O sol ainda não havia nascido completamente quando a van da empresa de manutenção parou diante da entrada de serviço da Catedral de Notre-Dame. Ele desceu em silêncio, ajustando a capa de chuva azul e o capacete que escondia parte do rosto. Não era o único, havia mais três homens na equipe, todos conversando em voz baixa sobre cronogramas e as áreas que precisavam ser inspecionadas naquela manhã.
Misturou-se ao grupo com naturalidade, passando pelos seguranças como alguém que realmente pertencia ali. Seus olhos percorriam o ambiente com atenção, embora sua expressão permanecesse neutra. A missão era simples, entrar, causar o estrago e sair sem deixar rastros.
- A equipe vai subir para a torre sul - anunciou um dos responsáveis. - É lá que estão os trabalhos mais delicados na estrutura elétrica antiga.
Ele apenas assentiu, sem dizer nada. Seguiu os demais, mas, aos poucos, foi se afastando até alcançar uma escada estreita que levava ao topo. Subiu degrau por degrau, a madeira antiga rangendo sob o peso de suas botas. Mantinha a cabeça baixa, evitando encarar câmeras ou operários. Queria ser apenas mais um. Invisível.
Ao chegar ao andar superior, encontrou um verdadeiro labirinto de vigas de carvalho, fios expostos e o cheiro denso de poeira acumulada pelo tempo. Os outros se dispersaram, ocupando pontos distantes o suficiente para não notarem o que ele estava prestes a fazer.
Agachou-se diante de um conjunto de caixas de distribuição. Com movimentos rápidos e precisos, abriu o painel com uma chave de fenda. Seus dedos, sujos de graxa, trabalharam com habilidade sobre os fios de cobre. Não era apenas bagunça, era técnica.
Desencapou alguns condutores e os cruzou de forma calculada, criando um contato imperfeito. Um erro proposital. Algo que aqueceria lentamente, produziria faíscas e, no momento certo, iniciaria o fogo. Ainda assim, deixou tudo com aparência de desgaste natural.
Era perfeito.
Pareceria um acidente.
Continuou trabalhando por alguns minutos, fingindo ajustes, medindo tensões, olhando o relógio de pulso de tempos em tempos. Quando julgou suficiente, guardou as ferramentas.
- Vou lá embaixo pegar um conector que esqueci na van - avisou, erguendo a voz o bastante para ser ouvido.
Um dos colegas apenas acenou, distraído.
Ele desceu as escadas sem pressa, mantendo o ritmo controlado. Passou pela portaria, cumprimentou o segurança com um gesto breve e deixou o local pelo mesmo caminho por onde entrou.
Só quando já estava a alguns quarteirões de distância, em uma esquina vazia, parou. Tirou o celular do bolso e discou um número que sabia de memória.
- Alô? - a voz feminina do outro lado soou fria, direta.
- Serviço feito, senhora - respondeu ele, lançando um último olhar para a catedral ao fundo. - Está tudo preparado. É só uma questão de tempo.
Houve uma breve pausa.
- Muito bem. O restante será enviado como combinado.
Alis desligou. Um sorriso lento, satisfeito, quase cruel, surgiu em seus lábios. O plano estava se encaixando com precisão.
Sem hesitar, discou outro número.
- Alô, Jean? - disse assim que foi atendida.
- Sim, Grand-mère? - a voz dele veio atenta.
- Está tudo caminhando como planejado - respondeu, pausadamente, como se saboreasse cada palavra. - Diga-me, você está com as balas? As que eu lhe entreguei?
- Estou - afirmou Jean, firme. - Estão comigo. Estou pronto.
- Excelente - sussurrou ela, fechando os olhos por um instante. - Mantenha-as por perto. A hora está chegando.
A ligação foi encerrada.
Alis permaneceu imóvel por alguns segundos, sentindo uma excitação antiga pulsar em seu peito.
Notre Dame iria arder.
E Pierre Duran com ela.
O sol brilhava sobre Paris naquele dia, mas havia algo no ar que parecia diferente. O céu estava de um azul intenso, quase perfeito, enquanto uma brisa leve anunciava o fim da tarde. Era 15 de abril de 2019, e o relógio marcava exatamente 16h30.
Respirei fundo, ajustando o celular no suporte. Apesar de já ter feito inúmeras lives, de ter milhares de seguidores, ali, dentro daquela imensidão de pedra e história, eu sentia um frio na barriga diferente.
- Calma, Charlotte - disse Rubi, ao meu lado, tocando levemente meu ombro. - Age naturalmente. Como sempre. Respira.
Sorri, tentando transmitir segurança, e toquei em "Ao vivo". A contagem regressiva apareceu na tela e, em poucos segundos, os corações começaram a subir, acompanhados pelo número crescente de espectadores.
- Olá, meus amores! - falei, animada, acenando para a câmera. - Que saudade de vocês! Olha só onde eu estou hoje...
Girei o celular lentamente, revelando a grandiosidade da Catedral de Notre-Dame, os arcos elevados, a luz atravessando os vitrais, o peso silencioso da história.
- Estamos aqui no lugar mais especial do mundo para mim hoje! Como muitos já sabem, estou com uma novidade incrível... O livro Gárgula já está em pré-venda oficial!
Fiz uma breve pausa, deixando os comentários explodirem na tela.
- E tem mais! Ele chega oficialmente às lojas no dia primeiro de maio!
Os emojis de fogo e corações dominaram a transmissão.
- E, para comemorar, vou estar na Livraria Galignani, a mais antiga e famosa de Paris, no dia do lançamento, autografando exemplares das dez da manhã até o meio-dia. Quem vem? Quero abraçar cada um de vocês!
