50 Vingança

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Ao ouvir a voz que assombrava os seus sonhos, Alis abriu o diário em uma página específica e arrancou-a. Ainda de costas para a lareira, falou com a voz embargada:

— Pierre Durand. Eu tinha certeza de que era você assim que pisou no meu telhado. Você foi o motivo de tantas das minhas noites em claro; sempre jurei que nunca seria pega de surpresa.

— E por que iria fazer algo contra você?

Ela fechou os olhos por alguns segundos, ouvindo a criatura falar, tentando identificar de onde vinha aquela voz tão grave.

— Não sei... Me diga você por que matou o meu irmão. Ele tinha apenas dezesseis anos. Você o espancou até a morte e o deixou lá, para que as feras da noite comessem a sua carne. — Disse ela, mantendo os olhos cerrados.

— Eu nunca matei ninguém da sua família. A única pessoa que eu queria matar era o Duque. Não sei quem tirou a vida do seu irmão, mas garanto que não fui eu.

— Você está mentindo! Meu irmão era querido por todos. Alguns amigos que foram caçar com ele descreveram que a besta que o atacou tinha olhos amarelos e asas. — Falou ela, enquanto uma lágrima solitária escorria pelo seu rosto.

— Eu não sei quem matou seu irmão, mas com certeza não fui eu. — A gárgula falou, agora um pouco mais perto do que antes. Porém, como o quarto estava iluminado apenas pelo fogo baixo da lareira e pelo luar que entrava pela varanda, ela não conseguia ver nada com clareza.

— Você está mentindo! — Ela lançou o atiçador de ferro contra a sombra e, no mesmo movimento, jogou o diário diretamente nas chamas.

A criatura saiu da escuridão em um movimento veloz, indo direto ao fogo. Foi então que ela o viu: olhos amarelos intensos, longos cabelos brancos e uma pele feita de mármore pálido. Confessaria, se pudesse, que em seus pesadelos ela o imaginava muito mais horrendo; mas isso não importava. Ele matara o seu irmão e ela iria se vingar.

Correu até o closet, pegou uma garrafa de querosene e, aproveitando que o diário ainda queimava em suas mãos, jogou o líquido inflamável sobre ele. As chamas se espalharam pelo corpo da gárgula, mas ele mal a olhou; sua única preocupação era apagar o fogo que consumia o manuscrito.

Diná, ouvindo a gritaria, abriu a porta do quarto e, ao ver a enorme figura em chamas, desmaiou instantaneamente. Alis pegou novamente o atiçador e foi para cima de Pierre Durand. Ele tentou segurá-la por duas vezes, mas não contava que ela tivesse estudado esgrima e manejo de espadas medievais por quase toda a sua vida.

Após alguns movimentos rápidos, conseguiu desferir um golpe que arrancou o diário de suas mãos. O livro, ainda em chamas, foi lançado em direção à varanda, mas ainda dentro do aposento. A cortina, que balançava com o vento, tocou as páginas ardentes e imediatamente começou a pegar fogo.

— Eu não matei o seu irmão! — O monstro gritou, ignorando os golpes que ela desferia contra ele com a barra de ferro.

A gárgula moveu-se rapidamente, agarrou o livro e, mesmo com ambos ainda em chamas, alçou voo até a fonte central do jardim. Lá, começou a jogar água sobre si mesmo e sobre o que restava do diário, tentando salvar o que fosse possível, cobrindo depois com terra do próprio jardim para abafar as brasas.

Alis correu até o seu closet e pegou uma pistola. Foi até uma das janelas e atirou contra a criatura enquanto ela tentava levantar voo. Sua filha acordou do desmaio e correu até ela, assim que viu as cortinas em chamas.

— Mãe! — Gritou Diná, aproximando-se. Ao ver a mãe atirando, olhou para o alto e chegou a tempo de ver a enorme silhueta pairando sobre o jardim. — Meu Deus... Ele realmente existe.

— Sim, Diná. As histórias da avó sempre foram verdade. Ela sabia que só eu realmente acreditava e me passou tudo o que precisava saber para acabar com Pierre Durand. O fogo comum não funcionou... Só me resta fazer com que ele volte a ser humano para que possamos matá-lo da maneira correta.

— Mãe, pensamos nisso depois! Agora precisamos apagar o fogo da cortina e da lareira antes que se alastre, chamar os bombeiros e a seguradora. Esse palacete é patrimônio histórico! — A filha falou, puxando-a pela mão para que saíssem dali.

...

Emma...

Verdadeiramente, Karen estava certa. Eu sempre desejei que um dos meus livros virasse uma grande produção, e agora que estava acontecendo, eu não estava dando a devida importância. Pierre sabe se cuidar; ele viveu por séculos antes mesmo de eu existir, sabe se virar sozinho.

É claro que ainda havia muita euforia. A notícia de que o meu livro se tornaria uma série espalhou-se como pólvora. Vários atores vieram falar comigo na esperança de conseguir um papel, pois, como a obra foi um sucesso estrondoso, todos acreditavam que a adaptação seria igualmente grandiosa.

Fui salva de mais uma sessão de fotos com artistas que eu mal conhecia quando o meu celular tocou. Olhei para a tela e fiquei surpresa ao ver que era o meu marido, ligando daquela hora da madrugada.

Sorri e disse que precisava atender.

— Jean.

— Olá, amor. Já conheceu alguém famoso por aí?

— Conheci aquele ator cabeludo daquela série, que faz um casal tão fofo. Também vi o ator dos olhos azuis da série de vampiros e pelo menos cinco daquele seriado sobre assalto a banco. Inclusive, acabei de tirar foto com um que tem cara de bobão.

— Emma, você precisa decorar os nomes das pessoas, algumas podem se sentir ofendidas.

— Jean, eu esqueço o nome dos personagens do meu próprio livro! Tenho que voltar várias vezes em capítulos anteriores só para lembrar como se chama uma personagem que eu mesma criei.

— Emma, fico muito feliz que esteja se divertindo, mas liguei para avisar que estou indo para Nancy. Ia viajar de qualquer forma na semana que vem por causa do aniversário da avó, mas tive que adiantar. Parece que houve um pequeno incêndio no quarto da Alis.

— Alis está ferida? — Interrompi-o, preocupada.

— Não, ela mesma disse que estão bem. Pedi licença de uma semana, assim aproveito para ficar por lá e descobrir o que realmente aconteceu. Se quiser, pode vir para Nancy assim que chegar de Madri.

— Obrigada, Jean, mas estou um pouco cansada.

— Tudo bem, então te mando mensagem assim que chegar. — Eu já ia desligar quando ele continuou: — Emma, acho que seria bom você procurar um terapeuta. Já faz tempo que seus pais e sua avó se foram, e a sua única família sou eu. Você poderia se aproximar mais da minha, mas nunca faz questão. Acho que não é saudável ser tão reclusa.

Revirei os olhos e menti:

— Karen está me chamando, tenho que ir. Boa viagem.

— Deus te abençoe.

Desliguei o telefone, nervosa, sem saber se Pierre havia conseguido recuperar o diário ou não, e ainda mais apreensiva com a história do incêndio no palacete.

Gárgula ( +18)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora