Nicolle
Alexandra, eu e Charlotte estávamos no parque do estacionamento da escola, esperando nossos namorados voltarem dos Nacionais. O ar estava fresco, o céu nublado, e havia uma mistura de ansiedade e saudade no ar. Já fazia algumas semanas desde que eles tinham viajado, e apesar de termos falado por mensagem, nada se comparava a tê-los de volta. Os meninos do time tinham se esforçado muito, mas infelizmente foram eliminados na terceira partida. Eu sabia o quanto aquilo tinha doído, principalmente pro Daren. Ele levava o time nas costas e se cobrava mais do que devia.
— Finalmente! — exclamou Charlotte, assim que o ônibus estacionou.
Os meninos começaram a descer, exaustos, alguns sorrindo, outros com expressão abatida. Jason desceu logo depois do Michael e me viu primeiro. O sorriso dele, mesmo cansado, me fez rir sem pensar.
Corri até ele e o abracei forte.
— Eu tava morrendo de saudade, seu tonto.
— Eu também, gatinha. — respondeu, me apertando de volta. — Prometo que na próxima a gente traz o troféu.
— O meu maior troféu é você, meu amor. — falei com um sorriso brincalhão.
Jason arregalou os olhos, surpreso.
— Jason, não se surpreende não, eu sou um amor às vezes. — completei, rindo.
Ele soltou uma gargalhada e me puxou pela cintura.
— Só às vezes, né? — provocou.
— Abusa da sorte pra ver se não fico "nunca mais", então. — retruquei, divertida.
Ele me deu um selinho rápido e apontou para o ônibus.
— Vem me ajudar com as malas. — disse, estendendo a mão pra mim.
Peguei na mão dele, ainda rindo, e seguimos até o bagageiro. Os meninos estavam exaustos, mas o clima era leve pelo menos até aquele momento. Enquanto Jason puxava a mala dele, meu olhar se desviou para o outro lado do estacionamento. Lá estava a Alex, parada em frente ao Daren, com aquele jeitinho doce e delicado que ela sempre tinha com ele. Mas alguma coisa estava errada. Ele não sorria. Nem olhava pra ela. Parecia... distante, irritado, como se cada palavra dela o incomodasse.
Franzi o cenho, me endireitando.
— Estranho... — murmurei.
— O quê? — perguntou Jason, ajeitando a alça da mala.
— O Daren. Ele tá esquisito com a Alex. — respondi, tentando entender a cena. — Não tá parecendo ele.
Jason seguiu meu olhar e suspirou.
— Ele ficou arrasado com a eliminação. Deve estar de cabeça quente.
— Mesmo assim... — falei baixinho, preocupada. — Isso não justifica esse jeito.
De onde estávamos, dava pra ver o Daren desviando do abraço dela. A Alex tentou falar alguma coisa, mas ele apenas balançou a cabeça, sem sequer encará-la.
Um arrepio estranho percorreu minha espinha.
— Jason, olha isso... — sussurrei, com o coração apertando. — Ele tá sendo frio demais.
Jason olhou, mas antes que pudesse responder, de repente, a voz do Daren ecoou alto, cortando o burburinho do estacionamento.
— Alexandra, me deixa em paz! — ele gritou.
Todo mundo virou o rosto na hora. Eu congelei, sem acreditar no que estava ouvindo mas ainda assim me aproximei para ouvir melhor. A Alex deu um passo pra trás, tentando manter a calma, mas o Daren continuou, cada palavra dele soava mais dura que a anterior.
— Eu já falei pra você não me irritar! A gente conversa depois!
— Daren, eu só... — ela tentou falar, com a voz baixa, doce, como sempre.
Mas ele não deixou.
— EU JÁ FALEI PRA VOCÊ QUE NÃO QUERO SER IRRITADO, CARA! — gritou, e a cada sílaba a raiva dele aumentava. — VOCÊ NUNCA ESCUTA! VOCÊ NÃO PASSA DE UMA GAROTA MIMADA, ALEXANDRA! EU TÔ CANSADO DE TER QUE TE ATURAR!