A tela virou um turbilhão de mensagens. Li alguns nomes, respondi perguntas, mantendo o carinho de sempre.
- Ah, olha essa pergunta - li em voz alta. - "Charlotte, por que escolheram Notre Dame para a live?"
Sorri.
- Olha que coisa mais linda... gente, esse livro não poderia ter nascido em outro lugar. Na verdade, ele só existe por causa da lenda dessa gárgula.
Os comentários subiam tão rápido que mal dava para acompanhar, mas alguns chamavam atenção o suficiente para eu ler em voz alta.
- Olha esse aqui! - sorri, aproximando o celular. - "Charlotte, eu amo você! Seus livros me ajudaram em uma fase muito difícil da minha vida!" Ai, meu Deus... - levei a mão ao peito - vocês não têm ideia do quanto isso significa pra mim.
Deslizei a tela com o dedo, tentando acompanhar o fluxo.
- "Já comprei o Gárgula na pré-venda!" - li animada. - Aaaah, obrigada! Depois me conta o que achou!
- "Charlotte, você é a melhor escritora da atualidade!" - ri, meio sem graça. - Gente, vocês são muito exagerados... mas eu amo isso!
Mais corações subiam.
- "Tô vindo do Brasil só pra te ver na Galignani!" - arregalei os olhos. - Mentira! Você tá falando sério? Eu vou te abraçar mesmo, hein!
Continuei lendo:
- "Como você teve a ideia de escrever esse livro?" - fiz uma pausa, ajeitando o celular. - Essa é boa...
Respirei fundo, sorrindo.
- Bom... tudo começou quando eu ouvi a lenda de uma gárgula que, supostamente, pertencia à família do meu ex-marido. - dei uma leve risada. - E eu pensei: isso aqui daria uma história incrível.
Os comentários explodiram.
- "EU SABIA QUE TINHA HISTÓRIA POR TRÁS!"
- "A LOUCA DO EX MARIDO KKKK"
- "Charlotte, você transforma tudo em arte!"
Balancei a cabeça, rindo.
- Vocês são impossíveis!
Mais mensagens surgiam:
- "Charlotte, seus livros parecem filmes!"
- "Nunca chorei tanto lendo quanto com você"
- "Amo como você escreve romance com mistério"
- "Você merece todo esse sucesso!"
- Ai, gente... - falei mais baixo, visivelmente emocionada. - Eu só tenho a agradecer. De verdade.
Respirei fundo, tentando me recompor.
- E já que estamos falando de novidades... - olhei para o lado, abrindo um sorriso maior - olha quem está aqui comigo!
Afastei um pouco a câmera, revelando Louise ao meu lado.
- A mais nova contratada da editora! - anunciei. - Coautora de Crônicas de Caladrian.
Louise sorriu, visivelmente contida, mas com brilho nos olhos.
- Eu estou muito feliz - disse ela, com a voz firme, porém emocionada. - De verdade. É uma honra fazer parte de uma editora tão grande, e trabalhar com pessoas tão talentosas.
Ela fez uma breve pausa, olhando diretamente para a câmera.
- E... podem esperar. Porque vem surpresa por aí. Em breve.
Os comentários enlouqueceram novamente.
- "MEU DEUS O QUE VEM AÍ???"
- "Louise linda!!!"
- "QUERO SABER AGORA!"
Ri, animada.
- Calma, gente! Nem eu sei de tudo ainda!
O tempo passou mais rápido do que eu percebi.
Quando olhei o relógio, já eram quase 18h40.
Encerramos a live entre agradecimentos, promessas e uma enxurrada de corações subindo pela tela.
- Amo vocês! Até breve!
Toquei em "encerrar".
O silêncio veio aos poucos, substituindo o barulho constante da transmissão.
A equipe começou a se movimentar ao redor, recolhendo luzes, desmontando suportes, guardando microfones. Tirei algumas fotos perto de uma das gárgulas, ainda sorrindo, tentando registrar aquele momento especial.
Foi então que o vi.
Eugène.
Ele carregava algumas caixas em direção à sala onde aconteciam as aulas de restauração. Havia algo cansado em seus movimentos, uma espécie de peso invisível.
Caminhei até ele.
- Como estão as coisas? - perguntei, com cuidado.
Ele soltou um suspiro discreto, apoiando uma das caixas por um instante.
- Não está nada fácil - respondeu, passando a mão pelo rosto. - A mídia de fofoca na internet não para de me perseguir até hoje. Querem saber se eu sabia de algo... sobre o assassinato.
Engoli em seco, permanecendo em silêncio.
- Karen tentou me manipular - continuou ele, a voz mais baixa. - Queria que eu encobrisse tudo. Que pagasse pela fuga dela.
Ele riu, sem humor.
- Então eu decidi ocupar minha cabeça. É o melhor que posso fazer. Mesmo quando alguns alunos comentam sobre isso... eu finjo que não ouvi. Como se não fosse a minha vida.
Houve uma pausa.
- Tenho certeza de que, com o tempo... não vai doer tanto.
Aproximei-me e o abracei, sentindo de verdade o peso de tudo aquilo.
- Vai passar - murmurei.
Nos afastamos devagar.
Foi então que ouvi passos atrás de mim.
A voz veio fria, cortante.
- É... plagiadora.
Virei-me.
Louise estava ali.
O olhar afiado, quase divertido.
- Você conseguiu dar a volta por cima - continuou ela. - Ficou com parte da editora, e, ainda por cima, está crescendo cada vez mais.
Ela inclinou levemente a cabeça.
- Quem disse que o crime não compensa... claramente não conhece a sua história.
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Gárgula ( +18)
Fantasia* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
