80-O incêndio

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Louise cruzou os braços, o sorriso crescendo devagar, como alguém que saboreava cada segundo daquela situação.

— Engraçado, não é, Charlotte? — disse ela, com a voz suave demais para ser sincera. — Como algumas pessoas conseguem cair, e ainda assim pousar em pé. Quase como se o mundo conspirasse a favor delas.

Inclinei levemente a cabeça, mantendo o olhar firme.

— Não sei do que você está falando.

Ela soltou uma risada baixa, descrente.

— Ah, sabe sim. Você sempre sabe. — deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós. — Só não admite.

O silêncio ao redor parecia mais pesado. Até o ar parecia observar.

— Eu fico impressionada — continuou ela, passando os dedos pelo próprio cabelo com falsa tranquilidade — com a sua capacidade de se reinventar. Plágio, escândalos, gente sendo destruída no seu caminho, e ainda assim você aqui, sorrindo para câmeras, sendo idolatrada.

Apertei os lábios, mas não respondi.

Louise inclinou o rosto, estudando minha expressão como quem analisa uma obra.

— Você é boa, Charlotte. Muito boa. — murmurou. — Quase me faz acreditar que é inocente.

Respirei fundo.

— Se você tem algo pra dizer, fala logo.

Os olhos dela brilharam.

Era exatamente o que ela queria.

— Tenho, sim. — respondeu, com um sorriso lento. — Na verdade, eu queria te desejar algumas coisas.

Cruzei os braços, esperando.

— Eu espero, de verdade, que tudo desmorone. — disse ela, agora sem disfarçar. — Que esse seu império bonito, essa imagem perfeita, comece a rachar. Devagar. Do jeito mais doloroso possível.

Minha mandíbula travou.

— Que as pessoas comecem a enxergar quem você realmente é. — continuou, com a voz mais baixa, quase íntima. — E que, quando isso acontecer, não sobre ninguém ao seu lado.

Ela deu mais um passo.

— Porque é isso que você faz, não é? — sussurrou. — Usa, sobe, e deixa pra trás.

— Cuidado com o que você fala — retruquei, fria.

Louise sorriu.

— Ou o quê?

O silêncio pesou entre nós por um segundo.

Então ela inclinou o corpo levemente, como se fosse contar um segredo.

— Sabe, ontem à noite eu encontrei alguém interessante.

Meu estômago revirou antes mesmo dela terminar.

— Jean.

O nome caiu como uma pedra.

Louise observou minha reação com atenção, claramente satisfeita.

— Seu ex-marido. — completou, com um brilho cruel nos olhos. — Nós conversamos bastante.

Engoli em seco, mantendo a postura.

— Não me interessa.

— Não? — ela arqueou uma sobrancelha. — Engraçado, porque ele parecia bem interessado.

Desviei o olhar por um segundo, mas ela não deixou passar.

— A gente começou com uma cerveja — continuou, casual, como se comentasse o clima. — Na verdade, várias.

Ela riu, lembrando.

— Ele fala muito quando bebe. Muito mesmo. Coisas que talvez você não soubesse, ou fingia não saber.

Voltei a encará-la.

— Chega.

— Ah, ainda não — disse ela, rapidamente. — A melhor parte vem agora.

Ela se aproximou mais, tão perto que sua voz quase roçou meu ouvido.

— Você não faz ideia de onde terminou a nossa noite.

O silêncio depois da frase foi sufocante.

Louise se afastou devagar, observando cada reação minha como quem assiste a um espetáculo particular.

— Mas não se preocupe — acrescentou, com um sorriso satisfeito. — Eu sou ótima em guardar segredos.

Ela deu um passo para trás, ajeitando a própria roupa como se nada tivesse acontecido.

— Por enquanto.

Seus olhos se fixaram nos meus uma última vez.

— Aproveita esse momento, Charlotte. Esse brilho, esse sucesso, essa admiração toda...

A pausa foi calculada.

— Porque tudo isso pode desaparecer, muito mais rápido do que você imagina.

E então, com a mesma calma com que havia chegado, Louise virou as costas e fez menção de ir embora, deixando atrás de si um rastro invisível de tensão, veneno, e promessa. Mas não foi.

Louise não foi embora.

Ela ficou.

E o silêncio entre nós deixou de ser vazio, tornou-se pesado, inflamável, prestes a explodir.

— Fala mais uma vez — minha voz saiu baixa, perigosa. — Eu te desafio.

Louise sorriu.

Não era mais um sorriso.

Era um corte.

— Você quer mesmo saber, Charlotte? — disse ela, inclinando levemente a cabeça. — Quer que eu conte tudo? Cada detalhe?

O ar pareceu mudar.

Algo estalou acima de nós.

Mas nenhuma de nós desviou o olhar.

— Você sempre foi assim — continuei, dando um passo à frente. — Invejosa. Pequena. Vivendo da sombra dos outros.

