamente. A expressão de Daren mudou para puro pânico.
Alex? O que foi? — ele perguntou, aproximando-se, a voz trêmula. Se
A dor aumentava a cada segundo,  uma pressão sufocante, como se o ar me faltasse. Tudo ao meu redor começou a girar. O som da voz da minha mãe ecoava distante, embaralhada, e a visão foi ficando e
Alexandra! — ouvi Daren gritar, mas a voz dele soava longe, como se viesse através da água.
O chão pareceu desaparecer sob meus pés.
O último que senti foi o toque desesperado das mãos de Daren me segurando antes de tudo ficar escuro.
Acordei com o som distante de um monitor cardíaco. Um bip... bip... bip constante, regular, que parecia sincronizado ao pulsar fraco dentro do meu peito. Pisquei algumas vezes, a luz branca me cegando por um instante e quando finalmente consegui focar, percebi que estava em um quarto de hospital. As paredes eram de um branco quase doloroso, frias, impessoais. O cheiro forte de antisséptico pairava no ar, misturado ao som suave de passos e vozes distantes no corredor. Por um segundo, pensei que fosse um pesadelo. Mas então, vi alguém sentado ao meu lado.
Era Scott.
O cabelo bagunçado, o olhar cansado, mas atento. Ele parecia estar ali há horas.
Por que eu estou aqui, Scott? — perguntei, a voz fraca, confusa, como se ainda estivesse sonhando.
Ele levantou o olhar para mim, claramente aliviado por me ver acordada.
Sua mãe vai te explicar tudo, tá? — respondeu com um tom suave. — Eu só vou ligar pra ela, avisar que você acordou.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele já estava de pé, pegando o celular. Fiquei ali, tentando entender. Minha cabeça latejava, e o coração... o coração parecia mais pesado que o normal. Alguns minutos depois, a porta se abriu. Mamãe entrou apressada, com o rosto abatido, os olhos vermelhos de tanto chorar. Atrás dela, um médico de jaleco branco, expressão séria, mas calma.
Mãe? O que está acontecendo? — perguntei, sentindo a garganta apertar. — O que eu tô fazendo aqui?
Ela se aproximou da cama e segurou minha mão com força, como se temesse que eu desaparecesse de novo.
Alex, filha... você teve umas complicações no seu coraçãozinho, — começou, tentando manter a voz firme, mas as lágrimas logo transbordaram. — Por isso precisou vir pra cá. E... — ela não conseguiu continuar.
O médico, percebendo o sofrimento dela, deu um passo à frente.
Alexandra, nós analisamos seus exames, — disse com um tom profissional, porém gentil. — Você vai precisar de um transplante de coração.
As palavras dele ecoaram na minha cabeça, frias, distantes, irreais.
Transplante.
Coração.
Eu?
Olhei em volta, procurando algo que fizesse sentido.
Mas por quê? — minha voz saiu trêmula. — Eu sou saudável... sempre fui.
O médico suspirou, consultando a prancheta em mãos.
Na verdade, não exatamente. — explicou. — Você nasceu com uma condição cardíaca rara. O problema foi controlado por anos, mas começou a piorar. Sua mãe sabia, e estávamos monitorando.
Ele terminou a explicação e se retirou discretamente, deixando apenas o silêncio e o som dos meus batimentos acelerados preenchendo o quarto.
Virei o rosto para Scott.
Cadê o Daren? — perguntei, tentando disfarçar a pontada de decepção que começava a me corroer por dentro.
Ele hesitou.
O Daren... — fez uma pausa, desviando o olhar. — Ele foi ao baile.
Aquelas palavras foram como um soco.
Meu peito já doía por causa da doença, mas agora doía por outro motivo também.
Meu namorado estava no baile. Enquanto eu estava aqui. Fechei os olhos, tentando conter as lágrimas. Claro. O baile era importante. E eu... eu era apenas o problema inesperado da noite.
Mamãe tentou manter o tom otimista:
Olha, Alex, o médico disse que você vai poder se recuperar em casa. Vai precisar ficar em repouso até a operação, que será no início do ano.
Mãe, eu não posso. Tenho aulas, provas... o ano tá acabando! — protestei, sentando-me um pouco.
Eu converso com seus professores, filha. A gente dá um jeito. — ela segurou meu rosto com as duas mãos. — Mas eu não posso deixar você se expor. Não agora.
Ela me beijou na testa antes de sair do quarto para resolver a papelada da alta. Mais tarde, já em casa, subi lentamente as escadas, e Scott veio logo atrás, insistindo em me acompanhar até o quarto.
Obrigada por ter ficado comigo. — falei com um sorriso cansado.
Ele deu de ombros, rindo de leve.
Você vai ser minha irmãzinha, lembra? Tenho que cuidar de você.
Sorri.
Era estranho, mas reconfortante.
Conversamos por um tempo sobre coisas aleatórias, só pra distrair minha cabeça. Até que mamãe apareceu com uma bandeja. A comida... bem, não estava com a melhor aparência do mundo. Fiz cara feia.
Scott riu.
Anda, Alex, come logo antes que ela ache que eu tô te maltratando.
Revirei os olhos, mas acabei cedendo, muito mais pra calar as piadinhas dele do que por fome. Depois que comi, ele colocou um filme pra gente assistir. Era uma daquelas comédias românticas antigas, com trilha sonora fofa e clichês previsíveis mas reconfortantes.
Aos poucos, meus olhos foram se fechando.
A última coisa que lembro antes de adormecer foi a risada leve de Scott e o brilho suave da tela piscando diante de nós. Por um momento, o som do monitor, o hospital, o Daren, tudo desapareceu.
E o mundo pareceu, finalmente, em paz

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