92- A Herança

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Três anos se passaram.
E, sinceramente... eu sempre odiei histórias que terminam com pontas soltas.
Então, talvez essa seja a minha forma de fazer diferente. De amarrar os nós. De dar a vocês - e a mim mesma - um fim digno.
Ou, pelo menos... um recomeço compreensível.
Muita coisa aconteceu desde então.
Algumas coisas eu acompanhei de perto.
Outras... chegaram até mim como ecos distantes, sussurros de um mundo do qual, aos poucos, fui me afastando.
Mas ainda assim... eu sei.
Soube, por exemplo, que Jean - depois de atirar em Pierre e, sem saber, libertá-lo de séculos de prisão em pedra - não teve o destino comum que muitos imaginariam.
Ele não desapareceu.
Não foi punido.
Foi... recrutado.
O Vaticano o chamou.
E, ao que tudo indica, viu nele algo mais do que um simples homem que puxou um gatilho.
Jean foi treinado.
Preparado.
Transformado em algo que poucos sabem que existe: um caçador.
Um caçador de monstros.
Irônico, não?
Um homem comum... lançado em um mundo que ele sequer sabia que era real.
Mas, no fundo, talvez ele sempre tenha tido o perfil certo.
Coragem suficiente.
Ou imprudência suficiente.
Às vezes... dá no mesmo.
Karen...
Bem, Karen não teve a mesma sorte.
Ela continua presa.
E, ao contrário do que muitos poderiam pensar, não há romantização nisso. Não há redenção milagrosa.
Apenas consequência.
Algumas escolhas... não permitem retorno.
E a vida, por mais injusta que pareça às vezes, cobra.
Sempre cobra.
Louise...
Ah, Louise.
Talvez seja a história mais improvável de todas.
Ela foi embora de Paris.
Sumiu por um tempo.
E, quando voltou a dar notícias...
Era outra mulher.
Casou-se no ano passado com Carlos.
Sim.
Carlos.
O ex-padre.
Se alguém tivesse me contado isso antes... eu provavelmente riria.
Ou duvidaria.
Ou os dois.
Mas a vida tem esse talento curioso de reescrever pessoas.
Hoje, Louise não é apenas uma escritora de sucesso.

Agora...
Sobre mim.
Porque, afinal... essa história também é minha.
Hoje, eu tenho 10% de uma editora.
E, por mais estranho que isso soe, às vezes eu ainda paro e penso em como tudo isso começou.
Eu não era nada disso.
Mas me tornei.
Com o tempo.
Com erros.
Com perdas.
E com escolhas que nem sempre foram fáceis.
Além disso... eu ensino.
Ajudo outros escritores.
Gente que está começando, perdida, sem saber por onde ir - como eu já estive um dia.
Eu mostro caminhos.
Corrijo textos.
Explico o que ninguém explica.
E, principalmente... ajudo histórias a chegarem até as pessoas.
Porque eu sei o que é ter algo para contar... e não saber como.
E talvez essa seja uma das coisas que mais me dá sentido hoje.
No pátio central da editora...
Existe uma estátua.
Grande.
Imponente.
Silenciosa.
Pierre Durand.
Em sua forma de gárgula.
Foi Eugène quem fez.
Para quem vê de fora, é apenas uma homenagem ao personagem de um livro que fez sucesso.
Um símbolo.
Uma obra de arte.
Mas a verdade...
Está escondida.
Como sempre esteve.
Para mim, aquela estátua não é ficção.
É memória.
É história.
É... ele.
De alguma forma, ainda presente.
Eugène...
Nós nos casamos no ano passado.
E não foi como nos contos de fadas.
Não foi por romance no início.
Foi por necessidade.
Por proteção.
Por ela.
Minha filha.
Ange.
Sim.
Esse é o nome dela.
E foi também um pedido.
O último pedido de Pierre.
Que nós a criássemos.
Que nós a protegêssemos.
Que ela tivesse uma vida que ele nunca pôde ter.
E nós fizemos isso.
Assinamos papéis.
Formalizamos tudo.
Criamos uma versão aceitável da realidade.
Uma história limpa.
Sem monstros.
Sem segredos.
Sem sangue.
Mas o tempo...
O tempo fez o que nós não planejamos.
Transformou.
O que começou como proteção...
Virou vínculo.
Virou cuidado.
Virou família.
Hoje, Emma chama Eugène de pai.
Sem esforço.
Sem dúvida.
E a mãe dele...
É avó.
Presente.
Carinhosa.
Real.
Às vezes, eu observo minha filha correndo pelo jardim.
Rindo.
Livre.
Sem saber de nada.
E talvez... seja exatamente assim que deve ser.
Ela não precisa carregar o que ficou para trás.
Não precisa saber de tudo.
Não agora.
Talvez nunca.
E, pela primeira vez...
Isso não me assusta.
A vida não virou perfeita.
Não existe "felizes para sempre".
Isso eu aprendi.
Mas existe algo melhor.
Existe escolha.
Existe continuidade.
Existe... paz.
Mesmo que em pequenos momentos.
E, no fim...
Talvez seja isso que realmente importa.
Porque algumas histórias não terminam com finais grandiosos.
Elas terminam... com vida.
Seguindo.
Respirando.
Continuando.
E a minha?
A minha não acabou.
Ela só... finalmente ficou em silêncio.
E, pela primeira vez...
Esse silêncio não dói.
Ele acolhe.
E isso...
Já é suficiente.
...

E não há mentira nisso.
Há apenas... amor.
Mas nem tudo pode ser controlado.
No começo deste ano, conseguimos algo que nos trouxe um breve alívio.
Lentes de contato.
Verdes.
Da cor dos meus olhos.
E, pela primeira vez desde o nascimento de Ange... pudemos sair com ela sem medo imediato.
Sem olhares estranhos.
Sem suspeitas.
Sem perguntas.
Foi... libertador.
Por um momento, acreditei que talvez - só talvez - pudéssemos ter uma vida normal.
Mas a normalidade nunca foi feita para nós.
Na semana passada...
Ange começou a reclamar de dores nas costas.
No início, pensamos que fosse algo simples.
Crescimento.
Uma queda.
Qualquer coisa explicável.
Mas ontem...
Eu vi.
Eugène viu.
E não havia mais como negar.
Pequenas elevações surgiam sob a pele.
Simétricas.
Firmes.
Erradas.
O início de algo que nós conhecíamos bem demais.
Asas.
Ou o que um dia... seriam asas.
Eugène fez o que pôde.
Com cuidado.
Com precisão.
Com desespero disfarçado de controle.
Aparou o que estava começando a romper.
Escondeu.
Como se fosse possível esconder aquilo por muito tempo.
Como se fosse possível... conter o que ela é.
E foi então que a pergunta surgiu.
Não dita.
Mas presente.
Até quando?
Até quando vamos conseguir esconder?
Até quando o mundo vai permanecer cego?
Até quando o sangue de Pierre ficará adormecido nela?
Hoje de manhã...
Eu levei Ange até uma praça.
Nada grandioso.
Nada simbólico.
Apenas um playground comum.
Crianças correndo.
Risos.
Vida.
Ange brincava como qualquer outra criança.
Livre.
Leve.
Inocente.
E, por um instante... eu quase acreditei.
Quase.
Foi então que eu senti.
Aquele tipo de sensação que não se explica.
Apenas se reconhece.
Um olhar.
Pesado.
Fixo.
Errado.
Levantei os olhos.
E a vi.
Uma mulher.
Vestida de preto.
Parada.
Imóvel.
Observando.
Não havia criança ao lado dela.
Não havia distração.
Apenas um celular nas mãos... e os olhos.
Presos em Ange.
Analisando.
Calculando.
Como se já soubesse.
Como se estivesse esperando.
Meu coração apertou.
Não de medo.
Mas de reconhecimento.
Porque o passado... nunca vai embora.
Ele apenas espera o momento certo para voltar.
Segurei Ange.
Forte.
Mais forte do que deveria.
Ela riu, sem entender.
E eu sorri de volta.
Porque é isso que mães fazem.
Mesmo quando o mundo começa a ruir novamente.
Protegem.
Mesmo sem saber como.
Enquanto saía da praça, não olhei para trás.
Eu não precisava.
Eu sabia.
Ela ainda estava lá.
Observando.
Esperando.
E, naquele instante, compreendi algo que deveria ter aceitado desde o começo:
Histórias como a nossa... nunca realmente terminam.
Elas apenas aprendem a se esconder melhor.
"Porque há legados que não podem ser enterrados... apenas herdados."

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