Os olhos dela escureceram.

— E você sempre foi uma mentira bem contada — rebateu, sem hesitar. — Um rosto bonito escondendo o que realmente é.

Outro estalo.

Mais alto.

Dessa vez, um leve pó caiu do alto, como cinzas antecipadas.

— Cuidado, Louise — murmurei. — Você está mexendo com coisas que não entende.

— Não — ela sussurrou, aproximando-se ainda mais. — Eu finalmente estou entendendo tudo.

E então...

O cheiro.

Veio mais forte.

Inconfundível.

Queimado.

Uma vela próxima tremulou de forma violenta, como se tivesse sido tocada por um vento invisível. A chama dançou, cresceu, e uma gota de cera quente caiu no chão.

Ninguém mais parecia notar.

Só nós.

— Engraçado — disse Louise, olhando rapidamente ao redor, mas sem perder o foco em mim — como tudo ao seu redor sempre acaba em destruição.

— Você não faz ideia do que está dizendo.

— Tenho sim. — ela sorriu de novo. — E tenho provas.

Um som seco ecoou pelo teto.

Dessa vez, madeira.

Cedendo.

Um fio invisível de fumaça começou a descer entre as colunas da Catedral de Notre-Dame, serpenteando como uma criatura viva.

As luzes vacilaram.

Por um segundo.

Dois.

— Você quer me destruir? — perguntei, sentindo o coração acelerar. — Então tenta.

— Eu não preciso tentar — respondeu ela. — Você já está caindo.

Um estalo violento.

E então, veio a primeira fagulha.

Pequena.

Quase bela.

Ela caiu como uma estrela morta sobre uma das estruturas de madeira próximas.

E o mundo prendeu a respiração.

A chama nasceu tímida.

Dourada.

Frágil.

Mas faminta.

Subiu devagar pela madeira antiga, encontrando nela séculos de história seca, pronta para queimar.

— Você sente isso? — Louise sussurrou, os olhos brilhando de um jeito estranho. — É como se tudo estivesse, esperando.

O calor começou a crescer.

Sutil.

Depois insistente.

Uma vela tombou.

Depois outra.

O fogo encontrou tecido.

Madeira.

Ar.

E então, ele respirou.

As chamas se esticaram como dedos, alcançando mais alto, mais longe, mais rápido. O teto começou a crepitar, um som vivo, cruel, como ossos sendo quebrados.

Gritos surgiram ao fundo.

Distantes no começo.

Depois próximos demais.

— Charlotte... — alguém chamou ao longe.

Mas eu não conseguia me mover.

— Olha ao seu redor — disse Louise, agora quase em êxtase. — Olha o que está acontecendo.

O fogo subia pelas estruturas antigas, iluminando as gárgulas com uma luz infernal. As sombras dançavam nas paredes de pedra, deformadas, grotescas.

Uma imagem sacra caiu.

Quebrou.

As chamas a engoliram sem hesitar.

O ar ficou pesado.

Quente.

Irrespirável.

— Isso... — Louise abriu os braços levemente, como se recebesse aquilo — é o começo.

— Você é doente — falei, finalmente recuando um passo.

— Não — ela respondeu, com um sorriso que não tinha mais nada de humano. — Eu só estou assistindo você perder tudo.

O fogo rugiu.

Agora não era mais discreto.

Era um monstro.

As chamas correram pelo alto como um rio de luz destrutiva, pedaços incandescentes começaram a cair, como chuva de brasas.

O teto gemeu.

A catedral inteira pareceu estremecer.

E entre nós duas, no meio do calor, da fumaça e do caos...

A briga deixou de ser só palavras.

Virou destino.

 

O calor já não era mais uma ameaça distante.

Ele estava ali.

Respirando.

Crescendo.

As chamas começavam a se espalhar pelas estruturas antigas da Catedral de Notre-Dame, subindo pelas vigas como serpentes vivas, iluminando tudo com um brilho cruel.

Gritos ecoavam.

Pessoas corriam.

O ar já ardia nos pulmões.

— A gente precisa sair daqui! — falei, virando o corpo, finalmente tentando ir em direção à saída.

Dei um passo.

Dois.

Mas não fui longe.

Uma mão agarrou meu braço com força.

Louise.

— Você não vai a lugar nenhum — disse ela, a voz baixa, carregada de algo sombrio.

— Me solta! — puxei o braço, tentando me libertar. — Louise, para com isso! O lugar tá pegando fogo!

Ela não soltou.

Aperto mais forte.

Doloroso.

— Agora você quer fugir? — ela riu, sem humor. — Justo agora?

— Louise, me solta! — insisti, tentando me desvencilhar.

Foi quando veio o primeiro tapa.

Forte.

Seco.

Meu rosto virou com o impacto, o gosto metálico do sangue surgindo quase instantaneamente na boca.

Fiquei atordoada por um segundo.

— Isso é por tudo — ela disse, antes de me atingir de novo.

Outro tapa.

Mais forte.

Levei a mão ao rosto, tentando me proteger.

— Você enlouqueceu! — tentei empurrá-la, mas ela já vinha pra cima.

Louise agarrou meu cabelo.

Com força.

Puxou sem piedade, fazendo meu corpo inclinar para trás.

A dor foi imediata, aguda.

— Você acha que pode simplesmente destruir a vida dos outros e sair ilesa? — ela gritava agora, o rosto distorcido pela raiva.

— Eu não fiz nada! — tentei me soltar, segurando o pulso dela, tentando aliviar a pressão.

Mas ela puxou mais.

Mais forte.

Minhas pernas vacilaram.

O calor aumentava.

Atrás de nós, uma parte da estrutura cedeu com um estrondo, espalhando faíscas pelo chão como uma chuva de fogo.

— Mentirosa! — Louise gritou, me empurrando com violência.

Caí de lado, as mãos raspando no chão de pedra.

Antes que eu pudesse me levantar, ela já estava em cima de mim.

Outro tapa.

Depois outro.

Rápidos.

Descontrolados.

Levantei os braços, tentando proteger o rosto.

— Para! — gritei, sentindo os golpes atingirem meus braços, meus ombros.

Ela não parava.

Louise me puxou novamente pelos cabelos, levantando parcialmente meu corpo só para me jogar contra o chão outra vez.

Minha visão começou a embaçar.

O ar, estava difícil.

Fumaça.

Demais.

Tossi.

— Olha pra você — ela cuspiu as palavras. — Fraca.

Tentei reagir.

Empurrei com as pernas, consegui afastá-la por um segundo.

Rastejei um pouco, tentando ganhar distância, tentando levantar.

O fogo agora estava mais perto.

Muito mais perto.

O calor queimava a pele.

— Louise... — minha voz saiu falha. — A gente vai morrer aqui!

Ela parou.

Por um segundo.

Apenas um.

Então sorriu.

Um sorriso frio.

Decidido.

Levantou-se completamente.

— Não.

Deu um passo para trás.

— Só você.

Antes que eu entendesse, ela avançou novamente.

Dessa vez, com força total.

Suas mãos me empurraram com violência.

Meu corpo foi lançado para trás.

Direto.

Para as chamas.

O calor me envolveu antes mesmo de eu tocar o chão.

Um impacto seco.

O mundo virou fogo.

Ar quente.

Luz laranja.

Dor.

Louise já não estava mais ali.

Ela correu.

Fugiu.

E me deixou.

Para queimar.

 

As labaredas já não eram mais um sinal distante.

Elas haviam começado na torre, onde a restauração elétrica acontecia, silenciosas no início, escondidas entre fios e madeira antiga, mas agora já tinham se espalhado.

E haviam chegado.

Ao mesmo andar onde, minutos antes, a live acontecia.

O fogo avançava pelas estruturas da Catedral de Notre-Dame com uma fome antiga, alimentado pela madeira seca de séculos. O crepitar ecoava como um aviso tardio.

Do lado de fora, uma viatura já havia chegado antes mesmo dos bombeiros. A fumaça escura subia pesada, denunciando que aquilo estava longe de ser um princípio de incêndio.

Jean desceu do veículo, os olhos imediatamente buscando o alto da catedral.

A torre.

— Pede reforço agora — disse, tenso, ao parceiro. — Começou lá em cima, e já desceu. Isso vai piorar.

O parceiro assentiu, ficando do lado de fora enquanto Jean entrou sem hesitar.

Lá dentro, o caos já dominava.

Gritos.

Correria.

Turistas desorientados tentando encontrar a saída.

O crepitar do fogo começava a ganhar força, e a fumaça escura subia pelos céus de Paris como um aviso.

O caos já havia começado.

Gritos.

Correria.

Turistas tentando encontrar a saída.

E, no meio disso tudo...

Pierre Duran.

Ele estava ali.

Sua forma de pedra se desfazendo, rachando, cedendo.

A gárgula despertava.

A pele pétrea se rompia, revelando carne, sangue, humanidade. Ele ainda nem havia compreendido totalmente o que estava acontecendo quando-

— BANG!

O primeiro disparo ecoou.

Pierre travou.

— BANG!

O segundo.

Ele levou a mão ao ombro, os olhos se arregalando.

— BANG!

O terceiro tiro o atingiu.

Dessa vez, ele caiu.

O corpo agora totalmente humano bateu contra o chão de pedra com um impacto seco. O ar fugiu de seus pulmões.

Sangue.

Quente.

Imediato.

Escorrendo entre seus dedos.

As balas, feitas de carvalho, queimavam por dentro como veneno vivo.

Jean abaixou a arma.

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