70 -A mensagem

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Eugène...

"O ciúme é um juiz implacável que condena sem provas e sentencia sem misericórdia."

— Karen, você sabe que, bem ou mal, Charlotte é minha aluna.

— Não gostei da última foto que postou com ela. Estavam muito perto.

— Eu só estava verificando se o trabalho dela estava bem feito. E você sabe que fotos com ela geram muito engajamento.

— E onde está a sua aluna?

— Ela não me disse, só sei que não está em Paris.

— E precisava fazer vídeo chamada?

...

No dia seguinte, ele foi até o porão para verificar se a restauração da asa da gárgula estava perfeita, pois só dependia do seu aval para que ela voltasse à exposição. Porém, quando já se preparava para ir embora, notou que Louise ainda estava na catedral. Ficou surpreso ao vê-la ali.

— Ainda trabalhando? Achei que já estivesse milionária com o processo de plágio que ganhou da Karen.

— Ah, Eugène! Sempre tão perspicaz. Sim, ainda estou aqui. Apesar de ter ganho a causa, o dinheiro ainda não caiu. E, além disso, tenho um amor incondicional por estas obras; elas têm histórias fascinantes para contar.

Eugène ficou intrigado, pois não sabia de detalhes sobre o processo.

— Tem muita coisa sobre a Karen que você não faz ideia. A disputa foi exaustiva, mas no final a verdade prevaleceu. Ganhei, mas ainda espero pelo pagamento. E olha... isso foi o mínimo. A justiça ainda não foi feita por completo. Ela roubou minha história, e fez com que Charlotte usurpasse a minha vida; tudo o que Charlotte tem hoje é graças ao meu livro. Ah! E você sabe que o Esteban já estava morto quando o carro caiu no Rio Sena? Se eu fosse você, tomava cuidado.

Eugène ficou em silêncio, pensando no porquê de sua noiva nunca ter mencionado aquele detalhe.

...

Karen...

Sua saúde emocional estava um caos. Era muita coisa para sua cabeça: Louise havia ganho o processo e eles chegaram a um acordo de 5,5 milhões de euros a serem pagos em 24 meses. Isso não agradou nem à adversária, que queria o dinheiro à vista, nem a ela mesma, que jurava que conseguiria baixar o valor para 1 milhão. Ela não tinha aquela quantia em caixa; teria que vender imóveis para fazer a primeira parcela de 1,5 milhões.

Como se não bastasse, fora indiciada pelo assassinato de Esteban. A polícia queria saber o porquê de ele ter morrido ao volante sem ao menos frear. Ela e o advogado planejavam jogar a culpa em Louise, mas a mulher tinha um álibi irrefutável: uma ex-vizinha policial estava com ela no dia do crime. Elas estavam conversando quando Esteban ligou, mandando Louise se arrumar pois iria buscá-la para comemorarem a compra de um apartamento.

Quando chegou na editora naquela manhã, havia pelo menos quatro repórteres e equipes de sites de fofoca na porta. Teve que chamar segurança para conseguir entrar. Agora, ali estava ela, sentada em sua sala luxuosa, no bairro mais caro de Paris — um escritório que só existia ali porque ela investira seu próprio dinheiro; antes disso, a empresa ficava em Orly.

Foi tirada de seus pensamentos pela secretária:

— Senhora Karen, já leu os e-mails de hoje?

— Não, Rebeca. Não sei se você sabe, mas eu te pago para ler isso por mim.

— Acontece que dois dos seus cinco melhores autores avisaram que não pretendem renovar os contratos que vencem em breve.

A secretária deixou as folhas impressas sobre a mesa de cedro do Líbano. Karen levantou-se e leu, sentindo a raiva subir.

— Que petulância! O Rick Roches era só o Nuno Ricardo Rocha quando eu o descobri. Dei chance para ele, mudei seu nome, ajudei com a nacionalidade, tirei ele do fim do mundo e trouxe para Paris. O Roy Chaput era o Rodrigo Rodrigues; até que tem imaginação, mas comete tantos erros de gramática que a revisora cobra o dobro para arrumar. Mal agradecidos! É isso o que eles são.

— Não é só isso... Um dos cotistas, o senhor Faure, está colocando seus 3% à venda.

— Puta que pariu!

...

À noite, foram para a casa de Eugène. Jantavam em silêncio, separados pela imensa mesa, quando o alarme de mensagem tocou. Karen viu ele ler a tela e guardar o celular rapidamente no bolso.

— De quem é a mensagem? — Perguntou, segurando a onda de ciúmes.

— É da Charlotte. — Ele respondeu, bebendo um gole de vinho e voltando a comer sem olhar para ela.

— Vocês estão muito íntimos. Vídeo chamada daqui, mensagem dali... Ela fala mais com você do que comigo. — Disse ela, cortando a carne com força.

— Karen, eu sei onde essa conversa vai parar. Pare enquanto é tempo. É assunto pessoal, ela mudou de endereço e pediu para eu passar o novo local para uma pessoa.

— E por que não pediu para mim? — Indignou-se. — Charlotte não tem o direito de ficar ligando para o meu noivo!

— Porque você não conhece a pessoa. — Eugène respondeu, elevando um pouco o tom.

— Eu não acredito! Se fosse verdade, me mostraria a mensagem. — Ela gritou, dois tons acima.

— Karen, já falei que é pessoal.

— Porra, Eugène! Homem comprometido não fica trocando mensagem com mulher solteira!

— Eu não estou te traindo! Para com esse ciúme doentio!

— Se não está me traindo, mostra a porra do celular!

Eugène esvaziou a taça de vinho de uma vez só. Levantou-se e caminhou até ela com passos largos. O coração de Karen disparou, temendo que ele fosse agredi-la, mas ele apenas tirou o aparelho do bolso e mostrou a tela:

“Bonsoir, Eugène. Poderia por favor passar meu novo endereço para o Pierre? Étretat, Normandia, França. 234.”

“Ok.”

— Desculpa, meu amor... Eu vacilei de novo, né? — Disse ela, envergonhada.

Ele não respondeu. Apenas pegou o telefone e ligou para um táxi.

— Karen, eu vou dormir em um hotel. Voltarei amanhã depois do curso. Sugiro que use esse tempo para pensar. Se não consegue confiar em mim, não adianta nada nos casarmos... Ou você muda esse jeito, ou nós terminamos.

Ele fez uma mala pequena e entrou no carro. Karen fingiu estar arrependida, mas mal ele saiu, pegou seu carro e foi atrás. Viu ele parar na catedral por cerca de 30 minutos e depois ir para um hotel simples em Enghien. Ela o vigiava de longe, sentada no carro, pensando em como estava estragando tudo com seu ciúme fora de controle, quando um pensamento gelado cruzou sua mente:

“Eles quase me enganaram... E se aquela mensagem não era para eu passar nada, mas sim uma forma de Charlotte avisar onde ela está sem eu perceber?”

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora