O escritório estava em silêncio demais.
Karen caminhava de um lado para o outro, os saltos marcando o mármore como um metrônomo nervoso, quando o advogado fechou a porta atrás de si. Ele não se sentou de imediato. Tirou os óculos, limpou as lentes com cuidado excessivo — um gesto que, ela sabia, antecedia más notícias.
— Karen... — começou, enfim — o cerco está se fechando.
Ela parou. Lentamente. O encarou.
— Seja mais claro.
— A narrativa mudou. — Ele respirou fundo. — A polícia já não trata o caso como um acidente. Para eles, agora, é um crime passional.
Karen riu, seca.
— Isso é ridículo.
— Ridículo ou não, é coerente demais para ignorarem. — Ele abriu a pasta e espalhou alguns documentos sobre a mesa. — Você mesma declarou, em depoimento, que Esteban tinha várias amantes. Mas quando pressionada a citar nomes... só apareceu Louise.
— Porque era a única que importava — retrucou, a voz mais dura do que pretendia.
— Exatamente esse é o problema. — O advogado a fitou com seriedade. — Louise virou o eixo de tudo. Rivalidade profissional, processo judicial, dinheiro, exposição pública... para a polícia, ela é o estopim. Mas não a autora.
Karen sentiu o estômago revirar.
— Estão insinuando que fui eu?
— Já não é insinuação. — Ele bateu levemente no papel. — Estão construindo o cenário: traição, humilhação, perdas financeiras, raiva acumulada. Tudo aponta para você.
Ela se aproximou da mesa, apoiando as mãos na madeira.
— E Louise?
— Tem álibi. Forte. Confirmado por uma policial. — Ele fez uma pausa curta, calculada. — E você... não.
O silêncio caiu como uma lâmina.
— Isso é impossível — murmurou Karen. — Eu estava... eu devia estar em algum lugar.
— "Devia" não sustenta um processo. — A voz dele suavizou, mas o conteúdo não. — Você não consegue provar onde estava no horário da morte de Esteban. Nenhuma câmera, nenhum recibo, nenhuma testemunha.
Karen sentiu o ar rarear.
— Então o que você está dizendo é que... — Ela não terminou a frase.
— Estou dizendo que tudo está se virando contra você. — Ele recolocou os óculos. — E que, a partir de agora, qualquer passo em falso pode ser definitivo.
Ela se endireitou, o olhar escuro, calculista.
— E o que você sugere?
— Que pare de reagir emocionalmente. — Ele a encarou. — E que entenda uma coisa, Karen: quando o circo começa a fechar, não é o inocente que cai primeiro. É o que não consegue provar que não fez.
Ela desviou o olhar para a janela, observando Paris lá embaixo, indiferente.
Por um instante, sua imagem refletida no vidro não parecia a de uma mulher acuada — mas a de alguém que começava a entender que o jogo havia mudado.
Karen começou a mover seus pauzinhos com a precisão de quem já não joga para ganhar, mas para escapar. A ideia era simples, quase ingênua à primeira vista: sair do país o quanto antes. Uma viagem que, oficialmente, seria apenas uma lua de mel — ilhas, sol, sorrisos para as câmeras —, mas que poderia se prolongar por tempo indeterminado. Um desaparecimento cuidadosamente disfarçado de felicidade.
Ela fora avisada, mais de uma vez, de que não podia deixar a França. Ignorou. Acelerou o casamento, pressionou datas, comprou passagens para as Bahamas com antecedência suficiente para parecer apenas entusiasmo de noiva. Para ela, tudo já estava decidido. O dia havia chegado.
A Catedral de Notre-Dame estava deslumbrante.
A nave gótica, habitualmente solene, vestia-se de luxo contido: arranjos de flores brancas e verdes pendiam discretamente entre os pilares seculares, velas altas lançavam reflexos dourados sobre a pedra antiga, e o aroma suave de flores frescas misturava-se ao incenso. Cada detalhe fora pensado para não competir com a grandiosidade da catedral, mas dialogar com ela , um casamento à altura de Paris.
No altar, Eugène aguardava.
Vestia um terno impecável, claro, clássico, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, tentando conter a inquietação que lhe subia pelo peito. À sua direita, os alunos do curso de restauração , jovens que o admiravam como mestre e como homem. Mais atrás, familiares e alguns amigos próximos. Havia afeto daquele lado, presença verdadeira.
Do lado reservado à noiva, o contraste era gritante: poucos familiares, alguns amigos escolhidos a dedo. Nenhum dos escritores da editora comparecera. O escândalo do plágio ainda queimava, e ninguém queria ser visto ali. A única exceção era Charlotte, sentada discretamente, expressão contida, olhos atentos , a única escritora presente.
Lá fora, na praça, repórteres se espremiam atrás das grades. Câmeras erguidas, lentes apontadas para a entrada principal. Não era apenas um casamento: era um espetáculo público.
Então, a música começou.
Um arranjo solene e majestoso ecoou pela nave, fazendo os murmúrios cessarem instantaneamente. As portas se abriram.
Karen surgiu.
Vestia um branco absoluto, um vestido estilo sereia que abraçava seu corpo com perfeição calculada, elegante e audaciosa na medida exata. O tecido deslizava como água, realçando cada passo. Sobre o rosto, um véu longo, delicado, quase etéreo, que suavizava seus traços e escondia qualquer vestígio de tensão.
Ela começou a caminhar.
Vagarosamente. Um passo após o outro. Cabeça erguida, postura impecável, o sorriso ensaiado de quem sabe estar sendo observada por todos , fiéis, convidados, fotógrafos, e pelo mundo inteiro através das lentes. Os flashes disparavam sem pudor, iluminando a nave como relâmpagos silenciosos.
Karen avançava como se estivesse entrando em cena numa ópera: consciente, controlada, magnífica.
Quando chegou ao altar, a música cessou.
Eugène aproximou-se. Com cuidado, ergueu o véu que cobria o rosto da noiva. Por um breve instante, seus olhos se encontraram. Ele selou a testa dela com um beijo suave ,um gesto mais reverente do que apaixonado.
O arcebispo iniciou o sermão.
Falou sobre amor verdadeiro, sobre confiança, sobre a união que deve ser construída não apenas nos dias de luz, mas também nas sombras. Suas palavras ecoavam belas demais para o peso que carregavam.
Então, veio a frase.
— Se alguém aqui presente tem algo contra este matrimônio, que fale agora... ou cale-se para sempre.
O silêncio foi absoluto.
Por apenas dois segundos.
O som de passos rompeu a nave.
Firmes. Rítmicos. Inconfundíveis.
A polícia entrou pela catedral.
Uniformes contrastando violentamente com o branco das flores e do vestido. Olhares se voltaram em uníssono. Um murmúrio percorreu os bancos como uma onda de choque.
O oficial à frente avançou até o altar.
— Karen — disse, em voz clara, profissional — a senhora está detida.
Ela empalideceu, mas não recuou.
— A senhora é formalmente acusada de tentar deixar o país sem autorização judicial, sendo a principal suspeita no assassinato de seu marido, Esteban. Recebemos a informação de que passagens internacionais foram compradas com esse objetivo.
O casamento desmoronava ali, diante de todos.
Entre vitrais, flores e câmeras, Karen compreendeu — tarde demais — que Notre-Dame não seria sua saída.
Seria o palco de sua queda.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Gárgula ( +18)
Fantasia* O livro é fantasia, bastante cenas de sexo, bruxas, sexo, romance, ... Eu já falei que o livro tem muito sexo? É a história de uma escritora que sem ideias para um novo livro começa a estudar uma lenda de um gárgula escondido dentro da catedr...