As pessoas começaram a se aproximar, formando uma roda em volta dos dois. O som do vento, o farfalhar das folhas, tudo pareceu sumir. Só a voz dele ecoava.
— EU TÔ CANSADO DE VOCÊ! — e então veio o golpe final: — E TEM MAIS! VOCÊ PODIA APRENDER A SER MAIS MULHER... COMO A SOPHIE!
O tempo parou.
Senti meu estômago revirar.
A Alex ficou imóvel. O rosto dela, antes cheio de vida, ficou pálido, e as lágrimas começaram a cair sem ela conseguir evitar e ali ela saiu correndo. Ver aquela cena me deu uma raiva que eu nem sabia que era capaz de sentir.
— Seu idiota! — gritei, e antes que Jason conseguisse me segurar, eu já tinha partido pra cima dele.
Comecei a empurrá-lo com força, o coração disparado, as mãos tremendo.
— Como você tem coragem, Daren?! COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE FALAR ISSO PRA ELA NA FRENTE DE TODO MUNDO?!
— Nicolle, para! — Jason tentou me puxar, mas eu o empurrei também.
— Não me manda parar! — gritei, as lágrimas já ardendo nos olhos. — Você humilhou ela! A Alex sempre te defendeu, te apoiou, e é assim que você retribui?
Daren me olhou com o rosto tenso, o olhar frio.
— Isso é entre mim e ela.
— Agora é entre mim e você! — gritei, batendo no peito dele com raiva. — Você acha que pode gritar com ela só porque tá frustrado?! Ela te amava, seu idiota!
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, alguém passou correndo pelo meu lado.
Era o Scott.
O olhar dele estava cheio de fúria.
Sem hesitar, ele empurrou o Daren com força.
— Você perdeu a cabeça, cara?! — gritou. — Falar isso pra Alex?! Você devia ter vergonha!
— Fica fora disso, seu merda! — Daren respondeu, empurrando de volta.
Mas foi a pior escolha que ele podia fazer.
O Scott perdeu o controle. Acertou um soco no rosto do Daren com tanta força que o barulho seco ecoou no estacionamento. Um grito saiu de alguém do grupo que assistia.
Daren cambaleou pra trás, e então revidou. Em segundos, os dois estavam no chão, se empurrando, trocando socos. Jason correu pra separar, tentando segurar o Scott, mas ninguém conseguia pará-los.
— PAREM! — eu gritei, a voz falhando. — JASON, MICHAEL FAÇAM ALGUMA COISA, ELES VÃO SE MATAR.
Mas eles não ouviam.
Charlotte veio correndo, tentando me segurar enquanto eu tremia de raiva, de impotência, de tristeza.
— Charlotte, faz alguma coisa! O Daren vai machucar o Scott e a Alex... — tentei gritar, mas minha voz falhou no meio do caos.
Ela me apertou com força, olhando firme nos meus olhos.
— Nick, para. Você está muito nervosa. Respira! — disse, tentando me acalmar.
Os meninos finalmente se separaram, Daren arfando, Scott com o rosto vermelho, as mãos ainda tensas. Mas a confusão não tinha terminado. O estacionamento estava um completo caos: garotos cochichando, outros tentando entender, e eu? Eu estava morrendo de raiva, meu coração batendo tão rápido que parecia que ia explodir. Olhei ao redor e a Alex não estava mais ali. Meu peito apertou. Ela tinha sumido entre a multidão, provavelmente correndo para se proteger da humilhação.
— Ela fugiu... — murmurei, a voz falhando. — Temos que encontrá-la.
Charlotte me deu um olhar determinado.
— Vamos atrás dela, agora. Antes que ela se machuque mais com a imaginação dela.— disse, e juntas começamos a correr pelo estacionamento.
Procuramos na direção da saída, desviando de meninos ainda tensos, malas espalhadas e alguns cochichos curiosos.
— Alex! — gritei, tentando soar firme, mas minha garganta estava embargada. — Vou procurar nas arquibancadas, ela gosta de se esconder lá.
