77 -Vida que segue

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- Engraçado... todo mundo achou que, sem a Karen, a editora ia desmoronar. Que aquilo tudo ia virar um caos. Mas não foi nada disso.

Na verdade, a ausência dela acabou colocando as coisas no lugar. Como ela era dona da maior parte da empresa, o conselho teve que agir rápido, congelaram as participações, revisaram contratos, colocaram uma administração provisória. E sabe o que aconteceu? O que parecia um rombo virou estabilidade.

Sem a Karen por perto, os ânimos esfriaram.

Aquela história do plágio, que parecia que ia enterrar a editora de vez, finalmente teve um ponto final. Vieram documentos, datas, provas, tudo ficou claro. O escândalo perdeu força, não porque esqueceram, mas porque não tinha mais quem alimentasse aquilo. No fim das contas, a editora saiu mais forte do que entrou.

A produção voltou ao normal, até melhor.

E eu, eu passei a ser cuidada pela Rubi. Foi uma mudança silenciosa, mas decisiva. Rubi assumiu a imagem da editora com firmeza, com calma. Horários, rotina, segurança. Pela primeira vez em muito tempo, eu tive dias previsíveis, sem sustos, sem tensão.

No mercado, o nome da editora voltou a circular com respeito.

Tanto que a historiadora, aquela mesma que antes era tratada como problema, acabou sendo chamada para virar escritora contratada. Foi uma jogada inteligente: transformaram o conflito em autoridade.

E aí veio o golpe final de virada.

Aproveitando a alta do assunto, uma grande empresa de streaming apareceu com uma proposta. Queriam transformar Gárgula em série. E o mais absurdo? O livro ainda nem tinha sido lançado.

Nada foi assinado naquele dia, claro. Mas a mensagem ficou clara.

A história já tinha ultrapassado as páginas antes mesmo de existir fisicamente.

No fim das contas... sem a Karen, a editora não só sobreviveu.

Ela passou a respirar melhor.



Louise não perdeu tempo. Antes mesmo que a poeira do escândalo baixasse por completo, entregou à diretoria um rascunho escrito à mão, em um caderno escolar de vinte matérias, desses grossos, gastos nas bordas, como se tivesse sido carregado por muitos lugares. Rubi, que agora cuidava das minhas coisas na editora, foi quem me contou. Disse que o livro se chamava Crônicas de Caladrian e narrava a história de dois irmãos em guerra pelo trono de um reino antigo, dividido entre lealdade, ambição e sangue.

Segundo Rubi, havia dragões. Muitos. Dragões descritos com uma intimidade quase desconfortável, como se Louise não estivesse inventando criaturas, mas se lembrando delas. Um tema em alta, é verdade, e a diretoria percebeu isso de imediato. Rubi disse que o entusiasmo na sala era palpável, que Louise soube conduzir a apresentação com uma segurança que beirava a arrogância, como quem sabe que já venceu antes mesmo da votação fina.



Pierre, certa vez, me perguntou por que eu nunca denunciei Louise pelo roubo das relíquias de Notre Dame.

Na época, desviei da pergunta. Disse algo vago, falei de falta de provas, de conveniência, de cansaço. Mas a verdade, a que nunca verbalizei, é que havia coisas que não podiam ser expostas sem que outras viessem à tona junto. Algumas verdades, quando puxadas, arrastam o mundo inteiro atrás delas.

E Notre Dame... Notre Dame guardava segredos demais para que alguém saísse ileso de uma denúncia.

Talvez Louise soubesse disso desde o início. Talvez fosse esse o verdadeiro motivo de sua pressa. Ou talvez todos nós já estivéssemos escrevendo, sem saber, capítulos de uma história que ainda exigiria fogo para chegar ao fim.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora