Alexandra Cameron

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Meu nome é Alexandra, tenho 17 anos, e por mais estranho que pareça, já me acostumei a viver no silêncio. Não o silêncio tranquilo, de paz. Mas aquele silêncio pesado, que preenche a casa inteira como uma névoa invisível, aquele tipo de silêncio que faz a gente se sentir invisível também. Fui criada apenas pela minha mãe. Nunca conheci meu pai. Segundo ela, ele morreu num acidente de carro dois meses depois que saí da UTI, onde fiquei internada por problemas no coração assim que nasci. Era frágil, quase não sobrevivi. E, quando finalmente comecei a viver, ele deixou de existir. Eu nunca o vi, nunca o ouvi, nunca o abracei. Mas, de algum jeito que nem eu mesma sei explicar, sinto como se tivesse perdido alguém que fazia parte de mim. Como se, mesmo sem memórias, eu carregasse dentro de mim um pedaço dele. Às vezes me pego pensando em como ele seria. Como seria o som da voz dele me chamando pelo nome. Como seria sentar ao lado dele no sofá e rir de qualquer coisa idiota na TV. Eu não tenho nenhuma foto dele. Nada. É como se ele tivesse sido apagado da história da nossa família. Na nossa casa não tem molduras, não tem porta-retratos, nem mesmo uma carta, um bilhete, uma camisa antiga. Só paredes brancas, móveis frios e vasos de plantas que minha mãe manda a empregada cuidar. Não há lembranças. Não há sinais de que ele um dia existiu.
E essa ausência... dói.
Dói de um jeito calmo, mas constante. É como carregar um vazio no peito que ninguém vê.
Minha mãe... bem, a nossa relação nunca foi boa. A verdade é que ela nunca teve muito tempo pra mim. Desde que me lembro, ela está sempre no celular, com um computador no colo, entrando e saindo de reuniões. Ela vive para o trabalho, e eu... vivo tentando entender como é ser filha de alguém que não faz ideia de quem você é.
Ela diz que me ama, mas nunca me olha nos olhos quando fala isso. Nunca me abraçou sem pressa. Nunca ficou comigo quando eu fiquei doente. Nunca foi a um dos meus eventos da escola. Em vez disso, comprava livros caros, materiais escolares novos, roupas bonitas. Como se tentar me agradar fosse o mesmo que me amar.
Cresci em uma casa onde havia tudo o que o dinheiro pode comprar menos afeto. Por isso, desde cedo, aprendi a me refugiar nos estudos. Livros sempre foram o meu lugar seguro. Me mergulhar em histórias me fazia esquecer a frieza da minha realidade. Era como se, por algumas horas, eu pudesse viver outra vida. Uma onde pais se importam, onde casas têm risadas e onde alguém pergunta sinceramente se está tudo bem.
Minha mãe me mandou para a Cheshire Academy com a desculpa de que eu precisava "aprender a me relacionar", que eu precisava "desenvolver minha capacidade craniana" - como se eu fosse algum projeto inacabado, algo que ela tivesse que consertar à distância. A verdade, eu sei, é que ela não sabe o que fazer comigo. Talvez, lá no fundo, ela também me culpe pela morte do meu pai. Ou talvez eu apenas atrapalhe a rotina de uma mulher que já se acostumou a viver sozinha. Seja como for, agora estou aqui, prestes a começar de novo. Mais uma vez, sozinha.
Nunca tive amigos de verdade. Sempre fui aquela aluna quieta no fundo da sala, aquela que entrega os trabalhos no prazo, mas que nunca é chamada para festas ou conversas no intervalo. Não é que eu não queira estar perto das pessoas. Eu só... não sei como fazer isso. Como confiar. Como ser vista sem sentir medo.
Mas, por mais duro que tudo pareça, e é, tem uma parte de mim que ainda guarda um fiozinho de esperança. Talvez, nesse colégio novo, as coisas sejam diferentes. Talvez eu encontre alguém com quem possa dividir um pouco desse silêncio que me acompanha há anos. Talvez, pela primeira vez, alguém me enxergue além das boas notas ou da postura reservada. Não espero milagres. Mas espero, pelo menos, que esse lugar me permita respirar sem tanto peso. Que aqui, entre corredores desconhecidos, eu consiga encontrar um espaço onde eu finalmente pertença. pertenço.

 pertenço

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