Charlotte assentiu rapidamente. — Certo, Nick. Eu vou para o refeitório e depois dou uma passada na biblioteca. Qualquer coisa me manda mensagem!
Respirei fundo e saí correndo em direção às arquibancadas. Cada passo parecia pesado, a raiva e a preocupação se misturavam no peito. Chamei o nome dela baixinho, mas não havia sinal de Alex entre as fileiras vazias. As arquibancadas, normalmente cheias de risadas e barulho, estavam silenciosas, quase assustadoras. Não encontrando ninguém, eu voltei para o corredor principal, frustrada, o coração acelerado. Foi então que vi Charlotte vindo pelo corredor, olhando ao redor com preocupação.
— Nick! — Charlotte chamou, aliviada ao me ver. — Nada dela aqui também... Acho melhor irmos juntas para o quarto. Talvez ela tenha se trancado lá, sozinha.
Assenti, sentindo o peito apertado. — Sim, vamos.
Seguimos pelo corredor principal, cada passo pesado de preocupação. Quando chegamos à porta, tentei abrir... mas estava trancada.
— Droga... — murmurei, sentindo a ansiedade crescer. — Parece que ela não quer ser encontrada agora.
Charlotte apoiou a mão na porta, suspirando. — Deve estar precisando de um tempo sozinha. Mas não vamos embora até termos certeza de que ela está bem.
Ficamos ali, lado a lado, batendo levemente na porta e chamando seu nome, torcendo para que Alex nos deixasse entrar
— Alexandra! — eu chamei. — Abre, por favor!
Quando a porta se abriu, meu coração quase parou. Ali estava a Alex, com os olhos vermelhos, o rosto molhado de lágrimas, e uma expressão de quem tinha levado um soco no peito e não só por dentro, mas por todo o corpo.
— Alex... — minha voz saiu baixa, quase um sussurro, mas não consegui evitar.
Ela nos olhou por um instante, a respiração trêmula, e deu um passo para o lado, como se estivesse nos convidando a entrar. Eu não pensei duas vezes: corri e me sentei ao lado dela na cama, abraçando-a com força. O corpo dela tremia, e eu senti cada pedaço da dor que ela tentava segurar.
— Eu não entendo... — murmurei, sentindo o nó na garganta crescer. — Como ele pôde fazer isso com você? Parecia tão apaixonado... parecia certo de vocês dois.
Charlotte entrou atrás de mim, também com os olhos marejados, e se sentou do outro lado da Alex. — Nem eu, Alex... você é uma das pessoas mais doces que eu conheço. Ele não merecia você.
Ficamos assim por alguns instantes, sem precisar dizer mais nada. O silêncio falava mais alto que qualquer palavra. Eu só queria que ela sentisse que não estava sozinha, que não precisava suportar aquilo sozinha.
Depois de um tempo, Alex respirou fundo, ainda abraçada ao travesseiro, e disse baixinho:
— Obrigada, meninas... mas eu preciso ficar sozinha, tá?
Olhei para Charlotte, que fez um leve aceno, concordando. Eu sabia que ela precisava de um pouco de silêncio para tentar recompor o coração. Antes de sairmos, a observei por mais um instante, e meu peito doeu tanto que senti vontade de gritar de raiva pelo que o Daren tinha feito. Enquanto fechava a porta suavemente atrás de mim, senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
— Ele destruiu ela... — murmurei, a voz embargada. — Eu juro, se ele aparecer na minha frente de novo, não sei o que eu vou fazer.
Charlotte colocou a mão no meu ombro, tentando me acalmar. — A Alex é forte. Ela vai se levantar... mas hoje, ela precisa sentir tudo isso.
Assenti, respirando fundo. — E quando ela se levantar, quero estar do lado dela. Porque ninguém, ninguém vai fazer isso de novo.
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Colégio Interno
Ficção AdolescenteNicolle Carter, Charlotte Backer, Alexandra Cameron e Angel Clark são inseparáveis. Quatro garotas completamente diferentes que, por motivos distintos, acabam se encontrando no mesmo colégio interno e desde então vivem como uma verdadeira irmandade...
